segunda-feira, 10 de setembro de 2012

ite vita est...

ITE VITA EST

1. A cidade de Hipona amanheceu diferente, o sol brilhava com um tom avermelhado, o ar parado, a temperatura elevada. Agostinho se dispunha na sacristia a paramentar-se, acolitado pelos diaconos de sua comunidade religiosa. Era o dia 24 de agôsto de 410. Antes de entrar no altar olhou fixo para o horizonte daquela cidade palco de seu apostolado, lugar onde escrevera as confissões,e um infinidade de outras obras que atravessaria o tempo, apascentara o rebanho do Senhor.Suspirou alto e confidenciou ao amigos Alípio e  Possidio:  ' Hoje chegará uma notícia triste...'

2. E deu início ao santo sacrifício da missa: 'Introibo ad altarem Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam...' Confiteor Deo omnipotenti, beatae Mariae semper Virgini, beato Michaeli Archangelo, beato Joanni Baptistae sanctis Apostolis Petro e Paulo, omnibus sanctis, e tibi Pater, quia peccavi...' Confesso a Deus todo poderoso, a bem aventurada sempre Virgem Maria, beato Miguel Arcanjo, beato João Batista, aos Santos Apostólos Pedro e  Paulo, a todos os santos, a vós Padre... quia peccavi... A sua compenetração  era extraordinária e a Igreja estava lotada. No presbitério encontravam-se muitos do clero de África inclusive  Alípio e Possídio.

3. O Leitor com a voz acentuada  cantou 'de lamentatione Jeremiae Profetae' a sua visão da destruição da Cidade  Santa e Agostinho entoou 'Passio Domini Nostri Jesu Cristhi Secundum Joannem' o evangelho da paixão de Cristo segundo João. Em seguida fez a homilia, explicou as leituras, fez alusão clara às duas cidades opostas entre si, a beleza de uma, a eterna e a aridez de outra, a terrena; discorreu sobre a verdadeira paz que emana do coração de Cristo e acentuou os novos rumos da humanidade... e as nuvens sombrias , carregadas de acontecimentos...

>a. '... O tempo não corre dedalde, nem passa inutilmente sobre nossos sentidos, antes, causa na alma efeitos maravilhosos...' Predicou numa oratória inigualável, o santo de Hipona: '...Ó Deus das virtudes! Converte-nos e mostra-nos tua face, e seremos salvos! Porque, para onde quer que se volte a alma humana, onde quer que se estabeleça fora de Ti, sempre encontrará dor, mesmo que sejam as belezas que estão fora de Ti e fora de si mesmas;todavia, estas nada seriam se não existissem em Ti.

>b. Elas nascem e morrem; e, nascendo, começam a existir, e crescem para alcançar a prefeição e, uma vez perfeitas, começam a envelhecer e morrem. Embora nem tudo envelheça, tudo perece. Logo quando os seres nascem e se esforçam para existir, quanto mais depressa ,crescem para existir, tanto mais se apressam para deixar de existir.

>c. Esta é sua condição. Eis tudo o que lhes deste, porque, são partes de coisas que não existem simultaneamente mas, morrendo e sucedendo-se umas às outras, formam o conjunto de que são partes.

>d. Assim forma-se também nosso discurso, por meio dos sinais sonoros; este nunca se realizaria se uma palavra não se extinguisse, depois de pronunciadas suas sílabas, para dar lugar à seguinte. 

>e. Que minha alma te louve por tudo isto, ó Deus, criador de todas as coisas; mas não se pegue a elas com o visco do amor dos sentidos, pois também elas caminham para o não ser, e dilaceram a alma com desejos pestilenciais, e ela quer existir e gosta de descansar nas coisas que ama. Mas nelas não acha onde, porque as coisas não são estáveis. Elas são fugazes, e quem poderá segui-las com o sentido da carne?

>f. Ou quem as pode alcançar, mesmo,estando presentes?  Lento é o sentido da carne, por ser da carne, mas essa é sua condição. É suficiente para o que foi criado, mas não o é para reter o curso das coisas, do princípio que lhes foi criado até o fim que lhes foi designado, porque em teu Verbo, que as criou, ouvem estas palavras: Daqui até ali.'

>g. Se te agradam os corpos, louva a Deus neles, e dirige teu amor para teu artífice, para não o desagradar nas mesmas coisas que te agradam. Se te agradam as almas, ama-as em Deus, porque, embora mutáveis, se fixas nele, terão estabilidade; de outro modo passariam e pereceriam. Ama-as, pois, nele, e arrasta contigo até ele quantas almas puderes, dizendo-lhe: amemo-lo.

