sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O tempo segundo Santo Agostinho de Hipona


'tarde te amei..'

1. Aurelius Augustinus, cidadão romano de raça berbere nasceu no dia 13 de novembro de 354 em Tagaste, Norte da África, uma das inteligências mais privilegiadas ao longo da história, insuperável sob vários aspectos em seus conceitos, sua idéia tornou-se perene, está baseada solidamente no Ser imutável chamado Deus, principio e fim de todas as coisas, ordenador do tempo, das causas e efeitos, facultador do livre arbítrio.

2. Ele, Agostinho depois de percorrer ínvios e perigosos caminhos vai descobrir dentro de si um montão de coisas belas acerca do Criador do universo, vai amar apaixonadamente a 'Verdade sempre nova e antiga', vai lamentar seus pecados derramando lágrimas sinceras de arrependimento e vai franquear sua alma aos irmãos de uma maneira humilde, verdadeira e convincente, legando à posteridade uma das jóias mais preciosas da cristandade as 'Suas Confissões'.

3. Ele deixou-se levar ao completar 33 anos de idade pela sabedoria incriada, descansou à sombra de seus amplexos de luz, sorveu na fonte a piedade, compartilhou muito antes de existirem as redes sociais o que se passava em sua alma universal e na humildade tornou-se esse portento de inteligência e santidade que o mundo admira até hoje e do qual poderiamos dizer sem sombra de dúvida: De Augustine nunquam satis, ainda não se falou tudo dele, ainda não foi revelado sua mensagem por completa, ainda a humanidade não percorreu sua via, vivenciando a beleza resplandecente do que seria a terra se vivesse sob o signo dos dez mandamentos.

4. E qual seria a ordem social e transcendente que adviria? A tão sonhada paz sem anomalias, a vontade do Pater em toda a sua extensão social de doçura e bondade. Daí a razão destas rimas afirmarem sem pestanejar que a humanidade atual só teria a ganhar ao debruçar sobre os escritos do gênio e santo de Hipona.Tão parecido conosco, tão familiar sua fisionomia com nosso tempo,  parece que ainda está convivendo conosco e falando coisas belas, dialogando com esse mesmo tempo fugaz. e sendo capaz de abraçar o irmão ao seu lado e abrir seus olhos para o futuro no presente e o passado do futuro ausente.

5. Sua presença encanta, sua voz ressoa tão a seu gosto ao discursar em Hipona por volta do ano de 387, ele resgata antes mesmo da negação do iluminismo acontecer, os direitos de Deus e à luz da criação em seus lábios toma o sentido de um saltério de harmonia em sintonia com o Criador. Esse é o perfil do leão do  terceiro século do cristianismo, um espírito forte e suave a desenhar em traços vivos a beleza da criação em harmonia com seu criador, a destrinchar os meandros da alma humana e  sua liberdade incondicional.

6. Não é só um gênio da patrística nascente, mas  uma voz a serviço da Igreja apostólica, um filósofo de concepções originais, um prêmio universal da paz, mas sobretudo uma alma devota que resgata o sentir teológico e envolve tudo ao seu redor com sua humildade, elevação e pureza.

7. Ele esquadrinhou o tempo como veremos mais na frente, caminhou na finitude, conheceu a fundo o livre arbtitrio e provou da liberalidade incomensurável da graça divina e repartiu seu quinhão com seu povo de áfrica, com o imperio romano, com os bárbaros e com o mundo todo, e ainda tem muito a repartir, pois como decano ecônomo da verdade incriada, hoje repousa sua cabeça nos colos da Santíssima Trindade.

8. Ele afugentou as trevas dos erros em seu nascedouro, e aos que negavam a luz  expôs as verdades do Nazareno e sufragou a humanidade de suas crises existenciais. Pai, mestre e santo, dom Agostinho de Hipona, rogai por nós que caminhamos neste vale das sombras, afastei os percalços do pecado e enchei nosso coração do amor de Deus, peço por mim, pai e pela humanidade, que hoje tateia nesta era da alta definição, sem definir direito os rumos de sua alma. 

9. O santo de Cartago disse na poesia própria de sua partitura angelica: '...Tarde de amei! Tarde te amei, oh! beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que estavas dentro e eu fora. E fora te buscava e lançava-me disforme e nada belo, ante a beleza de tudo e todos que criaste. Estavas comigo e não eu contigo...'

10. '...Seguravam-me longe de ti as coisas que não existiriam senão em ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e tua luz afugentou minha cegueira. Exalaste teu perfume e respirando-o suspirei por ti... tarde te amei... trinta anos estive longe de Deus, mas durante esse tempo algo se movia dentro do meu coração...'

