quarta-feira, 19 de setembro de 2012

tive sede e não me destes de beber...

1. A figura de Cristo impressiona e é de atualíssimo conhecimento, estudo, investigação por parte dos cientistas, catedráticos, lentes no mundo inteiro. Nem todos tem a mesma visão certa de quem foi o Jesus de Nazaré, mas querem falar dele, de suas obras e de sua missão. Porque dá prestígio, porque foi um homem que amealhando doze pescadores iletrados conquistou o mundo ou porque definiu a paz como reflexo da sua divindade. Ou porque desafiou o poder dos césares, enfrentou com argumentos convincentes os sumos sacerdotes, escribas e doutores da lei.

2. Ao mesmo tempo que se admiram deste homem providencial, negam a que ele veio e sua natureza divina. Aventam teorias, provocam cismas, enlouquecem a si e os outros que se detém para ouvi-los e dão crédito cientifico à suas digressões reflexivo-especulativas. O Cristo sempre foi objeto de elucubrações, uns o querem sem espinhos, outros o revolucionário, político, apartado da sua Igreja, ou disforme em sua imagem verdadeira e consubstancial ao Pai.

3. É o caso recente da notícia veículada acerca de um suposto manuscrito sobre  ' a esposa de Jesus' que de cara vai contra todo o ensinamento apostólico do celibato e da missão de um Deus Humanado. Vai contra a doutrina do Evangelho e todas as deduções e vivência ao longo de mais de dois mil anos da Igreja Católica. Vai contra todas as circunstâncias primeiras do plano da  redenção desde a anunciação do anjo Gabriel à Virgem Maria e o fato que a sua virgindade seria preservada ao dar à luz ao unigênito de Deus.

4. Vai contra a trajetória daquele que passou a vida fazendo o bem, realizou milagres, carregou uma pesada cruz, recebeu uma chaga profunda e dolorosa em seu ombro, foi pregado, derramou todo o seu sangue sacrossanto e redimiu o genero humano, ressuscitou, ascendeu aos céus e virá julgar os vivos e os mortos, conforme as escrituras sagradas.

5. Estamos falando da figura, não de um grande profeta, mas do próprio Deus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade e que por mais legítimo que seja o conúbio, ele não precisou provar do matrimônio, uma vez que ele próprio criou as leis da reprodução e está acima delas. Esta especulação absurda da Senhora Karen King e seu papiro apócrifo não tem consistência nenhuma com a verdade histórico - patrística, seria a mesma coisa que eu pegar a bíblia  e tentar provar por um versículo isolado que 'Deus não existe', sem ler o complemento: 'diz o insensato no seu coração'.

6. O matrimônio é um sacramento e como tal é cercado de todo o cerimonial pela Igreja, requer indissolubilidade e fidelidade, e o sexo entra numa perspectiva transcendental de gerar almas para povoar os lugares vazios deixado  pelos anjos decaídos quando de sua expulsão do céu pelo arcanjo Miguel. O gôzo carnal que ele traz é uma forma dos consortes colaborarem com 'crescei-vos e multiplicai-vos...'

7. Agora inferir de um simples fragmento apócrifo, uma versão contrária a ordem perfeita estabelecida pelo criador, no mínimo foge a realidade dos fatos e torna-se uma inverdade histórica. O que é é e não é um papiro em língua copta que vai mudar a verdade da pureza de Cristo, a sua santidade, celibato, a sua abnegação, e sua perfeição divina e humana. 

8.  Ora, um olhar atento sobre os quatro  evangelhos, escritos sob a inspiração do Espírito Santo e fundamentado na tradição que remonta aos apóstolos, embasa a tese correta e a pureza das intenções de Deus: uma virgem concebeu  e deu a luz a um filho e não conheceu varão permanecendo virgem por obra do mesmo espírito e por conseguinte seu filho Deus que encarnou em seu seio ilibado estaria longe de fugir à regra. Ele veio para realizar a grande obra da redenção e suas ações tinham conta, peso e medida.

9.  Agora inferir que ele tivesse tido 'espôsa', é um absurdo que raia à loucura. O cântico dos cânticos refere-se as esposas no sentido místico, como a Igreja é a esposa mística de Cristo e as mulheres consagradas a Deus o são por extensão. Nas bodas de Caná, quando Jesus opera seu primeiro milagre a pedido de sua mãe, ele se utiliza do termo 'mulher' que os exegetas falam ser um tratamento carinhoso, que poderia ser por exemplo: 'minha senhora'.

10. A castidade e o celibato são duas flores cultivadas na Igreja Católica, e de rara beleza  às  almas consagradas a Deus e são uma das reservas mais preciosas ao coração de Jesus, bem aventurados os puros e limpos de coração porque verão a Deus, de uma maneira que eternamente assistirão ao trono do cordeiro cantando um cântico novo.

11. A mídia, no afã de novidades e sensacionalismo focou a notícia do fragmento copta e quase não deu margens para as réplicas, para os argumentos que provam a verdade histórica de Jesus de Nazaré e sua missão única e salvífica.E se hoje com os recursos gráficos de alta definição este fragmento não ter sido alterado? Mas não, prefere dar ouvidos às fábulas e não é de hoje que publica notícias a respeito de Cristo, com as distorções, as maiores que a imaginação já teceu sobre algum personagem  importante da história. Com um detalhe: Estão falando mal do Proprio Deus: 'o caminho, a verdade e a vida.'

12. Se cantamos, ela não dança, se lamentamos ela não chora, se escrevemos ela não lê, e de hipóteses em hipoteses vai divertindo os incautos, alimentando os céticos e cavando seu próprio buraco. Quão longe dista da caridade a que se refere o apóstolo dos gentios:'...não se alegra com a injustiça, mas rejubila-se com a verdade...'  Cristo bem poderá no seu Juízo Final repetir-lhe: '... Porém, tive sede e não me destes de beber...

13. Querem saber toda a verdade acerca de Jesus Cristo; a fonte donde emana a sustância está no evangelho de São João Evangelista, o discípulo amado e casto que conviveu com Nossa Senhora em Éfeso e  sorveu dela  gôta por gôta o néctar da divindade de Cristo e soube resumi-la brilhantemente:

14. 'No princípio era o Verbo e o verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus.Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.Nele havia vida, e a vida era luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

15. Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. Este veio como testemunha para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. Não era ele a luz, mas veio para dar testemunho da luz.

16. O verbo era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem. Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam.

17. Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.

18. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sus glória, a glória que o filho único recebe de seu Pai, cheio de graça e verdade'.

19. Aí está a definição apropriada, toda a verdade sobre Jesus Cristo, relatada por um apóstolo, que jovem ainda seguira o Mestre bem de perto e vai viver muito, cuidar da Mãe de Cristo, passar dos noventa anos, administrar com zelo e amor a Igreja na Ásia Menor  e encerrar sua trajetória terrena em Éfeso escrevendo um dos livros mais preciosos da história: O Apocalipse.

20. A realidade de um Deus humanado está presente em João, a rejeição por parte de muitos, patente. Não há como negar a dimensão incomensurável de sua bondade, misericordia e justiça, seus planos, ações e intenções de salvação e elevação para o gênero humano.

21. Não há como negar os tropeços de muitos, a não compreensão exata da pedra de contradição, amada ao extremo por muitos, rejeitada pelas mentes atéias, céticas, contrariadas em sua paixões, equivocadas em suas crises existenciais ao longo da história.

22. Mas a   luz diáfana de Cristo vai brilhar sempre acalentando seus amigos, afugentando as trevas do caminho e atraindo a si todas as coisas, e os séculos vindouros no acalanto de suas monções, quando a sua sede de justiça será saciada pelo tempo soberano.

23. Se torna mister encerrar e quem melhor do que Santo Agostinho, a quem convido para discursar em meu lugar para o publico que considero mentor.

24'...O tempo não corre debalde, nem para inutilmente sobre nossos sentidos, ainda causa na alma efeitos maravilhosos... voltai pecadores, ao coração, e ligai-vos àquele que é vosso criador. Firmai-vos nele, e estareis descansados. Para onde ides por esses ásperos caminhos? Para onde ides? O bem que amais dele procede, mas só é bom e suave quando se dirige a ele, porém será justamente amargo se, abandonando a Deus, amardes injustamente o que dele procede.

25. Porque continuais por caminhos difíceis e trabalhosos. O descanso não está onde buscais, buscais a vida feliz na região das trevas, não está lá. Como achar a vida bem aventurada onde nem sequer há vida?

26. Ele, nossa vida real veio até nós , sofreu nossa morte, e a suplantou com a abundância de sua vida; com voz de trovão clamou para que voltássemos a ele, para o lugar escondido de onde veio até nós, passando primeiro pelo seio de uma virgem, onde se desposou com ele a natureza humana, carne mortal para não ficar sempre mortal.

27. Dali, como o esposo que sai do tálamo, deu saltos como um gigante, para correr seu caminho. E não se deteve; correu clamando com suas palavras, com suas obras, com sua própria morte, com sua vida, com sua descida aos inferos e com sua ascensão, clamando para que voltássemos a ele.