>h. Porque ele criou todas as coisas, e não está longe; ele não as fez para depois ir embora, mas dele procede e nele estão. E ele está onde aprecia a verdade: no mais íntimo do coração; mas o coração errante se afastou dele.

>i. Voltai, pecadores, ao coração, e ligai-vos àquele que é vosso criador. Firmai-vos nele, e estareis firmes; descansai nele e estreis descansados. Para onde ides? Por estes ásperos caminhos? Para onde ides? O bem que amais dele procede, mas só é bom e suave quando se dirige a ele ; porém, será justamente amargo se, abandonando a Deus, amardes injustamente o que dele procede.

> j. Por que continuai por caminhos difíceis e trabalhosos? O descanso não está onde o buscais. Buscais a vida feliz na região das trevas: não está lá Como achar a vida bem-aventurada onde nem sequer há vida?

> l. Ele, nossa vida real veio até nós; sofreu nossa morte, e a suplantou com a abundância  de sua vida; com voz de trovão clamou para que voltássemos a ele, para o lugar escondido de onde veio até nós, passando primeiro pelo seio de uma virgem, onde se desposou com ele a natureza humana, carne mortal, para não ficar sempre mortal.

> m. Dali, como o esposo que sai do tálamo, deu saltos como um gigante, para correr seu caminho. Ele não se deteve; correu clamando com suas palavras, com suas obras, com sua própria morte, com sua vida, com sua descida aos inferos e com sua ascensão, clamando para que voltássemos a ele. Se ele se afastou de  nossa vida, foi para que entremos em nosso coração, e ali o encontremos; se partiu, ainda está conosco. Não quis ficar por muito tempo entre nós, mas não nos abandonou.

> n. Retirou-se de onde nunca se afastou, pois o mundo foi criado por ele, e no mundo estava, e ao mundo veio para salvar os pecadores.E a ele se confessa minha alma, a ele que a cura e contra  quem pecou.

> o. Filhos dos homens, até quando sereis duros de coração? Será possível que, depois de ter a vida descido até vós, não queirais subir e viver? Mas para onde subis, quando vos ergueis e abris vossa boca no céu? Descei para subir, para subir até Deus, já que caístes levantando-se contra Deus. Dize~-lhes isto, minha alma, para que chorem neste vale de lágrimas, e assim os arrebates contigo para Deus, pois, ao dizer estas palavras ardendo em chamas de caridade, é o espírito divino que te inspira.'

4.  Sua voz entoou o Credo  in unum Deum e o Gloria in excelsis Deo.' Hipona sua cidade amada também seguiria o mesmo destino da capital do imperio. Quando um povo, uma nação abre as asas do totalitarismo, mais dias menos dias o seu vôo de glória é interrompido...

5. Abrindo um parêntesis podemos imaginar o cuidado dele no culto sagrado, seus extâses de amor à beleza incriada. Realmente ele estava certo em sua visão. Naquele momento Roma estava cercada por Alarico, general Visigodo e o grande império dos Césares, a 'pax romana' em xeque, e nos seus últimos suspiros iria cair para nunca mais se levantar. O paganismo, a ambição de poder e riquezas, a luxuria, a opressão aos mais pobres, foram fatores preponderantes que pulverizaram  aquele povo que se acreditava eterno.


6. Cartago  há muito  fora romanizada e com ela toda  a  África, a língua nativa  punica resistira mas o latim era a oficial e falado correntemente, o idioma grego era reservado aos literatos. Todo este mundo estava começando a ruir e no seu lugar viria séculos mais tarde a  Idade Média, e uma pequena mostra de que seria  uma sociedade quando a filosófia dos Evangelhos governasse  e influênciasse deveras  o estado e a sociedade.

7. E a Santa Missa continua: Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth, Deus dos exércitos celestes, amparai vossos filhos e consolai vosso povo.... À consagração, Deus vai tornar-se presente em corpo, sangue, alma e divindade pelas palavras do ministro: Hoc est  enim Corphus Meum - Hic estis Sanguinem Mei... E no silêncio de Deus, Cristo vem habitar entre nós - ' Ex opere operato'.

8.  Ia começar também o sofrimento para esta parte do ex-império,não demoraria 20 anos e os Vândalos estariam sitiando Hipona e uma por uma todas as cidades estariam sob o jugo dos bárbaros unidos. Hoje a desolação atingira a capital do imperio porque justamente há quatro séculos antes uma estrêla anunciara o Salvador, Roma conhecera a Luz por intermédio de Pedro e Paulo e não aderira a mansidão do Cordeiro.