11. É preciso fôlego atilado para acompanhar a evolução da graça na alma deste eleito e seu esforço para estar à altura deste chamado universal. A palavra, a retórica na época de Agostinho era cultivada com esmero no Lácio e na Grecia, a sagrada escritura era conhecida, bem como Platão, Aristóteles, Cícero, Demóstenes, sábios da antiguidade clássica, expoentes da inteligência mundial.

12. Mas com Agostinho, a diferença torna-se tácita e palpável. A par da clareza de pensamento tem o fator presença de Deus em sua vida e escritos,e o gênio de Hipona a transformou em inspiração e exercício diário de devoção. Por isso a fôrça intrinseca de tudo que coloca a mão.  Quando Platão discursava no areópago de Atenas os ouvintes diziam: oh!  Em meio às suas  preleções  Demostenes arrancava do auditório: marchemos!   Com Agostinho o tempo bradava  compassivo: vivamos cum eo!


13. A verdade absoluta pousou sobre a cabeça de seu servo Agostinho, soprou nos seus ouvidos um cântico novo, aqueceu seus lábios com o mel da compunção, articulou suas mãos com as letras da vida e coração dele passou  da inquietude para a paz suave e nasceu um grande santo e pregador das multidões que acorriam de todas as partes para ouvi-lo a cortejar o tempo, a perscrutar os mistérios trinitários, à fugacidade antepor a perenidade.

14. É chegada a hora de dessedentar em suas confissões, fonte inesgotável de ciência o que esboçamos: ' ... Não quero gastar em outros cuidados as horas de liberdade que me restam além dos cuidados indispensáveis do corpo, do trabalho intelectual, do serviço que devemos aos homens, e dos que prestamos sem dever.'

15.'... Assim falou-nos o evangelho com voz humana, e a palavra ecoou externamente nos ouvidos dos homens, para que cressem nele, e o buscassem em seu íntimo, e o encontrassem na eterna verdade, onde um bom e único mestre instrui todos os discípulos.'

16. Amigo - no parentesis interativo que abrimos - queremos dizer que o tempo segundo Santo Agostinho não é o tempo do apêgo às criaturas, nem mesmo o que é medido pelo cálculo terreno, não! O seu panorama é outro e não tem liga com as conveniências humanas. Se quer entender um pouco o gênio de Hipona na proporção que lhe é devida, abstraia de tudo o que conhece e deixe-se levar pela locomotiva da graça até às paragens agostinianas.

17. Voltemos ao mestre: '...Ouça, pois tua voz em seu interior, quem puder, e eu quero clamar, cheio de fé em teu oráculo: como são magníficas as tuas obra,Senhor, que tudo criaste em tua sabedoria! Ela é o princípio e nesse princípio criaste o céu e a terra.'

18.'... Não houve, pois tempo algum em que nada fizesses, pois fizeste o proprio tempo. E nenhum tempo pode ser coeterno contigo, pois és imutável;se, o tempo também o fosse, não seria tempo.Que é pois o tempo? Quem poderia explicá-lo de maneira breve e fácil? Quem pode concebê-lo, mesmo no pensamento, com bastante clareza para exprimir a idéia com palavras?'

19. '... Contudo afirmo com certeza e sei que, se nada passasse, não haveria tempo passado; que se não houvesse os acontecimentos, não haveria tempo futuro; e que se nada existisse agora, não haveria tempo presente. Como então podem existir esses dois tempos, o passado e o futuro, se o passado já não existe e se o futuro ainda não chegou? Quanto ao presente, se continuasse sempre presente e não passasse ao pretérito, não seria tempo, mas eternidade.'

20. '... Portanto, se o presente, para ser tempo, deve tornar-se passado, como podemos afirmar que existe, se sua razão de ser é aquela pela qual deixará de existir? Por isso, o que nos permite afirmar que o tempo existe é a sua tendência para não existir.'

21. '... E contudo, Senhor, percebemos os intervalos de tempos, os comparamos entre si, e dizemos que uns são mais longos o outros mais breves. Medimos também o quanto uma duração é maior ou menor que outra, e respondemos que esta é o dobro ou o triplo da outra; que aquela é simples, ou que ambas são iguais.'

22.'... Mas é o tempo que passa que medimos quando o percebemos passar. Quando ao passado, que não existe mais, e o futuro que não existe ainda, quem poderá medi-los, a menos que ouse afirmar que o nada pode ser medido? Assim quando o tempo passa, pode ser percebido e medido. Porém quando já decorreu, ninguém o pode mentir ou sentir, porque já não existe.'  