28. Se ele se afastou de nossa vida, foi para que entremos em nosso coração e ali o encontremos; se partiu, ainda está conosco, não quis ficar muito tempo entre nós, mas não nos abandonou. Retirou-se de onde nunca se afastou, pois o mundo foi criado por ele, e no mundo estava e ao mundo veio para salvar os pecadores.

29... Dizei-lhes isto, minha alma para que chorem neste vale de lágrimas, e assim os arrebates contigo para Deus, pois ao dizer estas palavras ardendo em chamas de caridade, é o espírito divino que te inspira.

30.E mais, querem amigos conhecer um poeta verdadeiro que conhecia o tempo de Deus, e mais que um poeta um portento de santidade, um gênio de perenidade? O filho ilustre de África, que amamos! Olha o que ele disse em caracteres indeléveis bebendo na fonte cristalina do mestre Jesus:

31. '... Tarde te amei, oh! Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei, trinta anos estive longe de Deus, mas durante este tempo algo se movia dentro do meu coração. Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava.Mas Tu te compadeceste de mim e tudo mudou porque Tu me deixaste conhecer-Te Entrei no meu íntimo sob a Tua guia e o consegui porque Tu Te fizeste meu auxílio.' 

32.'... Exalaste teu perfume e respirei. Agora suspiro por ti, anseio por ti, Deus, de quem separar-se é morrer, de que aproximar-se é ressuscitar, com quem habitar é viver, de quem fugir é cair, a quem voltar-se é levantar, em quem apoiar-se é estar seguro. Deus a quem esquecer é perecer, a quem buscar é renascer, a quem conhecer é possuir.'

33.'... Tarde te amei! Tarde te amei, oh! beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que estavas dentro e eu fora. E fora te buscavas e lançava-me, disforme e nada belo, ante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo e não eu contigo.'

34.'...Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam senão em ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e tua luz afugentou minha cegueira.'

35.'... Exalaste teu perfume  e respirando-o, suspirei por ti,te desejei, eu te provei, te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me e agora estou ardendo em desejos por tua paz.'

35. '... Ó Deus, faz que eu te conheça, meu conhecedor, que eu te conheça como de ti sou conhecido.Virtude de minha alma, penetra-a, assemelha-a a ti, para que a tenhas e possuas sem mancha, nem ruga...'

36.'...Esta é a esperança com que falo, e nesta esperança me alegro, quando gozo de sã alegria. Tudo o mais desta vida, tanto menos se há chorar, quanto mais o choramos, e tanto mais teríamos que chorar quanto menos o choramos.'

37.'... Mas tu amaste a verdade, porque quem a pratica alcança a paz. Eu desejo praticá-la em meu coração, diante de ti por esta minha confissão e diante de muitas testemunhas por meus escritos.' (Confissões de Santo Agostinho).
Helder Tadeu Chaia Alvim

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

intuir ou opinar?

1. Hoje acordei com uma disposição  de escrever um complemento sobre o Santo de Hipona, acho que vou opinar! - Fique à vontade! - Ah! Obrigado! Quando a gente se detém a analisar o movimento das civilizações que nos antecederam vemos que do período Um da era cristã até ao ano 500 era maciçamente Roma que comandava os destinos do mundo conhecido.

> A palavra na época de Agostinho de Hipona já existia com os gregos e romanos mas ele, grande poeta a transformou em inspiração; quando Deus pousou sua mão suavemente sobre sua cabeça, do papel bruto de seus escritos saiu um hino de louvor a cortejar o tempo, a rimar fugacidade com devoção,a perscrutar a verdade, por isso a genialidade de sua concepção, a atualidade de seus conceitos e a perenidade de seu valor.Inspirado nesse mestre humilde vou prosseguir consigo nesta jornada rimando sinceridade com amizade e verdade!

2. Pensando bem acho melhor sair da opinação, largar mão da intuição e partir para fatos concretos e históricos.Pois opinar pode ser um ato de carregar para o papel impressões;intuir é interpretar subjetivamente fatos e acontecimentos e constatar se encaixa neste perímetro como a dedução à luz do passado e presente. Não se enquadra a previsão por se tratar de um dom que vê com acerto o futuro, diferente do palpite.

3. Neste cenário da pax romana um anjo foi enviado por Deus à cidade de Nazaré, na Judéia com a missão de anunciar que as profecias a respeito do Messias estavam prestes a se realizar. Maria, recebeu o anuncio que fora escolhida para ser sua Mãe e que o Espirito Santo a preservaria e após dar à Luz por milagre continuaria a ser virgem. Ela fora concebida sem a mácula original desde o primeiro momento de sua concepção no seio de sua mãe Ana.

4. Aceitou na humildade de sua graça, entoou seu canto de alegria que perdura até hoje e os planos de Deus se concretizaram em Belém, com o nascimento de Cristo. Os reis do Oriente souberam em sonhos que iria rair uma nova era de paz, perdão e redenção do gênero humano. Partiram logo de suas terras guiado pela estrela e com grande comitiva chegaram na manjedoura e adoraram o menino Deus, junto com os pastores e o coro angelical.

5. Uma lufada de ar fresco e salutar soprara na terra convulsionada e a esperança brilhou novamente nos corações dos homens de boa vontade. A maldade tentou impedir estes desígnios pelo edito de Herodes ao matar os primeiros santos inocentes, mas o anjo em alerta máximo avisou a José pai adotivo da criança -Deus e juntamente com Maria fugiram para o Egito.

6. Serenada a tensão com a morte do emissário maligno retornaram à sua terra e o menino sob a guarda de José, sob os olhares maternos, da melhor e mais pura de todas mães, cresceu em idade e sabedoria até se manifestar nas bodas de Caná com o primeiro milagre antecipado a pedido de sua mãe.

7. Iniciou a sua vida pública aos 30 anos de idade, arregimentou discípulos, escolheu doze dentre eles e os nomeou apóstolos e continuadores de sua missão salvífica. Veio ao rio Jordão e foi batizado por  seu primo o Batista, que dentre os nascidos de mulher foi o maior como afirmara Jesus. Depois começou a percorrer a Palestina entre os lirios do campo, o mar de Tiberides, Cafarnaum, Tiro, Sidon, Cesaréia de Felipe,Jerusalém entre outras regiões.

8. A maldade que não dormia, voltou suas baterias contra o Nazareno e na pessoa dos fariseus urdiram sua banição com o pretexto de salvar seu povo eleito. E a gôta d'agua foi quando Jesus ressuscitou seu amigo Lázaro.

9.O príncipe da paz afirmou para que veio, e não pestanejou em desmascarar o farisaísmo daqueles que deveriam por honra e dever apresentar ao povo o Messias,o grande esperado das nações.

10. Compassivo perdoou a pecadora arrependida, curou cegos e leprosos, fez andar os coxos, ressuscitou o único filho da viúva de Naim e fez prodígios tais que estas parcas linhas não caberiam de tanto explanar.

11. Realizou milagres, ensinou o povo, percorreu vales e montanhas operando o bem e foi entregue nas mãos dos seus inimigos. Era mister passar pela crucifixão para abrir com a chave da cruz a morada eterna.Após o consumattum est tudo ficou aclareado e na sequência bendita Jesus Cristo, o salvador ressuscitou, ascendeu ao céu, enviou o Espírito consolador a 12 homens, reunidos com os discipulos no cenáculo e dispostos a continuar sua obra salvífica.

12. Concedeu-lhes e a seus sucessores legítimos poderes espirituais suficientes para aplicar os méritos do seu sangue a todas as almas até a consumação dos séculos, quando a última lágrima for derrramada, a ultima folha cair anunciando o apocalipse derradeiro.

13. De origem divina, um diferencial sui generis, a Igreja católica detém as promessas de Cristo, tanto que por mais dificuldades, crises, apostasias, perseguições as portas inferi non praevalebunt adversus ea.Já em 325 Saão Silvestre I convocou 1º concílio em Nicéia para definir seus cânones, afirmar a sua fé na divindade de Cristo e redigir o símbolo das apóstolos, compêndio da fé católica.E serão ao longo da história da Igreja até hoje 21 no total.

14. E aconteceu desse jeito sempre, enfrentou no inicio de sua jornada 10 perseguições, uma mais cruel que a outra, se viu nas catacumbas, na pessoa de seus seguidores foi jogada nas arenas e despedaçada pelas feras, decapitada, deportada e mesmo assim sobreviveu no amor de Cristo.E esta religião desde o começo teve seguidores santos como Antão do deserto(ano 271, o pai do monaquismo e uma das maiores figuras do inicio da era cristã.

15. Estamos intuindo o tempo passado, o tempo de Pedro e Paulo, de Agostinho, de Gregorio Magno, das encruzilhadas da história, e percebemos que Cristo Jesus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade esteve presente sempre, estará agora e no futuro. A grande força da Igreja consiste neste fundamento. O tempo passou para todos eles, para reis, descobridores,déspotas, para todos, mas Deus permanece in aeternum.

16. O tempo soberano sugou reinos e nações, modificou paises, abriu espaço para o edito de Milão, levou homens a se converter, a fundar mosteiros e instituições de caridade.A fazer da terra, na medida do possível e impossível um lugar que espelhasse o paraiso.Haja vista São Bento de Núrsia e sua fundamental Ordem dos Beneditinos.