9.  No final, Agostinho revestidodo de   sua autoridade  episcopal entoara a benção final
Ite Missa Est, Ide em paz a missa terminou...  E ia começar o martírio, na praça o estafeta chegara com as notícias mais aterradoras que já conhecemos pela premonição do santo de Hipona.
10. Não passariam duas décadas e em 430 os Vândalos tocariam às portas de sua querida cidade, a lendária Hipona, que vira e acolhera ainda sacerdote um dos homens mais impressionantes da história, era o dia 28 de agosto de 430. Neste mesmo dia a vida terminara para ele.Recitando os salmos penitenciais entregou sua alma ao criador.


11. Acreditou, agora verá... a verdade em toda  a extensão da visão beatífica: ' ... O Deus silencioso que habita no céu...' O ite vita est para Agostinho terá um sentido de extâse, irá se encontrar com ' a beleza que tarde amou... e exclamará: ' ...eternamente te amarei...' O selo fora revelado em toda  a sua extensão beatífica...

12. Enquanto isso na terra os homens continuariam se revolvendo em crises, os arcanos desenrolariam seu pergaminho para virar mais uma página da história... os bárbaros afiariam suas espadas contra o império dos deuses romanos e não ficaria elmo sobre elmo.

13. Gostaria do fundo d'alma que estas palavras estivessem à altura da medida exata do gênio de Hipona, a quem tanto amamos e reverenciamos, um homem de vida interior sólida, de unção espetacular, que conseguiu aliar à doutrina católica,inteligência, fé,  razão, humildade, e visão de descortínio em um só lugar.

14. Que combateu os erros sem téguas, mas tolerante amou o pecador no extremo de seu coração piedoso.Que lutou para que sua querida África palmilhasse sua vida em função de Deus e de Jesus Crucificado e de sua Igreja.

15. Temo ter decepcionado o leitor e vejo que minha voz ficou aquém da realidade, se me faltaram estilo, linguagem, me sobejaram vontade, amor e dedicação. pois estamos falando a respeito de um homem, suscitado por Deus numa época crucial em que a encruzilhada da história estava por definir seu destino e requeria mudanças de rumos radicais.

16. Este homem correspondeu ao seu chamado e seguiu o mestre, amou a sabedoria, defendeu com garra sua Igreja e indicou os rumos dos séculos posteriores. Alma de seu tempo, e das gerações futuras, não vou cansar de dizer. E direi também que o mesmo tempo que ele descreveu minuciosamente se encarregou de apresentá-lo à Verdade Sublime, o Único Ser Perene, Necessário.

17. E na contingência que lhe é peculiar,  este mesmo tempo continua e continua e saberá receber esta homenagem conjunta. nossa, caro amigo, e multiplicá-la cem por dois e se despertar em alguém além de nós, o interesse em conhecer mais e mais, a vida, virtudes, a lógica, os escritos de Santo Agostinho, será uma benesse, no que a gente agradece...

18.  Termino com duas citações do Santo de Hipona, extraidas de seu livro: 'As Confissões':' ... Arranca, pois agora deste espantoso abismo a alma que te busca sedenta  de teus deleites, o que te diz de coração: Busquei, Senhor, teu rosto; teu rosto buscarei ainda.'Livro I - cap. xviii. '... E quem mo poderá ensinar, senão o que ilumina meu coração e rasga minhas vontades.' Livro II, cap. viii.

19. '...Mas, a quem conto estes fatos? Certamente não a ti meu Deus, mas em tua presença conto estas coisas aos de minha estirpe, ao gênero humano, ainda que estas páginas chegassem às mãos de poucos. E para que então? Para que eu, e quem me ler pensemos na profundeza do abismo de onde temos que clamar por ti? E quem há de mais próximo a teus ouvidos que o coração contrito e a vida que procede da fé.' (Confissões livro 2, cap iii) 

20. Aurelius Augustinus tomou posse de uma cidade, a mais bela e luminosa, seu coração inquieto buscou incessantemente a canção de acordes eternos e a encontrou, olhou para dentro dos olhos de Deus e disse: aqui estou Senhor - doçura, beleza, grandeza infinitas...

21. À Senhora da Consolação, a quem Santa Mônica recorreu em suas aflições e orações pelo seu filho Agostinho, ofereço de coração o que se seguiu, certo de que ela aceitará, pois a devoção sob este título remonta  à uma aparição que a Virgem fez à Mônica sob o título de Consolata.Ao ligar os fatos me dei conta de que no dia 27 de agôsto p.p ao visitar sua Igreja em São Paulo surgiu a idéia de escrever sobre a vida e escritos de Santo Agostinho.

Helder Tadeu Chaia Alvim




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