segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ad Deum qui laetificat

1. E o assunto continua sobre Agostinho de Cartago, inesgotável poço de ciência humana e divina, e  sua influência, sem dúvida marcou seu tempo, a Igreja, os concilios, sua terra natal, a Africa e se estendeu para outros lugares, até chegar aos dias que se seguem, na fôrça, compreensão e brilho de sua inteligência, lealdade de seu coração e sólidas argumentações teológica e filosófica. Ele pensou o universo, amou seu criador, a lei natural, respeitou suas criaturas e deu um outro sentido ao caminhar do homem em todos os tempos. Ele colocou Deus no centro de gravitação do universo, ele conheceu sua bondade sem limites, sua graça difusa e o perdão que jorra do seu coração.

2. A gente se admira com o mundo à nossa volta, com o equilibrio, beleza e leveza do universo material, com Agostinho a gente se extasia com a revelação da realidade espiritual, ele a traz para o nosso convívio e enternece nosso coração na luz diáfana e mantenedora de um Deus humanado por amor das criaturas.

3. O seu caminho fora difícil e traçado de espinhos e interrogações, dúvidas e desesperos. Passando pelo maniqueismo, envolvido com a volúpia da carne; pelo prazer da retórica com o neoplatonismo viu um dia raiar a verdadeira luz para sua cabeça,e o verdadeiro fogo para seu coração, através de uma cantiga  infantil: Toma e Lê, ele finalmente se rendeu ao evangelho de Jesus sepultando de vez erros, se abriu para a graça contagiante e não parou mais de conhecer,crescer na vida espiritual, amar e desejar as plagas eternas com suas belezas indizíveis, a abraçar o irmão e fazê-lo partícipe deste conhecimento e deste amor.

4. E Mônica, sua mãe prestimosa e atenta estava lá, ao seu lado, rezando e rezando para que ele se rendesse aos amplexos da verdadeira felicidade. Sonhou sonhos fortes, trabalhou a alma de seu filho, procurou a orientação de Santo Ambrósio de Milão e finalmente viu recompensado todos os esfôrços com conversão total  e irrestrita de seu filho Agostinho, à beleza, tarde encontrara...

5. Isto posto, meu amigo, vamos prosseguir sem querer limar a linguagem, mas livre para afirmar, de coração aberto na certeza que não nos faltará um teto de aconchego na solicitude do santo que apresento, que soube em determinado momento ouvir a voz dos sacramentos e cantou ao Deus do amor um cântico novo que até hoje perdura na melodia de seus escriros, radiante.

6. Ir adiante, uma tarefa significante, tentar entender a mensagem vibrante e viver de acordo com ela é o mais importante. Falar palavras bonitas, alicia o ouvido, mas pode trazer prejuízos ao ouvinte se a essência estiver ausente. Deus ao nos criar não solicitou nossa anuência, mas a salvação de cada um requer do postulante à morada eterna, um sim livre e alegre durante esta existência de prova e tribulação, é doutrina certa, ensinada de modo magistral pelo santo de Hipona, é o canal.

7. Ao dotar o homem de razão, inteligência, vontade e sensibilidade, o criador nosso facultou-lhe a possibilidade de elevar-se ao paraiso e a liberdade de descer para a companhia dos anjos decaídos.O que Agostinho, gênio e santo de Cartago da primeira era cristã tem a ver com isto? Muito, realmente ele foi suscitado e eleito por Deus para solidificar  a Igreja nascente na fé, doutrina e análise profunda do universo sob a ótica cristalina do amor e deixar para os séculos posteriores o resultado de suas pesquisas interiores.

8. Ele conseguiu ler os pensamentos de Deus, aquiescer aos seus desejos de harmonia e paz social, e transmitir sem véu ou dubiedade as verdades maiores da criação visível e invisível, o mistério da Santíssima Trindade e todos os desdobramentos práticos da ascese cristã.

9. Muitos de seu tempo, ao contrário, sonharam pesadelos, e nestes pesadelos negaram a verdade, e nesta conspiração da negação do autor da criação fecharam para si e aos seus as portas da felicidade. O grande império caiu, novas estruturas foram edificadas em seu lugar, o cristianismo avançou tornou-se a religião oficial e o mundo não fora mais o mesmo.

10. Nossa época não difere muito, a não ser pelos avanços tecnológicos, a não ser pelo acumulo de conhecimentos quânticos, pela comunicação em tempo real, estamos no mesmo patamar daquela era indecisa, materialista e cética. O princípio do livre arbítrio continua o mesmo, o céu a espera de almas, o anjo decaído lutando pelo seu trono no coração do homem, a esfera espiritual esquecida ou desviada para uma fé de escambo, que oferece um pedaço lá em cima a troco de dízimos e sucessos financeiros, como se o reino de Deus não padecesse suor, lágrimas, humildade, oração, unção do Espírito Paráclito e a mediação da melhor de todas as mães, da mais pura de todas as virgens.

11. Há uma deformidade enorme entre a matéria evoluida e a alma encolhida, poucos  aquilatam a sua beleza e  destino sobrenatural. Aplaudimos os avanços do ter, apoiamos as ações monetárias e olvidamos a solidariedade, o calor humano, a paz da consciência, os dez mandamentos e a vontade do ser supremo, suas leis e diretrizes de sabedoria.