17. Lá pelo ano de 410 Alarico invade Roma e a hegemonia de então passa para outras mãos 'toscas' e fortes, que vão passo a passo aderir o cristianismo com todas as responsabilidades morais e sociais culminando com a conversão de Clóvis em 493, esposo de Helena, santa e piedosa. E 'in hoc signo vinces' pela visão da cruz ele vislumbrou a fé e a religião de Helena e mudou a história para o bem.

18. E o tempo foi burilando gostos, gestos, ações, a sociedade foi se estruturando mais e mais e Deus o senhor absoluto do tempo, pacientemente esperou para  prevalecer sua oração perfeita.Do ano do declínio do império romano passaram mais  5 séculos de formação, guerras,dominações,erros,acertos.Vale dizer que santos houveram para conservar viva a luz da fé em todas as gerações e o tempo saudou o 2º milênio com esperança renovada.

19. Anteriormente aconteceu um fato, um conjunto de interferências divinas, que podemos nomeá-las de graças especiais intensas. No dia 25 de dezembro de 800,durante a missa de natal, Carlos Magno é coroado imperador do Sacro Império Romano germânico pelo Papa Leão III. Carlos, grande propagador da fé católica muito contribuiu para a conversão dos bárbaros.

20. Carlos Magno foi Imperador da unificação da Europa, ia na frente de batalha, lutava com sua espada, incentivava as artes, as ciências. Fez um reforma ampla no império, mudanças políticas, sociais, educacionais e monetárias e preparou as bases da Idade Média.

21. À partir do ano 1000  o tempo registrou  5 séculos de luz, dado o alcance desta era que saiu da barbárie, e começou a praticar a filosofia do evangelho, expandiu a fé católica para o oriente, reconquistou a Terra Santa, fundou mosteiros,elaborou conhecimentos, construiu castelos e Igrejas, reorganizou a sociedade, equilibrou corpo e espírito.

22. Esta era conheceu muitos e muitos santos e se debruçou sobre as temáticas de Agostinho com ardor, zelo e devoção.Viu florescer outro gênio da metafísica e teologia: Tomás de Aquino, o santo da razão, da prudência, do belo, das definições geniais.Francisco de Assis, o santo da humildade.

23. Lá por  volta de 1500, a maldade urdiu novo jeito de ser, bolou um novo estratagema e instruiu seus emissários da Terra, soprou nos ouvidos de alguns homens-chave uma saudade danada dos valores pagãos na arte, cultura e modos de ser...

24. Fez com que o homem medieval cansasse de admirar, aposentasse suas armaduras; os clérigos a batina; o rei a coroa; os nobres a função; os pagens o serviço. O tempo assistiu a tudo impassível e veio o declínio.Enquanto o Brasil e o novo mundo se abriam para a Evangelho, a Europa retornava com ardor ao classicismo grego e ao antropocentrismo, ao positivismo.

25. A partir deste parágrafo pretendo detalhar século por século,a performance deles em linhas gerais a título de sinopse, sem a pretensão de tornar esta postagem autoridade no assunto, mas a pedido dos leitores  falar o que me impulsionar a inspiração.

26. Se este texto carrega minha opinião, ele está aberto para interação e discussão do assunto sem apegos ou exageros de expressão. Vamos adentrar na zona primordial de entendimento da era atual, a que conhecemos, pois vivemos em meio aos desencontros,desentendimentos globais, problemas, guerras X alta definição tecnológica, informação em tempo real, acesso democrático ao consumo, aquisição de bens, facilidades, bem estar para uma parcela e mal estar para outra, marginalizada da sociedade.

27. Nosso tempo controvertido é herdeiro direto do renascimento que surgiu no ano de 1500 na Europa, mais propriamente no eixo Florença, Veneza, Roma e Milão e se espalhou para toda a Europa reformulando conceitos científicos, enfatizando o corpo humano, exacerbado a razão e deixando a alma, as verdades eternas e a fé para segundo plano.

28. No lugar das catedrais, surgiram os teatros, dos feudos, o burgo, das perspectivas filosóficas, o homem humanista como centro do universo. Em lugar do homem contemplativo anterior, surgiu um novo projeto em curso, a cultura hedonista, do prazer, e do endeusamento pessoal, não diferente das passarelas e novelas atuais.

29. Glamour, fama, prestígio foram as palavras mágicas que embalaram a sociedade do sec. XVI.Em lugar dos esmoleres, apareceu a figura pródiga do mecenas, protetor das artes renascentistas greco-romanas.

30. Com mão de luva, os emissários agiram tranquilamente e executaram fielmente os planos traçados na mesa ardente dos lugares inferiores, sem negar totalmente os valores medievais, aglutinaram aliados importantes no clero, nobreza e povo, quando o tempo anunciou a virada do século 16 para o 17, Deus já estava quase banido da sociedade, e em seu lugar via-se confortavelmente sentado, o homem, sua individualidade, racionalidade e seu exacerbado rigor científico.

31. Contabizadas as perdas, o tempo não esmoreceu, analisou friamente os acontecimentos anteriores, assistiu Martinho Lutero e suas teses de livre exame das escrituras na dieta de Worms,uma roupagem costurada,semeando o germe da desagregação, arrastando príncipes na sua revolta contra o papa e a Igreja Católica,e seus pretextos infundados da salvação sem as obras.Uma negação do primado de Pedro que culminou em afronta à graça e aos sacramentos e às verdades reveladas e seguidas pela inerrável tradição apostólica.

32. Nada passou desapercebido no cômputo inexorável do senhor tempo, que deu tempo ao tempo para saber qual que  era a do livre e solto arbítrio. Aqui entre nós, particurlamente, sabemos que acoitado por pretextos existentes no clero e seus desvios morais, estava em jogo um orgulho sem precedentes contra tudo que era divino. 

33. Por outro lado o tempo sorriu pela primeira vez ao contemplar Inácio de Loyola em Pamplona e sua reação posterior aos erros teológicos nascentes.Viu Nóbrega e Anchieta e o futuro promissor para a fé em terras de Santa Cruz. Viu a ameaça turca ser destroçada em Lepanto por D. João d'Austria em 1571.Viu o concílio de Trento definir verdades, Xavier em Indias e Oriente extremo e sua fé de admirar.

34. O tempo desembarcou no séc. XVII mais confiante e seguro de si, mas com uma pontinha de apreensão, conjugou todas as suas informações e quedou cabisbaixo, recordou o endeusamento da matéria em curso, as teorias antropocentricas gerando utopias e mais utopias, a industrialização in fieri,seus lucros absurdos, as descobertas ultra-marítimas, o acúmulo de gente nos grandes centros urbanos da época e o progressivo abandono de Deus.

35. Uma pausa para se torna obrigatória, até porque o tempo amigo às vezes sofre de insônia e se põe a perambular a esmo, e eu, solidário com ele caminhando no silêncio contemplamos o Nazareno na cruz levantado, olhamos nos seus olhos de dor e vemos o redentor da humanidade, que amou os homens a ponto de se deixar pregar numa cruz.

36.  Os cristãos desterrados, mortos, estraçalhados no coliseu, martirizados com santo Inácio de Antioquia, Sebastião e Jorge Guerreiro. A Hóstia sagrada levantada renovando incruentamente o sacrifício da cruz;  o declínio do império de Rômulo e Remo, os bárbaros afiando espadas, Carlos Magno, Roland e Olivier, nas plagas da doce França; o tempo assistiu radioso a amostra grátis do que seria o reino de Deus na terra dos homens com o florescimento da Idade Média.

37. Sem ilusão, a perdera havia muito, o tempo olhou de soslaio, mineiramente desconfiado o borborinho do renascimento, sua intenções intrinsecas e o ano de 1600 que se alongava e parecia querer eternizar-se nas pinturas de Sandro Boticelli, Leonardo da Vinci e Michelangelo. Atento ao movimento o tempo viu todos descer às suas tumbas frias e receber a glória ou a danação segundo suas obras que só cabe  ao juízo supremo definir.

38. Cabe ressaltar,se me permitir amigo que acompanha meu raciocínio, com sua agradável presença e atenção, que pode postar no comentário a sua opinião, bem vinda em toda e qualquer situação, que o tempo que repetimos, leia-se a medida de Deus,não afiançou o movimento do renascimento, nem podia pois era uma atitude vazia, que a pretexto da arte trazia em seu bojo o germe da negação de Deus, da estrutura feudal da Idade Média, das conquistas daquela era, que não pode-se negar  fez fôrça e elegeu a melhor parte, e o seu mérito não lhe será tirado jamais.

39. Uma era de luz, que fora abortada categoricamente e fez a humanidade retroceder, perder sua essência, e na hora que estava para dar frutos para a posteridade, encaminhando o pensamento e ação para o bem de todos, se viu pulverizada a favor da individualidade cega e deletéria ao bem comum.

