quinta-feira, 6 de setembro de 2012

mar à alto

1. A eterna fonte da juventude está latente na mente de todos, quem  quereria não envelhecer e ficar para a semente? Como gostava de repetir o velho Malaquias, o último barão do mato, que conheci lá no rincão de minha origem humilde. A cada dia que passa o tempo foge e nós fugimos com ele irremediavelmente, tantas pessoas conhecemos no albor de sua beleza, e depois ao encontrarmos notamos as marcas da vida, as cicatrizes dos percalços, os embates da existência. Eu sinto na pele o 'prejuízo' e hoje meus andares são calculados e às vezes refaço na imaginação o caminho da infância emsolarada e repleta de folguedos. 

2. Isto me veio à mente quando tomei conhecimento que os astrônomos da ESO em sua sede na cidade alemã de Garching no sul do país, estão às voltas com novas teorias ao estudarem 'uma estrêla do cúmulo globular Messier 4' ( ver Bol Ciência 06/09/2012 -10h10 da Folha.com), '... e que pode conter segredo da juventude.' Sem entrar no mérito da questão destes abalizados cientistas, nem em suas teses litianas, ilustro o que disse acima. Se a alta tecnologia espacial planetária se preocupa com o fenômeno da juventude, estas rimas seguem atrás tentando entender o mistério do envelhecimento e o porque, a razão de sua trajetória ao longo da vida dos seres racionais, animais e vegetais.

3. Não creio que a ciência possa desvendar totalmente este segredo por mais evoluida neutrina e quânticamente esteja, por mais expansiva se encontre neste universo de segredos, riquezas e surpêsas mil.A particula de Deus, tão ciosamente investigada neste processo, existe, está ao nosso lado, dentro de cada unm de nós e se chama homem, dotado de alma imortal, razão, vontade e sensibilidade, feito à imagem e semelhança de Deus, que à serviço da grande causa do Criador pode ainda chegar ao extremo do conhecimento estelar. Não mais que isso, sua missão é desvendar e não criar.Tudo já foi criado no princípio dos tempos, muito mal conseguirá manipular os elementos existentes e oferecer a humanidade  como ferramentas potentes da paz global, lenitivo para amenizar os males da existência finita, entre eles o envelhecimento e a morte.

4. O mestre dos mestres, o Deus humanado por amor dos homens, um dia chamou Simão, pescador e deu a entender que queria navegar mar à alto no lago de Cafarnaum. Pedro que conhecia palmo a palmo este mar e intuindo a vontade de Jesus argumentou que tinham laborado a noite toda em vão. Mas obedeceu àquele que manda no tempo, nos ventos, nos elementos e lá pelas tantas jogou a rede que veio cheia de peixes de todos os tamanhos.

5. Num relance o grande pescador entendeu tudo, os segredos da vida, a eterna juventude do mestre adorado e deixou tudo para segui-lo, foi cuidar de outro recado, da sua alma jovem e dos demais a si confiados ao longo da história humana. Se queremos uma gôta desta maravilhosa porção, devemos estudar o evangelho, crer nas verdades reveladas e seguir Simão Bar Jonas pelos mares da existência.

6. Existiu um homem que vivenciou bem isto tudo, foi Agostinho, objeto das postagens anteriores e de mais uma na sequência destas rimas mínimas. Ouçamo-lo: '... Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior.' (confissões 10 8-15).

7. Ela chega ao ponto de equilibrio e na humildade deste conhecimento interior sublima suas ações: '... Tarde te amei! Tarde te amei, oh! Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais te amei! Eis que estavas dentro e eu fora. E fora te buscava e lançava-me, disforme e nada belo, ante a beleza de tudo e todos que criastes. Estava comigo e não eu Contigo... Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste minha surdez. Brilhaste, resplandecente e Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste Teu Perfume e respirando-o, suspirei por Ti. Te desejei. Eu Te provei. Te saboreei, e agora tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora estou ardendo em desejos por Tua Paz. ( confissões 10, 27-29).

8. Este fenômeno sublime, místico, atemporal  que em cores vivas envolveu todo o ser de Agostinho de Hipona, tem um nome: Graça Divina, sem ela nada podemos fazer, como magistralmente afirmou Cristo, por excelência a fonte da graça e santidade, a fornalha ardente de caridade. Muitos se perguntam o porque desta ênfase toda em torno da figura do santo de África bendita?

9. Ao ler seus numerosos escritos vemos uma alma convertida, de fôlego e inteligência que voa ao impulso do Espírito Santo, que quer recuperar os anos desperdiçados com as criaturas de uma forma pecaminosa e fora de propósito. Suas palavras destilam mel e suavidade, um homem que se debruçou atentamente sobre os mistérios da fé cristã, sugou a seiva oriunda do lado aberto de Cristo pelo centurião Longino, que contemplou a chaga do ombro do mestre e com ele subiu até ao cimo do Gólgota salvífico. Um homem do elo inquebrável entre Deus e as criaturas. Uma das provas que Deus existe é porque existiu Agostinho.

10. Ele melhor que ninguém amou muito, acreditou, abstraiu, rezou e abraçou os irmãos e na pessoa deles toda a humanidade num largo e generoso amplexo de paz, da paz que brota da ordem estabelecida por Deus desde todo o sempre. A transgressão desta ordem é que gera o mal e as torpezas no mundo, guerras, conflitos, injustiças a perder de vistas.

11. Sensível, inteligente, humilde, estudioso, guerreiro inconteste da Cidade de Deus, conviveu na fragmentada Cidade dos Homens e a elevou às primícias de um novo tempo. Provou teses, deu continuidade à doutrina apostólica, revolveu as pedras do pensamento, cultivou o campo do Senhor, apascentou unido à Pedro o rebanho de Cristo,tornou-se santo, a quem podemos prestar um culto de dulia, salvou a cristandade das ruínas do imperio romano e a entregou incólume ao novo tempo que ele profetizou, uma das estrêlas mais brilhantes da constelação celeste repleta de juventude espiritual e perene.

12. Um gênio a serviço da fé, ele, melhor que ninguém soube desfiar o ' saltério de dez cordas', e está a contemplar na eternidade feliz 'a beleza tão antiga e tão nova', ' a inocência tão bela e graciosa aos olhos puros'.

Helder Tadeu Chaia Alvim
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