12. Posso usufruir de prestígio, influências, haveres, finanças controlada, posso sentir comiseração do próximo, irmão carente e desaprecatado da sorte, posso estender-lhe a mão para satisfazer meu altruísmo ou à algum sentimento adormecido.No entanto minhas ações para Deus de nada valem se não forem norteadas pelo amor e tendo em vista o fim último que me aguarda e a qualquer momento, dado minha contigência, ele pode bater à soleira de minha porta e dizer: companheiro, arrume as malas, pois hoje é sua última viagem, o bilhete está picotado, a passagem é só de ida. Então valerá mais uma lágrima sincera derramada do que um pranto de avermelhar os olhos.

13. Isto serve para mim mais do que para outrem, e este texto denso não carrega crítica e sim um convite à reflexão aos meus amigos que considero de montão, apesar de muitos serem da amizade on line, mesmo distante sinto-os perto do meu coração de poeta e amigo de todas as horas, das tristes, das alegres, da hora da prosa amena, da discussão ferrenha, da oração.

14. Em comunhão com eles sinto que a arte da vida é única; o tempo passa, as nuvens se deslocam desenhando o firmamento, as variações das estações, tudo demonstra a fugacidade do momento e que Deus nos quer junto dele na outra vida, destinados que somos às façanhas eternas. É o viver não é senão a preparação remota para o desabrochar futuro da nossa alma, que o corpo mortal carrega e pode afiançar-lhes alegria sem fim no seio de Abrãao, ou tristezas tremendas entre a caterva infernal.

15. Existiu um santo que reuniu em si um pedaço de eternidade, era Agostinho, ele nos fez antever os gozos da visão beatífica, ele foi objeto destas duas postagens que ora se encerram, ele viveu num tempo controverso, de grandes convulsões políticas e sociais, ele viu Roma, a altiva cidade dos césares cair em mãos dos visigodos em 410, tornou-se sacerdote, bispo e um grande escritor, vindo a falecer com 76 anos em 28 de agôsto de 430, em Hipona.

16. Nada mais do que justo e oportuno citar alguns trechos de sua obra prima: As Confiisões, célebre em seu conteudo, poetica em sua linguagem e repleta de unção: '...Porque nos fizeste para ti, e meu coração está inquieto enquanto não encontrar em ti descanso' ( livro I, cap. I). '...Deus, tu que me deste a vida e o corpo, ao qual dotaste, como vemos, de sentidos e provisão de membros, adornando-o de beleza e de sentimentos naturais, com os quais pudesse defender sua integridade e conservação, tu me mandas que te louve por estes dons e te confesse e cante teu nome altíssimo... Ó unidade, origem de todas as variedades, ó beleza que dpas forma a todas as coisas, e com tua lei as ordenas.' (livro I, cap. VII ). '...E o vento que caminha e não volta... poderá dizer: ó Deus, luz do meu coração, pão interior de minha alma, virtude fecunda do meu pensamento... grite em minha alma a tua verdade!'

17. Ao ler este livro, perde-se o fôlego e encontra-se a suavidade do amor de Deus e a fragilidade de nossa natureza. E ele voou na liberdade que lhe fora outorgada, buscou tanto que encontrou o objeto de seus encômios dourados, na juventude perdera a inocência e a retomou restaurada aos 33 anos de idade, voou em companhia bendita dela pela cidade dos homens sem chamuscar suas asas, voou às alturas do céu empírico, sem perder o limo da humildade, teve a coragem de confessar ao mundo seus pecados, atinge o climax da união com Deus e reveste-se da unção do Espírito Santo Paráclito, se detém com todos os homens em colóquio para elevá-los ao sublime patamar da contemplação. Deus alegrou seus dias e lhe deu uma morte santa. Santo Agostinho, rogai por nós!

18. O carácter da universalidade tão apropriado à Agostinho deveu-se não somente pelo fato dele estar ligado ao que acontecia em Roma, capital do mundo de então, estar bem informado e em contato constante com os mercadores, liretatos, autoridades civis e religiosas, o povo, ávido de seus ensinamentos, mas sobretudo  sua adesão plena  à graça divina.
19. Muito se tem falado sobre ele e sua visão metafísica, nos meios acadêmicos, nos púlpitos e tribunas, nos círculos de estudo, mas a ênfase,  que pretende entendê-lo fica aquém de sua realidade interior. Agostinho mergulhou neste mundo, venceu suas perplexidades existênciais, e num exercício continuo do amor, da humildade, sorveu a graça, o perdão, a misericordia de Cristo num alto grau de contemplação.

20. A par de sua natureza inquieta, investigadora,  a par de sua inteligência brilhante, de seu alto poder de síntese e abstração, do domínio da língua do lácio e helenica, de sua oratória comunicativa, de sua genialidade metafísica, o que conta mesmo foi sua anuência plena as verdades da fé, sua vontade ligada à vontade de Deus, sua determinação de plasmar aqui na terra o mundo bom.

21. Ele removeu as montanhas de sua era conturbada, intuiu na sua genialidade de santo novos rumos para o imperio que se desmoronava em crises internas, perda de identidade política e social, que se via acoçado de todos os lados pelos hunos, godos, visigodos, vândalos, suevos e saxões.Foi deste fundo de quadro apocalíptico para sua era que ele escreveu os 22 livros da cidade de Deus em contraposição à cidade sobressaltada dos homens.

22. Em meio às incertezas políticas da roma eterna ele manteve a serenidade, estudou profundamente a teologia, idealizou a filosofia patrística, conheceu a alma humana, ofereceu-lhe o remédio salutar na proporção de seus grandes males psicológicos e preparou as bases da era da Luz. Um homem essencial ao pensamento atual, e para os tempos futuros.

Helder Tadeu Chaia Alvim






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