40. O ano de 1700 não trouxe muitas novidades a não ser a revolução industrial, o iluminismo, a corrida do ouro entre outras, esta última no Brasil fez eclodir a inconfidência mineira, uma espécie de bastilha à brasileira.A cidade dos homens como preconizava Santo Agostinho, enleada em guerras, ambições, traições, injurias, injustiças estava novamente em curso e se estenderia sine data, deflagraria revoluções, fabricaria, bombas e canhões.

41. O homem, sempre o homem, este pó que se move, quando se afasta da luz, gera trevas totalitárias, absolutismos absurdos, ditadores monstruosos,capazes de virarem o mundo.Nero,Robespiere, Napoleão, Hitler são a demonstração da intolerância. O primeiro incendiando Roma, o segundo, implantou o terror em França, o terceiro em suas conquistas descabidas e o quarto engendrando o pavoroso holocausto.

42. Teve agitações sócios políticas, a revolução americana e sua nova constituição democrática de 1787 e uma dúzia de sublevações espalhadas pelos quatro canto do mundo.

43. Em 1789 explodiu a revolução francesa que iria alterar os rumos do mundo, o movimento derrubou a monarquia, guilhotinou a familia real, espalhou o terror sanguinário e desestabilizou o que ainda restava de harmonia social na França.

44. O século XIX trará para o tempo contrastes descomunais, será saudado com a era dos inventos que transformaria a cara do mundo, a tecnologia desponta: o telefone, telégrafo, a fotografia, a nitroglicerina, o dinamite, as armas, 'automóvel elétrico'o motor à diesel, a gasolina, o dirigivel, são todos uma pequena mostra do poder de invenção que este século moderno carregou.

45. Carregou também influenciado pelo iluminismo muitos disparates políticos e sociais, muita exploração do homem pelo homem, o capitalismo expande e norteia as ações, bancos, industrias detém o poder e influenciam os governantes.O laicismo surge e aliena o homem de Deus.

46. E o tempo viu que Deus olhava para a terra e registrou as aparições de Nossa Senhora em 18 de julho de 1830 à mística Catarina Labouré,  em La Salette, nos alpes franceses à Maximin Giraud e Mélaine Calvat em 19 de setembro de 1846;  em Lourdes, na gruta de Massabiele a Bernardette Soubirous em 11 de fevereiro de 1858. Não passariam 59 anos desta última  aparição e Nossa Senhora se manifestaria em Fátima, Portugal em 1917 a três humildes pastorinhoS:Lúcia,Jacinta e Francisco Marto.

47. Avisos, sinais que as coisas não estavam tão bem assim num mundo altamente modernizado e que carecia da fé divina, que cria na fé humana.O pecado aparece claramente em contraponto à vontade divina,e acumula sobre a cabeça dos homens castigos, guerras,e uma série de infortúnios, até aniquilamento de nações.

48. O século XX já despontou com aprensões, que foram se alastrando para toda a  parte semeando largamente a luta de classes e o ódio declarado a Deus. A Rússia tornou-se bolchevique e uma cortina tolheu a liberdade de milhões de pessoas, matou e deportou em nome desta mesmo liberdade sagrada milhões de outros seres humanos,irmãos nossos.

49. Vieram a 1ª grande guerra, a 2ª também, armas quimicas foram testadas, o átomo enriquecido despejado em Hiroshima e Nagasaki, por sinal as duas cidades mais católicas do Japão; Hitler enfurecido causa o horrivel holocausto e o mundo quase que acaba, e fica plantada a semente danosa da intolerância, que no decorrer de todo o século XX dará frutos péssimos que envergonha as nações.A União Soviética dominará povos com Lênin, Stalin e seus sucessores, contabilizando milhões de gente morta em nome do regime comunista, e Mao na China não ficarpa atrás no sacrificio da vida de seu povo, pelo poder.

49. 'Serenada a paz' no papel, o movimento continua, os desacertos se avolumam, a violência cresce e as tensões adquirem um caracter mundial de novo com a recente onda de atentados às embaixadas ocidentais na África e Oriente Médio. Que matou o embaixador dos EUA na Líbia e mais três americanos.O estopim teria sido um filme sobre Maomé. É inaceitável que estas provocações ocorram num mundo onde sobram intolerâncias e o esforço deve focar a paz, a democracia e a concordia dos povos.

50. E a reação de grupos extremistas esteve acima do que deveria. E só serviu para colocar mais lenha na fogueira.Considero inaceitável esta película veiculada na mídia, não cabe no mundo hoje tais provocações e de muito mau gosto.Não se faz chacota das convicções religiosas de nenhum povo.

51. E as autoridades de seu país de origem devem estar tomando as providências cabíveis, pois não se trata de liberdade de expressão séria e sim charges ofensivas às convicções dos mulçumanos.

52...No instante que escrevo é possível ver o acerto das aparições marianas e dúvidas não pairam mais no ar, aliás nesta atmosfera sufocante em que nos encontramos, só uma mente do mal poderia ter engendrado tantos estragos ao ser humano, tanta devastação a nível planetário do eco sistema a favor de sua 'pródiga evolução', tantos males à sua alma, roubando-lhe sua inocência e fé.

53. De modo que ou vai raiar para a terra desolada algo novo, autêntico mesmo ou estaremos no fim. Algo novo entenda-se o pater noster vivido em toda sua extensão transcendental de harmonia, paz, solidariedade e amor. Pois tratados, acordos, diplomacia e entendimentos que alijem de sua pauta Deus, estará longe da nova ordem universal.

54. E Agostinho de Cartago viu isto com clareza ao afirmar:'...que cada coisa adapta-se não só a seus lugares, mas também a seus tempos, e que tu, que és o único eterno,  não começaste a agir depois de infinitos espaços de tempo, porque todos os espaços de tempo - passado ou futuro - não teriam passado, nem viriam se tu não agistes e não fosses permanente.! (confissões - livro 7, cap. XV).

55. Então a grande sacada hoje não é ter conta bancária gorda, contatos, doutorados e influências,não! É ser humilde e reconhecer a supremacia de bondade de um Deus que tem planos maiortes para esta terra e seus habitantes que criou à sua imagem e semelhança e resgatou com o sangue de seu filho amado.Tanto que insistemente veio na voz da Mãe dos séculos futuros, alertar ainda quanto é tempo.

56. E o gênio da santidade e coração universal continua sua preleção: '...Os sábios gloriam-se disso, e se desvanecem, e com ímpia soberba afastam-se e se eclipsam de tua luz. E, prevendo com exatidão o eclipse verdadeiro do sol, não vêem o seu, que já está presente.'(Confissões- livro 5, cap. III).

57. E hoje atualizando as fórmulas quânticas da alta definição nióbica, o homem tem informação em tempo real, domínio quase absoluto dos elementos e deixa escapar aquela partícula de imortalidade jovem que é a sua alma.Se deixou enlear 'pelo mal - privação do bem- e chegou ao seu limite: o nada e ergueu contra Deus  os chifres de uma falsa liberdade.'

58. Ah! se in fieri tivesse compreendido a grandeza  e valor dela pela ótica do Criador estaria anos e anos luz adiantado e não se arrastando em crises intestinas e insolúveis ao seu poder e alcance limitado. O homem, um ser em forma de pó que ao menor sopro da vontade soberana de Deus, dilui-se em água e evapora-se.

59. E o tempo alima seu destino para soprar novos ventos, mesmo que for preciso sacudir o movimento para restabelecer o equilibrio no planeta ele o fará no seu tempo certo que não cabe intuir ou opinar, cabe só esperar que após as incertezas deste tempo  nosso, outro virá, pois o chanceler de Deus, o tempo criterioso, não desviará o seu curso nem um milímetro da hora acertada com o 'Único Lampejo'

60. E os homens na sua totalidade poderão exclamar fazendo suas as palavras do profeta de Hipona'...Quem somos nós, e como éramos? Que males tivemos em nossas obras, ou, se não em nossas obras, em nossas palavras,ou se não em nossas palavras em nossas vontades!

61. Mas, tu, Senhor,bom e misericordioso, puseste os olhos na profundeza  da nossa morte e purificaste com tua destra o abismo de corrupção de nossas almas.

62. Tratava-se agora apenas de não querer o que nós queríamos, e de querer o que tu querias.' ( Confissões livro 9, cáp. I).'... E - depois - subir do vale de lágrimas, cantando o Cântico Gradual'.

Helder Tadeu Chaia Alvim

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

ite vita est...

ITE VITA EST

1. A cidade de Hipona amanheceu diferente, o sol brilhava com um tom avermelhado, o ar parado, a temperatura elevada. Agostinho se dispunha na sacristia a paramentar-se, acolitado pelos diaconos de sua comunidade religiosa. Era o dia 24 de agôsto de 410. Antes de entrar no altar olhou fixo para o horizonte daquela cidade palco de seu apostolado, lugar onde escrevera as confissões,e um infinidade de outras obras que atravessaria o tempo, apascentara o rebanho do Senhor.Suspirou alto e confidenciou ao amigos Alípio e  Possidio:  ' Hoje chegará uma notícia triste...'