23. '... O que agora parece claro e evidente para mim é que nem o futuro, nem o passado existem, e é impróprio dizer que há três tempos: passado, presente e futuro. Talvez fosse mais correto: há três tempos o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro.E essas três espécies de tempos existem em nossa mente, e não as vejo em outra parte.O presente do passado é a memória; o presente do presente é a percepção direta; o presente do futuro é a esperança.'

24.'... Mas de onde se origina, por onde passa, para onde vai o tempo quando o medimos? De onde vem senão do futuro? Por onde passa, senão pelo presente? Para onde vai senão para o passado? Nasce pois do que ainda não existe, atravessa o que não tem duração, e corre para o que não existe mais.'

25.'... Minha alma se inflama no desejo de deslindar este enigma tão complicado! Senhor meu Deus, meu bom Pai, eu to suplico por Cristo, não queiras tolher a meu desejo  a solução de tais problemas, tão familiares mas tão obscuros; permite que eu os penetre, e faze com que a luz de tua misericordia os ilumine.'

26. '... Todavia não conseguimos uma medida exata do tempo, pode acontecer que um verso mais curto, se pronunciado mais lentamente, se estenda por mais tempo que um verso mais longo, recitado depressa. Omesmo acontece com um poema, um pé, uma sílaba. Por esse motivo é que o tempo me pareceu não ser nada mais do que uma extensão. Mas extensão de que? Não saberia dize-lo ao certo; seria de admirar que não fosse extensão da propria alma.'

27. '... É em ti, meu espírito, que meço o tempo. Não me objetes nada, pois é assim. Não te perturbes com as ondas desordenadas de tuas emoções. É em ti, digo, que meço o tempo. A impressão que em ti gravam as coisas em sua passagem, perduram ainda depois que os fatos passam. O que eu meço é esta impressão presente, e não as vibrações que a produziram e se foram. É ela que meço quando meço o tempo. Portanto ou esta impressão é o tempo, ou eu não meço o tempo.'

28. '...  Mas quando medimos silêncios, e dizemos que o silêncio teve a mesma duração que certa palavra, não estamos dirigindo nossa atenção para a medida dessa palavra, como se ainda pudéssemos ouvi-la, para podermos avaliar no espaço de tempo, o intervalo do silêncio? Com efeito sem abrir a boca ou dizer palavra, fazemos mentalmente poemas, versos, discursos; avaliamos a extensão do seu movimento, sua duração, uns em relação aos outros, exatamente como se usássemos a voz.'

29. '... Se alguém quisesse pronunciar um som prolongado, e regular antecipadamente, em pensamento, sua duração, estima em silêncio a medida desta duração e, confiando à memória, começa a emitir o som, que vibra até atingir o limite fixado.'

30. ' ... Ou melhor: esse som vibrou e vibrará, porque a parte que passou soou; a que ainda resta, soará e chegará a seu fim. A atenção presente vai lançando o futuro para o passado, e o passado cresce com a diminuição do futuro, até que esgotado o futuro não haja mais que passado.'

31. ' ...Enfim Senhor, tu que és Deus, e não carne e sangue, se um homem não pôde ver tudo por completo, poderia teu Espírito bom, que me deve conduzir à terra da retidão, desconhecer algo do que tencionavas revelar por essas palavras a seus leitores vindouros, apesar de teu mensageiro não entender senão um dos numerosos sentidos verdadeiros?

32. '... Se assim é, o sentido que ele pensou era o mais elevado de todos. Mas revela a nós, Senhor, esse sentido ou algum outro que for de teu agrado e real, e quer nos mostres o mesmo sentido que ao homem de Deus, quer seja outro, inspirado pelas mesmas palavras, alimenta nosso espírito, guarda-nos da ilusão do erro.'
(Trechos extraidos das Confissões de Santo Agostinho - Livro Décimo Primeiro )

33. Dedico está página ao gênio insuperável de Hipona,  luminar do quarto  século da era cristã,  santo Agostinho.  Fui colher  no  livro  da  sabedoria  cápitulo  VII, versículos de 7 a 12: '... Assim implorei e a inteligência me foi dada, supliquei e o espírito de sabedoria veio a mim. Eu a preferi aos cetros e tronos, e avaliei a riqueza como um nada ao lado da sabedoria.Não comparei a ela a pedra preciosa, porque todo o ouro ao lado dela é apenas um pouco de areia, e porque  a prata diante dela será tida como lama.Eu a amei mais do que a saúde e a beleza, e absorvi dela mais do que a claridade do sol,porque a claridade que dela emana jamais se extingue. Com ela me vieram todos os bens, e nas suas mãos inumeráveis riquezas. Com todos esses bens eu me alegrei, porque é a sabedoria que os guia, mas ignorava que ela fosse sua mãe.'


Helder Tadeu Chaia Alvim


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