quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A alforria do mar

           A alforria do mar

                        Dedicado à Mathildes, minha irmã querida.


1. Ah! o mar, sempre o mar ondulando suas águas de força e leveza, calma e placidez. Um espetáculo incomum que basta a si mesmo. Um mistério, um segredo ainda não revelado e bem guardado em sua profundeza imensa e de quebra oferece aos humanos uma mesa farta de lendas, misto de ficção, realidade e sonhos.

2. Não é de hoje que ouve-se falar dele, gente existiu que o desafiou em frágeis embarcações e ele inclemente, genioso, generoso ofereceu travessia, abrigo e perigo, tudo ao mesmo momento. E ele, um senhor respeitável de longas barbas, cabelos longos, fala ora mansa, ora bravia vai devolvendo à terra o que não utiliza.

3. Livre, coadjuvado pelo vento não pretende alisar a cabeça de sô ninguém, ocupa a  maior concessão do globo terrestre e está a serviço ininterruptamente de um Grande Ser - que poucos conhecem, mas cuja glória ele canta - dia, manhã, tarde e noites de calmaria, tempestades e poesias nas enseadas frias.

4. Ele, somente ele alegra os marujos, encanta as sereias, molda a seu jeito as falésias, damas de honra de sua majestade o mar.Dele tanto já teve-se notícias alegres e tristes. Ele já sepultou sonhos e grandezas humanas, enriqueceu piratas, brilhou no pincel de artistas, mavioso cantou nas cordas da viola, na mão dos poetas viajou o mundo empírico e no trapézio do palhaço encantou as plateias de honra embevecidas. 

5. Ele, livre no seu nascedouro pretendeu pescar ilusão e conseguiu confundir os soberbos de coração, que se foram e não voltaram de suas viagens inglórias e sem sentido. Ele acolheu, formou, gerou em seu seio tesouros, sereias de cobiças várias. Ele, o mar amigo dos ventos, senhor das procelas, mestre das sentinelas, porta do mundo, janela dos abismos, átrio do céu.


6. Ah! o mar, lar de Simão Bhar Jonas, o grande pescador, Pedro a pedra sobre a qual Cristo edificou sua Igreja, baluarte da fé, aquecedora de corações, inspiradora de canções. Enquanto na terra os homens gastam suas vidas em busca de vã ventura, na correria vazia de sentido e emoção, no mar a onda é outra, diáfana na calma de sua agitação a 
 espelhar o que será a eternidade feliz nos braços do Pai de Luz.

7. Ah! o amar que ensina ao poeta que rimar é uma forma surpreendente de amar a si mesmo e toda a humanidade em Deus,ele em suas maresias anuncia para a terra que outra era a espera no êxtase da visão ideal, no rastro de uma estrela que, por justa razão é nomeada: Janua Coellis.

8. Estas foram as impressões que colhi ao visitar o mar sul capixaba de Marataízes em suas evoluções, caminhos e raízes de um povo. A minha irmã querida  me acolheu de coração aberto e sorriso franco nos lábios e me proporcionou uma estadia fraternal e calorosa.

9. E ela chama-se Mathildes, ela tem o mar que alegra seu olhar de inquietação produtiva, eu por minha vez vejo claramente minha missão de poeta da esquina paulistana a admirar o mar de lá. Voltei com a sensação agradável que para além, muito além da confusão das mentes hodiernas fica a certeza da clareza do mar a alumiar o mundo, meus poemas, o destino de minha irmã gêmea e de todos os que guardam no coração a fé primeira na criação divina.

10. Enfim tudo é mar, tudo é tempo, tudo é recordação. Hoje a rima nasce em profusão na humildade de sua inspiração, na fôrça singela de sua intuição;amanhã, quem sabe, ela voltará a visitar o amigo mar para dizer um obrigado enternecido de saudades e com certeza abraçar um pedaço de vida sustentável das raízes de Mará.

Helder Tadeu Chaia Alvim
São Paulo 02/02/2013
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