2. E deu início ao santo sacrifício da missa: 'Introibo ad altarem Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam...' Confiteor Deo omnipotenti, beatae Mariae semper Virgini, beato Michaeli Archangelo, beato Joanni Baptistae sanctis Apostolis Petro e Paulo, omnibus sanctis, e tibi Pater, quia peccavi...' Confesso a Deus todo poderoso, a bem aventurada sempre Virgem Maria, beato Miguel Arcanjo, beato João Batista, aos Santos Apostólos Pedro e  Paulo, a todos os santos, a vós Padre... quia peccavi... A sua compenetração  era extraordinária e a Igreja estava lotada. No presbitério encontravam-se muitos do clero de África inclusive  Alípio e Possídio.

3. O Leitor com a voz acentuada  cantou 'de lamentatione Jeremiae Profetae' a sua visão da destruição da Cidade  Santa e Agostinho entoou 'Passio Domini Nostri Jesu Cristhi Secundum Joannem' o evangelho da paixão de Cristo segundo João. Em seguida fez a homilia, explicou as leituras, fez alusão clara às duas cidades opostas entre si, a beleza de uma, a eterna e a aridez de outra, a terrena; discorreu sobre a verdadeira paz que emana do coração de Cristo e acentuou os novos rumos da humanidade... e as nuvens sombrias , carregadas de acontecimentos...

>a. '... O tempo não corre dedalde, nem passa inutilmente sobre nossos sentidos, antes, causa na alma efeitos maravilhosos...' Predicou numa oratória inigualável, o santo de Hipona: '...Ó Deus das virtudes! Converte-nos e mostra-nos tua face, e seremos salvos! Porque, para onde quer que se volte a alma humana, onde quer que se estabeleça fora de Ti, sempre encontrará dor, mesmo que sejam as belezas que estão fora de Ti e fora de si mesmas;todavia, estas nada seriam se não existissem em Ti.

>b. Elas nascem e morrem; e, nascendo, começam a existir, e crescem para alcançar a prefeição e, uma vez perfeitas, começam a envelhecer e morrem. Embora nem tudo envelheça, tudo perece. Logo quando os seres nascem e se esforçam para existir, quanto mais depressa ,crescem para existir, tanto mais se apressam para deixar de existir.

>c. Esta é sua condição. Eis tudo o que lhes deste, porque, são partes de coisas que não existem simultaneamente mas, morrendo e sucedendo-se umas às outras, formam o conjunto de que são partes.

>d. Assim forma-se também nosso discurso, por meio dos sinais sonoros; este nunca se realizaria se uma palavra não se extinguisse, depois de pronunciadas suas sílabas, para dar lugar à seguinte. 

>e. Que minha alma te louve por tudo isto, ó Deus, criador de todas as coisas; mas não se pegue a elas com o visco do amor dos sentidos, pois também elas caminham para o não ser, e dilaceram a alma com desejos pestilenciais, e ela quer existir e gosta de descansar nas coisas que ama. Mas nelas não acha onde, porque as coisas não são estáveis. Elas são fugazes, e quem poderá segui-las com o sentido da carne?

>f. Ou quem as pode alcançar, mesmo,estando presentes?  Lento é o sentido da carne, por ser da carne, mas essa é sua condição. É suficiente para o que foi criado, mas não o é para reter o curso das coisas, do princípio que lhes foi criado até o fim que lhes foi designado, porque em teu Verbo, que as criou, ouvem estas palavras: Daqui até ali.'

>g. Se te agradam os corpos, louva a Deus neles, e dirige teu amor para teu artífice, para não o desagradar nas mesmas coisas que te agradam. Se te agradam as almas, ama-as em Deus, porque, embora mutáveis, se fixas nele, terão estabilidade; de outro modo passariam e pereceriam. Ama-as, pois, nele, e arrasta contigo até ele quantas almas puderes, dizendo-lhe: amemo-lo.

>h. Porque ele criou todas as coisas, e não está longe; ele não as fez para depois ir embora, mas dele procede e nele estão. E ele está onde aprecia a verdade: no mais íntimo do coração; mas o coração errante se afastou dele.

>i. Voltai, pecadores, ao coração, e ligai-vos àquele que é vosso criador. Firmai-vos nele, e estareis firmes; descansai nele e estreis descansados. Para onde ides? Por estes ásperos caminhos? Para onde ides? O bem que amais dele procede, mas só é bom e suave quando se dirige a ele ; porém, será justamente amargo se, abandonando a Deus, amardes injustamente o que dele procede.

> j. Por que continuai por caminhos difíceis e trabalhosos? O descanso não está onde o buscais. Buscais a vida feliz na região das trevas: não está lá Como achar a vida bem-aventurada onde nem sequer há vida?

> l. Ele, nossa vida real veio até nós; sofreu nossa morte, e a suplantou com a abundância  de sua vida; com voz de trovão clamou para que voltássemos a ele, para o lugar escondido de onde veio até nós, passando primeiro pelo seio de uma virgem, onde se desposou com ele a natureza humana, carne mortal, para não ficar sempre mortal.

> m. Dali, como o esposo que sai do tálamo, deu saltos como um gigante, para correr seu caminho. Ele não se deteve; correu clamando com suas palavras, com suas obras, com sua própria morte, com sua vida, com sua descida aos inferos e com sua ascensão, clamando para que voltássemos a ele. Se ele se afastou de  nossa vida, foi para que entremos em nosso coração, e ali o encontremos; se partiu, ainda está conosco. Não quis ficar por muito tempo entre nós, mas não nos abandonou.

> n. Retirou-se de onde nunca se afastou, pois o mundo foi criado por ele, e no mundo estava, e ao mundo veio para salvar os pecadores.E a ele se confessa minha alma, a ele que a cura e contra  quem pecou.

> o. Filhos dos homens, até quando sereis duros de coração? Será possível que, depois de ter a vida descido até vós, não queirais subir e viver? Mas para onde subis, quando vos ergueis e abris vossa boca no céu? Descei para subir, para subir até Deus, já que caístes levantando-se contra Deus. Dize~-lhes isto, minha alma, para que chorem neste vale de lágrimas, e assim os arrebates contigo para Deus, pois, ao dizer estas palavras ardendo em chamas de caridade, é o espírito divino que te inspira.'

4.  Sua voz entoou o Credo  in unum Deum e o Gloria in excelsis Deo.' Hipona sua cidade amada também seguiria o mesmo destino da capital do imperio. Quando um povo, uma nação abre as asas do totalitarismo, mais dias menos dias o seu vôo de glória é interrompido...

5. Abrindo um parêntesis podemos imaginar o cuidado dele no culto sagrado, seus extâses de amor à beleza incriada. Realmente ele estava certo em sua visão. Naquele momento Roma estava cercada por Alarico, general Visigodo e o grande império dos Césares, a 'pax romana' em xeque, e nos seus últimos suspiros iria cair para nunca mais se levantar. O paganismo, a ambição de poder e riquezas, a luxuria, a opressão aos mais pobres, foram fatores preponderantes que pulverizaram  aquele povo que se acreditava eterno.


6. Cartago  há muito  fora romanizada e com ela toda  a  África, a língua nativa  punica resistira mas o latim era a oficial e falado correntemente, o idioma grego era reservado aos literatos. Todo este mundo estava começando a ruir e no seu lugar viria séculos mais tarde a  Idade Média, e uma pequena mostra de que seria  uma sociedade quando a filosófia dos Evangelhos governasse  e influênciasse deveras  o estado e a sociedade.

7. E a Santa Missa continua: Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth, Deus dos exércitos celestes, amparai vossos filhos e consolai vosso povo.... À consagração, Deus vai tornar-se presente em corpo, sangue, alma e divindade pelas palavras do ministro: Hoc est  enim Corphus Meum - Hic estis Sanguinem Mei... E no silêncio de Deus, Cristo vem habitar entre nós - ' Ex opere operato'.

8.  Ia começar também o sofrimento para esta parte do ex-império,não demoraria 20 anos e os Vândalos estariam sitiando Hipona e uma por uma todas as cidades estariam sob o jugo dos bárbaros unidos. Hoje a desolação atingira a capital do imperio porque justamente há quatro séculos antes uma estrêla anunciara o Salvador, Roma conhecera a Luz por intermédio de Pedro e Paulo e não aderira a mansidão do Cordeiro.


9.  No final, Agostinho revestidodo de   sua autoridade  episcopal entoara a benção final
Ite Missa Est, Ide em paz a missa terminou...  E ia começar o martírio, na praça o estafeta chegara com as notícias mais aterradoras que já conhecemos pela premonição do santo de Hipona.
10. Não passariam duas décadas e em 430 os Vândalos tocariam às portas de sua querida cidade, a lendária Hipona, que vira e acolhera ainda sacerdote um dos homens mais impressionantes da história, era o dia 28 de agosto de 430. Neste mesmo dia a vida terminara para ele.Recitando os salmos penitenciais entregou sua alma ao criador.


11. Acreditou, agora verá... a verdade em toda  a extensão da visão beatífica: ' ... O Deus silencioso que habita no céu...' O ite vita est para Agostinho terá um sentido de extâse, irá se encontrar com ' a beleza que tarde amou... e exclamará: ' ...eternamente te amarei...' O selo fora revelado em toda  a sua extensão beatífica...

