quarta-feira, 14 de outubro de 2015

a agulha e o camelo

a agulha e o camelo
1.        O marujo, velho lobo do mar, leva sua embarcação  a singrar o oceano, ciente dos perigos que o cerca, calçado em sua experiência , mas impulsionado pelo desejo de aventura  perscruta o insondável horizonte, sua mente está povoada de imaginação, seu peito bate forte, a cada partida a incerteza, a cada chegada no outeiro da Penha uma alegria inconfessada.

2.       Dias e noites infindáveis, meses transcorridos na proa e convés, e sopram os ventos, advém as tempestades, calmarias, o sol caustica a si e á sua tripulação, a noite o acalma. E ele quando avista  a terra firme solta um grito de entusiasmo consequente. Desejou ver o termo de mais uma jornada e finalmente estará a salvo, ele, todos os tripulantes e sua amada embarcação.


3.       Ele se recorda emocionado  do livro da sabedoria, abre suas páginas rotas pelo tempo e esmaecida pela maresia e lê sofregamente mais um capítulo: “ Orei e foi me dada a prudência, supliquei, e veio a mim o espirito de sabedoria, a preferi aos cetros e tronos e em comparação com ela, julguei sem valor a riqueza, e ela não igualei nenhuma pedra preciosa, pois, a seu lado todo o ouro do mundo é um punhado de areia e diante dela a prata será como a lama.”

4.       “... Amei-a mais que a saúde, e a beleza, e quis possuí-la mais que a luz, pois o esplendor que dela se irradia não se apaga, todos os bens me vieram com ela, pois uma riqueza incalculável está em suas mãos.”

5.       Afeiçoado que era aos livros santos abriu outra página e começou a ler em voz alta o que o apóstolo dos gentios dizia aos Hebreus – os marujos homens rudes e inocentes se achegaram para ouvir as palavras entoadas em timbre grave: “ A palavra de Deus é viva, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, penetra até dividir alma e espirito, articulações e medulas.”

6.       “ ... Ela julga os pensamentos e as intenções do coração, e não há criatura que possa ocultar-se diante dela, tudo está nu e descoberto aos seus olhos, e é ela que devemos prestar contas.” Assim terminou a leitura naquela tardinha, ao longe se avistava um bando de irerês sobrevoando a costa marítima em formação de farpa, lá mais ao longe o campanário de sua aldeia, as casinhas brancas fumegando as chaminés e um ar fresco soprou nas faces daqueles aventureiros incontestes do mar. 

7.       No outro dia seria domingo e na segunda seria a festa da Patrona do Brasil: a Virgem de Aparecida, e lembrou-se da prédica do vigário, a sua voz sonora e bondosa falando o sermão do ‘jovem rico’... Ainda tocado com aquela predica abençoada recordava pensativo;

8.       ‘ Bom mestre... o que devo fazer para ganhar a vida eterna?  Então quem  pode se salvar? Para os homens isto é impossível, mas para Deus tudo é possível"! E pensativo se transportava em espirito para o mar da Galileia, e via Jeshuá entre os pescadores Simão Bhar Jonas, André e Felipe, filhos de Zebedeu, e desejava estar lá também deixar tudo e seguir o Nazareno até as ultimas consequências.

9.       Aquele marujo, velho lobo de mar, entendia bem as palavras de Jesus, afeiçoado  que  era ao mar, possuía uma alma simples e contemplativa e no fundo do coração almejava o mundo bom e ideal para todos os seus semelhantes.

10.   Boquiaberto imaginava o paradoxo em que se envolvera  o jovem rico, de muitos haveres, escravos, e senhor de muitas vinhas e rebanhos, e porque não seguira o Mestre? Porque não quisera o cêntuplo e a vida eterna?

11.   Seria temeroso das perseguições inerentes à profissão da fé? Seria apego ás riquezas, seria alguma donzela judia, esbelta como lírios do campo? Ele não sabia, mas imaginava que o jovem não se desvencilhara de algum  apego, qualquer que tenha   sido ele...

12.   E o velho marujo entendia bem a fala de Cristo, entendia os termos a ele  familiares: ‘kámelos e kámilos’ . Que importava ser um cordame ou  o camelo animal, pois Jesus queria dizer a completa impossibilidade de alguém  alcançar a vida eterna, se possuísse  um  estado de espirito beligerante com o Evangelho e suas máximas de vida. – “ Valha-me Deus!’

Helder Tadeu Chaia Alvim




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