12. Enquanto isso na terra os homens continuariam se revolvendo em crises, os arcanos desenrolariam seu pergaminho para virar mais uma página da história... os bárbaros afiariam suas espadas contra o império dos deuses romanos e não ficaria elmo sobre elmo.

13. Gostaria do fundo d'alma que estas palavras estivessem à altura da medida exata do gênio de Hipona, a quem tanto amamos e reverenciamos, um homem de vida interior sólida, de unção espetacular, que conseguiu aliar à doutrina católica,inteligência, fé,  razão, humildade, e visão de descortínio em um só lugar.

14. Que combateu os erros sem téguas, mas tolerante amou o pecador no extremo de seu coração piedoso.Que lutou para que sua querida África palmilhasse sua vida em função de Deus e de Jesus Crucificado e de sua Igreja.

15. Temo ter decepcionado o leitor e vejo que minha voz ficou aquém da realidade, se me faltaram estilo, linguagem, me sobejaram vontade, amor e dedicação. pois estamos falando a respeito de um homem, suscitado por Deus numa época crucial em que a encruzilhada da história estava por definir seu destino e requeria mudanças de rumos radicais.

16. Este homem correspondeu ao seu chamado e seguiu o mestre, amou a sabedoria, defendeu com garra sua Igreja e indicou os rumos dos séculos posteriores. Alma de seu tempo, e das gerações futuras, não vou cansar de dizer. E direi também que o mesmo tempo que ele descreveu minuciosamente se encarregou de apresentá-lo à Verdade Sublime, o Único Ser Perene, Necessário.

17. E na contingência que lhe é peculiar,  este mesmo tempo continua e continua e saberá receber esta homenagem conjunta. nossa, caro amigo, e multiplicá-la cem por dois e se despertar em alguém além de nós, o interesse em conhecer mais e mais, a vida, virtudes, a lógica, os escritos de Santo Agostinho, será uma benesse, no que a gente agradece...

18.  Termino com duas citações do Santo de Hipona, extraidas de seu livro: 'As Confissões':' ... Arranca, pois agora deste espantoso abismo a alma que te busca sedenta  de teus deleites, o que te diz de coração: Busquei, Senhor, teu rosto; teu rosto buscarei ainda.'Livro I - cap. xviii. '... E quem mo poderá ensinar, senão o que ilumina meu coração e rasga minhas vontades.' Livro II, cap. viii.

19. '...Mas, a quem conto estes fatos? Certamente não a ti meu Deus, mas em tua presença conto estas coisas aos de minha estirpe, ao gênero humano, ainda que estas páginas chegassem às mãos de poucos. E para que então? Para que eu, e quem me ler pensemos na profundeza do abismo de onde temos que clamar por ti? E quem há de mais próximo a teus ouvidos que o coração contrito e a vida que procede da fé.' (Confissões livro 2, cap iii) 

20. Aurelius Augustinus tomou posse de uma cidade, a mais bela e luminosa, seu coração inquieto buscou incessantemente a canção de acordes eternos e a encontrou, olhou para dentro dos olhos de Deus e disse: aqui estou Senhor - doçura, beleza, grandeza infinitas...

21. À Senhora da Consolação, a quem Santa Mônica recorreu em suas aflições e orações pelo seu filho Agostinho, ofereço de coração o que se seguiu, certo de que ela aceitará, pois a devoção sob este título remonta  à uma aparição que a Virgem fez à Mônica sob o título de Consolata.Ao ligar os fatos me dei conta de que no dia 27 de agôsto p.p ao visitar sua Igreja em São Paulo surgiu a idéia de escrever sobre a vida e escritos de Santo Agostinho.

Helder Tadeu Chaia Alvim




quinta-feira, 6 de setembro de 2012

mar à alto

1. A eterna fonte da juventude está latente na mente de todos, quem  quereria não envelhecer e ficar para a semente? Como gostava de repetir o velho Malaquias, o último barão do mato, que conheci lá no rincão de minha origem humilde. A cada dia que passa o tempo foge e nós fugimos com ele irremediavelmente, tantas pessoas conhecemos no albor de sua beleza, e depois ao encontrarmos notamos as marcas da vida, as cicatrizes dos percalços, os embates da existência. Eu sinto na pele o 'prejuízo' e hoje meus andares são calculados e às vezes refaço na imaginação o caminho da infância emsolarada e repleta de folguedos. 

2. Isto me veio à mente quando tomei conhecimento que os astrônomos da ESO em sua sede na cidade alemã de Garching no sul do país, estão às voltas com novas teorias ao estudarem 'uma estrêla do cúmulo globular Messier 4' ( ver Bol Ciência 06/09/2012 -10h10 da Folha.com), '... e que pode conter segredo da juventude.' Sem entrar no mérito da questão destes abalizados cientistas, nem em suas teses litianas, ilustro o que disse acima. Se a alta tecnologia espacial planetária se preocupa com o fenômeno da juventude, estas rimas seguem atrás tentando entender o mistério do envelhecimento e o porque, a razão de sua trajetória ao longo da vida dos seres racionais, animais e vegetais.

3. Não creio que a ciência possa desvendar totalmente este segredo por mais evoluida neutrina e quânticamente esteja, por mais expansiva se encontre neste universo de segredos, riquezas e surpêsas mil.A particula de Deus, tão ciosamente investigada neste processo, existe, está ao nosso lado, dentro de cada unm de nós e se chama homem, dotado de alma imortal, razão, vontade e sensibilidade, feito à imagem e semelhança de Deus, que à serviço da grande causa do Criador pode ainda chegar ao extremo do conhecimento estelar. Não mais que isso, sua missão é desvendar e não criar.Tudo já foi criado no princípio dos tempos, muito mal conseguirá manipular os elementos existentes e oferecer a humanidade  como ferramentas potentes da paz global, lenitivo para amenizar os males da existência finita, entre eles o envelhecimento e a morte.

4. O mestre dos mestres, o Deus humanado por amor dos homens, um dia chamou Simão, pescador e deu a entender que queria navegar mar à alto no lago de Cafarnaum. Pedro que conhecia palmo a palmo este mar e intuindo a vontade de Jesus argumentou que tinham laborado a noite toda em vão. Mas obedeceu àquele que manda no tempo, nos ventos, nos elementos e lá pelas tantas jogou a rede que veio cheia de peixes de todos os tamanhos.

5. Num relance o grande pescador entendeu tudo, os segredos da vida, a eterna juventude do mestre adorado e deixou tudo para segui-lo, foi cuidar de outro recado, da sua alma jovem e dos demais a si confiados ao longo da história humana. Se queremos uma gôta desta maravilhosa porção, devemos estudar o evangelho, crer nas verdades reveladas e seguir Simão Bar Jonas pelos mares da existência.

6. Existiu um homem que vivenciou bem isto tudo, foi Agostinho, objeto das postagens anteriores e de mais uma na sequência destas rimas mínimas. Ouçamo-lo: '... Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior.' (confissões 10 8-15).

7. Ela chega ao ponto de equilibrio e na humildade deste conhecimento interior sublima suas ações: '... Tarde te amei! Tarde te amei, oh! Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais te amei! Eis que estavas dentro e eu fora. E fora te buscava e lançava-me, disforme e nada belo, ante a beleza de tudo e todos que criastes. Estava comigo e não eu Contigo... Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste minha surdez. Brilhaste, resplandecente e Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste Teu Perfume e respirando-o, suspirei por Ti. Te desejei. Eu Te provei. Te saboreei, e agora tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora estou ardendo em desejos por Tua Paz. ( confissões 10, 27-29).

8. Este fenômeno sublime, místico, atemporal  que em cores vivas envolveu todo o ser de Agostinho de Hipona, tem um nome: Graça Divina, sem ela nada podemos fazer, como magistralmente afirmou Cristo, por excelência a fonte da graça e santidade, a fornalha ardente de caridade. Muitos se perguntam o porque desta ênfase toda em torno da figura do santo de África bendita?

9. Ao ler seus numerosos escritos vemos uma alma convertida, de fôlego e inteligência que voa ao impulso do Espírito Santo, que quer recuperar os anos desperdiçados com as criaturas de uma forma pecaminosa e fora de propósito. Suas palavras destilam mel e suavidade, um homem que se debruçou atentamente sobre os mistérios da fé cristã, sugou a seiva oriunda do lado aberto de Cristo pelo centurião Longino, que contemplou a chaga do ombro do mestre e com ele subiu até ao cimo do Gólgota salvífico. Um homem do elo inquebrável entre Deus e as criaturas. Uma das provas que Deus existe é porque existiu Agostinho.

10. Ele melhor que ninguém amou muito, acreditou, abstraiu, rezou e abraçou os irmãos e na pessoa deles toda a humanidade num largo e generoso amplexo de paz, da paz que brota da ordem estabelecida por Deus desde todo o sempre. A transgressão desta ordem é que gera o mal e as torpezas no mundo, guerras, conflitos, injustiças a perder de vistas.

11. Sensível, inteligente, humilde, estudioso, guerreiro inconteste da Cidade de Deus, conviveu na fragmentada Cidade dos Homens e a elevou às primícias de um novo tempo. Provou teses, deu continuidade à doutrina apostólica, revolveu as pedras do pensamento, cultivou o campo do Senhor, apascentou unido à Pedro o rebanho de Cristo,tornou-se santo, a quem podemos prestar um culto de dulia, salvou a cristandade das ruínas do imperio romano e a entregou incólume ao novo tempo que ele profetizou, uma das estrêlas mais brilhantes da constelação celeste repleta de juventude espiritual e perene.

12. Um gênio a serviço da fé, ele, melhor que ninguém soube desfiar o ' saltério de dez cordas', e está a contemplar na eternidade feliz 'a beleza tão antiga e tão nova', ' a inocência tão bela e graciosa aos olhos puros'.

Helder Tadeu Chaia Alvim

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Juventutem meam

1. O título acima não se refere a nenhum elixir rejuvenescedor, tônico bio molecular, enzima ou coisa assim. Trata-se do complemento das  2 postagens anteriores: Introibo ad altare Dei... Ad Deum qui laetificat... que foram tiradas do intróito da Missa tridentina, celebrada  em união com a Igreja na forma extraordinária do rito romano.A mesma que Santo Agostinho celebrava em Hipona à frente de sua diocese por volta do ano 391, época fora ordenado sacerdote segundo a ordem de Melquisedec. 'Introibo ad altere Dei ad deum qui laetificat juventutem meam: entrarei no altar de Deus do Deus que alegra minha juventude'.

2. Muitos estavam esperando destas postagens um gran finale, talvez ficaram um tanto decepcionados se não encontraram as emoções em prosa e verso que os enternecessem a ponto de chegarem às lágrimas líricas. Fazer o que, a não ser escrever não prometendo adiante surprêsas cativantes, mas litteras inspiradas no mestre da antiguidade clássica.

3. A pátria de Santo Agostinho fora a sua querida África, mais propriamente o norte, de raça bérbere, nativa da região do tórrido Saara, um povo de olhos azuis, pele escura e cabelos negros, um povo de tradições, lingua própria, parecida com a dos antigos egípcios que no decorrer da história suportou as sucessivas dominações, inclusive a pax romana.

4. Tagaste, foi sua cidade natal na Numíbia, a Argélia atual. Seu pai um autêntico cidadão africano, honesto, relutante em se converter ao cristianismo, de poucos haveres cuidou bem da educação de seu filho. Agostinho estudou gramátina e retórica em Maura e depois seu pai, de nome Patricio o enviou, mesmo com poucos recursos, à Cartago para conclusão dos estudos. Depois foi para Roma ensinar retórica, sem êxitos financeiros e com alunos indisciplinados e inadimplentes dirigiu-se à Milão.

5. Os africanos assimilaram bem a cultura e a lingua latina mais do que  a helênica, e nosso neo professor atraído pelo estilo e eloquência de Ambrósio, bispo da importante cidade de Milão aportou nesta cidade; aos poucos a beleza das verdades do evangelho foram tomando seu dia a dia e viu que a procedência reta da religião católica; abandonou os erros do maniqueismo e tornou-se catecúmeno.

6. Sua mãe Mônica, cristã, piedosa e prestimosa não se deu por vencida, e foi a responsável pela sua conversão, não poupou esfôrços, influências e incessante oração a Virgem Consolata neste intuito. Insistente no seu zelo materno, não descansou até que quase todas as lágrimas fossem derramadas. Guardou as de alegria santa ao presenciar seu batismo, do seu amigo Alípio e de seu neto Adeodato- pelas mãos de  santo Ambrósio no ano de 387 em 25 de abril na vigília da páscoa .

7. Agostinho, agora estava quieto na fé e preparado para dizer:'...Deus adornou o tempo de beleza... Deus tu que me deste a vida e o corpo... adornado de beleza e de instintos naturais... que te louve por estes dons e te confesse e cante teu nome altíssimo... ó unidade, origem de todas as variedades,ó beleza que dás forma a todas as coisas e com tua lei as ordenas.' ( Confissões, livro I, cap. 7)

8. E continua num crescente de entusiasmo, sua alma remoçada na fé, esperança e caridade ousa dizer: '... vento que caminha, não volta... ó Deus, luz do meu coração, pão interior de minha alma, virtude fecundante de meu pensamento... mas agora, meu Deus grite em minha alma tua verdade.'( idem, cap. 13)

9. No ano de 391, Agostinho é aclamado pelo povo de Hipona, sacerdote. A cidade será o palco de sua ação ministerial incansável nos proximos quarenta anos, quer consolando e auxiliando os pobres e oprimidos, quer ministrando os sacramentos, nas pregações polemicas contra a seita dos donatistas. Quer na escrita profícua de centenas de livros. Sobressai-se na vida santa, na sua busca incessante do tempo eterno, da graça geradora de influxos sobranaturais, da metafísica enquanto escada para subir até Deus, de uma visão futurista da humanidade enquanto consecução do reino dos céus ainda na terra.

10. É sagrado bispo em 395 e seu zelo redobra, suas responsabilidades de pastor e guia atingem toda a Africa, sua sã doutrina influência concílios, o povo e seus governantes. Travou luta árdua e constante contra os erros teológicos nascentes, polemizou com os maniqueus, arrancou  do paganismo romano muitas almas, e o seu coração de pastor abarcou o mundo inteiro na universalidade e interpretação dos dogmas, doutrina e normas da verdadeira Igreja de Cristo anunciada pelos apóstolos.  Era tudo para todos, desapegado dos bens materiais, quando morreu em  28 de agosto de 430 com a idade de 76 anos, deixou apenas livros e mais livros para a biblioteca de Hipona e a convicção que combatera o bom combate...

11. Na sua obra clássica,'Confissões, livro I, cap. 13 diz: '... Não incrimino as palavras que são como vasos seletos e preciosos, mas condeno o vinho do erro que mestres ébrios nos davam a beber nelas e, se não a bebêssemos, éramos açoitados, sem que pudéssemos apelar par um juiz mais sóbrio.'

12. E continua na cadência inconfundível de sua sabedoria: '... Mas qual o proveito disso -ó vida verdadeira em Deus - de que me servia ser aplaudido por minha declamação mais que todos os meus coetâneos e discípulos? Não era tudo aquilo fumo e vento? Acaso não havia outra coisa em que exercitar meu talento e minha língua? Teus louvores, Senhor, teus louvores consignados nas escrituras, poderiam soerguer a frágil planta de meu coração, e eu não teria sido arrebatado pela vaidade de vãs quimeras, presa imunda das aves. Com efeito há diversas maneiras de oferecer sacrifícios aos anjos rebeldes.' (idem cap. 16)

13. Esse foi Santo Agostinho, na filosofia um mestre arguto, na teologia a sabedoria personificada, para o mundo um gênio acabado, motivo de admiração de seu tempo e dos séculos futuros. O alcance das suas obras, a profundidade de suas concepções ainda não foram explicitadas ao todo e aguardam a segunda era de Luz, para que sua metafísica universal, seja aplicada na íntegra.

14. Quando acontecerá? Quando os homens se posicionarem à altura dos sonhos de Deus, então será a era da Juventude Espiritual Plena. Agostinho pouco saiu do circuito de Hipona, Cartago, Tagaste, fora suas breves viagens para Roma, Milão e Óstia. No entanto tornou-se o doutor máximo do Ocidente, pois seu coração era universal.

Helder Tadeu Chaia Alvim

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ad Deum qui laetificat

1. E o assunto continua sobre Agostinho de Cartago, inesgotável poço de ciência humana e divina, e  sua influência, sem dúvida marcou seu tempo, a Igreja, os concilios, sua terra natal, a Africa e se estendeu para outros lugares, até chegar aos dias que se seguem, na fôrça, compreensão e brilho de sua inteligência, lealdade de seu coração e sólidas argumentações teológica e filosófica. Ele pensou o universo, amou seu criador, a lei natural, respeitou suas criaturas e deu um outro sentido ao caminhar do homem em todos os tempos. Ele colocou Deus no centro de gravitação do universo, ele conheceu sua bondade sem limites, sua graça difusa e o perdão que jorra do seu coração.

2. A gente se admira com o mundo à nossa volta, com o equilibrio, beleza e leveza do universo material, com Agostinho a gente se extasia com a revelação da realidade espiritual, ele a traz para o nosso convívio e enternece nosso coração na luz diáfana e mantenedora de um Deus humanado por amor das criaturas.

3. O seu caminho fora difícil e traçado de espinhos e interrogações, dúvidas e desesperos. Passando pelo maniqueismo, envolvido com a volúpia da carne; pelo prazer da retórica com o neoplatonismo viu um dia raiar a verdadeira luz para sua cabeça,e o verdadeiro fogo para seu coração, através de uma cantiga  infantil: Toma e Lê, ele finalmente se rendeu ao evangelho de Jesus sepultando de vez erros, se abriu para a graça contagiante e não parou mais de conhecer,crescer na vida espiritual, amar e desejar as plagas eternas com suas belezas indizíveis, a abraçar o irmão e fazê-lo partícipe deste conhecimento e deste amor.

4. E Mônica, sua mãe prestimosa e atenta estava lá, ao seu lado, rezando e rezando para que ele se rendesse aos amplexos da verdadeira felicidade. Sonhou sonhos fortes, trabalhou a alma de seu filho, procurou a orientação de Santo Ambrósio de Milão e finalmente viu recompensado todos os esfôrços com conversão total  e irrestrita de seu filho Agostinho, à beleza, tarde encontrara...

5. Isto posto, meu amigo, vamos prosseguir sem querer limar a linguagem, mas livre para afirmar, de coração aberto na certeza que não nos faltará um teto de aconchego na solicitude do santo que apresento, que soube em determinado momento ouvir a voz dos sacramentos e cantou ao Deus do amor um cântico novo que até hoje perdura na melodia de seus escriros, radiante.

6. Ir adiante, uma tarefa significante, tentar entender a mensagem vibrante e viver de acordo com ela é o mais importante. Falar palavras bonitas, alicia o ouvido, mas pode trazer prejuízos ao ouvinte se a essência estiver ausente. Deus ao nos criar não solicitou nossa anuência, mas a salvação de cada um requer do postulante à morada eterna, um sim livre e alegre durante esta existência de prova e tribulação, é doutrina certa, ensinada de modo magistral pelo santo de Hipona, é o canal.

7. Ao dotar o homem de razão, inteligência, vontade e sensibilidade, o criador nosso facultou-lhe a possibilidade de elevar-se ao paraiso e a liberdade de descer para a companhia dos anjos decaídos.O que Agostinho, gênio e santo de Cartago da primeira era cristã tem a ver com isto? Muito, realmente ele foi suscitado e eleito por Deus para solidificar  a Igreja nascente na fé, doutrina e análise profunda do universo sob a ótica cristalina do amor e deixar para os séculos posteriores o resultado de suas pesquisas interiores.

8. Ele conseguiu ler os pensamentos de Deus, aquiescer aos seus desejos de harmonia e paz social, e transmitir sem véu ou dubiedade as verdades maiores da criação visível e invisível, o mistério da Santíssima Trindade e todos os desdobramentos práticos da ascese cristã.

9. Muitos de seu tempo, ao contrário, sonharam pesadelos, e nestes pesadelos negaram a verdade, e nesta conspiração da negação do autor da criação fecharam para si e aos seus as portas da felicidade. O grande império caiu, novas estruturas foram edificadas em seu lugar, o cristianismo avançou tornou-se a religião oficial e o mundo não fora mais o mesmo.

10. Nossa época não difere muito, a não ser pelos avanços tecnológicos, a não ser pelo acumulo de conhecimentos quânticos, pela comunicação em tempo real, estamos no mesmo patamar daquela era indecisa, materialista e cética. O princípio do livre arbítrio continua o mesmo, o céu a espera de almas, o anjo decaído lutando pelo seu trono no coração do homem, a esfera espiritual esquecida ou desviada para uma fé de escambo, que oferece um pedaço lá em cima a troco de dízimos e sucessos financeiros, como se o reino de Deus não padecesse suor, lágrimas, humildade, oração, unção do Espírito Paráclito e a mediação da melhor de todas as mães, da mais pura de todas as virgens.

11. Há uma deformidade enorme entre a matéria evoluida e a alma encolhida, poucos  aquilatam a sua beleza e  destino sobrenatural. Aplaudimos os avanços do ter, apoiamos as ações monetárias e olvidamos a solidariedade, o calor humano, a paz da consciência, os dez mandamentos e a vontade do ser supremo, suas leis e diretrizes de sabedoria.

12. Posso usufruir de prestígio, influências, haveres, finanças controlada, posso sentir comiseração do próximo, irmão carente e desaprecatado da sorte, posso estender-lhe a mão para satisfazer meu altruísmo ou à algum sentimento adormecido.No entanto minhas ações para Deus de nada valem se não forem norteadas pelo amor e tendo em vista o fim último que me aguarda e a qualquer momento, dado minha contigência, ele pode bater à soleira de minha porta e dizer: companheiro, arrume as malas, pois hoje é sua última viagem, o bilhete está picotado, a passagem é só de ida. Então valerá mais uma lágrima sincera derramada do que um pranto de avermelhar os olhos.

13. Isto serve para mim mais do que para outrem, e este texto denso não carrega crítica e sim um convite à reflexão aos meus amigos que considero de montão, apesar de muitos serem da amizade on line, mesmo distante sinto-os perto do meu coração de poeta e amigo de todas as horas, das tristes, das alegres, da hora da prosa amena, da discussão ferrenha, da oração.

14. Em comunhão com eles sinto que a arte da vida é única; o tempo passa, as nuvens se deslocam desenhando o firmamento, as variações das estações, tudo demonstra a fugacidade do momento e que Deus nos quer junto dele na outra vida, destinados que somos às façanhas eternas. É o viver não é senão a preparação remota para o desabrochar futuro da nossa alma, que o corpo mortal carrega e pode afiançar-lhes alegria sem fim no seio de Abrãao, ou tristezas tremendas entre a caterva infernal.

15. Existiu um santo que reuniu em si um pedaço de eternidade, era Agostinho, ele nos fez antever os gozos da visão beatífica, ele foi objeto destas duas postagens que ora se encerram, ele viveu num tempo controverso, de grandes convulsões políticas e sociais, ele viu Roma, a altiva cidade dos césares cair em mãos dos visigodos em 410, tornou-se sacerdote, bispo e um grande escritor, vindo a falecer com 76 anos em 28 de agôsto de 430, em Hipona.

16. Nada mais do que justo e oportuno citar alguns trechos de sua obra prima: As Confiisões, célebre em seu conteudo, poetica em sua linguagem e repleta de unção: '...Porque nos fizeste para ti, e meu coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso' ( livro I, cap. I). '...Deus, tu que me deste a vida e o corpo, ao qual dotaste, como vemos, de sentidos e provisão de membros, adornando-o de beleza e de sentimentos naturais, com os quais pudesse defender sua integridade e conservação, tu me mandas que te louve por estes dons e te confesse e cante teu nome altíssimo... Ó unidade, origem de todas as variedades, ó beleza que dpas forma a todas as coisas, e com tua lei as ordenas.' (livro I, cap. VII ). '...E o vento que caminha e não volta... poderá dizer: ó Deus, luz do meu coração, pão interior de minha alma, virtude fecunda do meu pensamento... grite em minha alma a tua verdade!'

17. Ao ler este livro, perde-se o fôlego e encontra-se a suavidade do amor de Deus e a fragilidade de nossa natureza. E ele voou na liberdade que lhe fora outorgada, buscou tanto que encontrou o objeto de seus encômios dourados, na juventude perdera a inocência e a retomou restaurada aos 33 anos de idade, voou em companhia bendita dela pela cidade dos homens sem chamuscar suas asas, voou às alturas do céu empírico, sem perder o limo da humildade, teve a coragem de confessar ao mundo seus pecados, atinge o climax da união com Deus e reveste-se da unção do Espírito Santo Paráclito, se detém com todos os homens em colóquio para elevá-los ao sublime patamar da contemplação. Deus alegrou seus dias e lhe deu uma morte santa. Santo Agostinho, rogai por nós!

18. O carácter da universalidade tão apropriado à Agostinho deveu-se não somente pelo fato dele estar ligado ao que acontecia em Roma, capital do mundo de então, estar bem informado e em contato constante com os mercadores, liretatos, autoridades civis e religiosas, o povo, ávido de seus ensinamentos, mas sobretudo  sua adesão plena  à graça divina.
19. Muito se tem falado sobre ele e sua visão metafísica, nos meios acadêmicos, nos púlpitos e tribunas, nos círculos de estudo, mas a ênfase,  que pretende entendê-lo fica aquém de sua realidade interior. Agostinho mergulhou neste mundo, venceu suas perplexidades existênciais, e num exercício continuo do amor, da humildade, sorveu a graça, o perdão, a misericordia de Cristo num alto grau de contemplação.

20. A par de sua natureza inquieta, investigadora,  a par de sua inteligência brilhante, de seu alto poder de síntese e abstração, do domínio da língua do lácio e helenica, de sua oratória comunicativa, de sua genialidade metafísica, o que conta mesmo foi sua anuência plena as verdades da fé, sua vontade ligada à vontade de Deus, sua determinação de plasmar aqui na terra o mundo bom.

21. Ele removeu as montanhas de sua era conturbada, intuiu na sua genialidade de santo novos rumos para o imperio que se desmoronava em crises internas, perda de identidade política e social, que se via acoçado de todos os lados pelos hunos, godos, visigodos, vândalos, suevos e saxões.Foi deste fundo de quadro apocalíptico para sua era que ele escreveu os 22 livros da cidade de Deus em contraposição à cidade sobressaltada dos homens.

22. Em meio às incertezas políticas da roma eterna ele manteve a serenidade, estudou profundamente a teologia, idealizou a filosofia patrística, conheceu a alma humana, ofereceu-lhe o remédio salutar na proporção de seus grandes males psicológicos e preparou as bases da era da Luz. Um homem essencial ao pensamento atual, e para os tempos futuros.

Helder Tadeu Chaia Alvim