segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

o goliquinho e a banana da vez na era dos cacetetes contra irmãos brasileiros...

1. Vou pedir um goliquinho de sua atenção - enquanto talvez saboreie um café - e distraidamente vai ler o que escrevo de uma só vez a respeito dos pratos que conheci na infância que desapareceu tão rápido, como um relâmpago que corta as tempestades nas noites de verão intenso, quando penso já ultrapassei os cinquenta, se aparecem as macacuas vou suportando ao recordar as origens interioranas, deste que escreve depois de muito chão acerca das farturas que viu, de gente de sorriso franco nos lábios, apesar da situação rude, não abandonavam por nada o otimismo de sua afeição.

2. Tenho saudades das pencas das bananas de vez - quando estavam em processo de amadurecimento, transportadas nos lombos dos burros, e se provadas deixavam a cica ou um aperto na boca do freguês, esta e outras se passaram de fato comigo que ao tomar este goliquinho de sua atenção quem sabe não vai puxar o novelo guardado na memória da retina deste perscrutador do sertão amado.

3. Lembranças do interior fluminense, sabores da infância distante, não obstante perduram até esta data como se fôsse ontem,a Mãe Geralda e sua capacidade de cozinhar, lavar, passar, dar aulas na escola da fazenda Pirineus, cuidar de sua devoção e ainda se ocupar dos doces deliciosos que só ela sabia fazer, dos quitutes gostosos, que sumiram do cardápio de nossa era cor de rosa, do fast food, self service e afins adicionados ligth, diet, das dietas que mentem para valer.

4. E vamo que vamo... pegando no tranco, apesar dos solavancos da política pública, apesar da coibição em Salvador -Bahia de todos os santos dos trabalhadores por salàrios melhores, apesar do choque contra o direito de reclamar coletivamente, ainda cacetetes são utilizados por aqueles que apregoavam democracia aos quatros ventos...


5. Vou conduzi-lo são e salvo à cozinha lá de casa, antes vamos passar lá na venda do Juca Santana e pegar na conta: manjubas, farinha, açúcar, rapadura e querosene para o lampião, o resto lá tem e vai se sentir em casa amigo e bem recebido na região de minha origem interiorana.

6. Você que é de outro país e me acessa desde então, prestigiando estas rimas e agradeço de coração, saiba que o Brasil tem contraste, muita confusão, o povo vai numa direção e os homens do poder na contramão.

7. Aqui tem superfaturas, apadrinhamentos à luz do dia, acordãos não observados, muita corrupção, apesar de povo ordeiro vamos vivendo com o coração na mão, toda hora tem notícias que destoam do nosso verdadeiro diapasão. Você, irmão pátrio que percebe tanta coisa errada e não aceita esta super valorização da grana em detrimento do cidadão, saiba que igualmente agradeço seu abraço de união.

7. O jantar já tá servido, vamos nos sentar à beira do fogão à lenha, as janelas abertas e muita satisfação de tê-lo como hospede da minha imaginação, no goliquinho da  regional, sirva-se da limonada no jarro de louça , uma expressão local, serão os sabores de minha infância, que me acompanham na idade adulta quando bate aquela saudade daquele feliz rincão.

8. Tá na mesa o feijão com torresmo;o arroz soltinho cozido com tomates pequenos e salsinha no capricho; a farofa de ovo caipira com cebolinha verde; o purê de abóbora com carne seca desfiada; tem também a vaca atolada: aipim com costela de vaca;quiabo com galinha caipira;a canjiquinha com costelinha de porco  que belos achados, quanta água na bôca.

9. E nesta diversidade cultural não poderia deixar de relembrar os causos que nos contavam: o saci pererê, a mula sem cabeça, o lobisomem, a jibóia que engolia um boi inteiro, as assombrações das encruzilhas, os bichos da mata fechada.

> Lembro-me do saudoso João Malaquias Alvim Fortunato, o barão do mato, de suas proezas, de sua inconformidade, pois o sertão  do carro de bois, das pinguelas, dos estribos de prata estava acabando, o sertão da palavra empenhada, das pacas e irerês já não era mais o mesmo.

10. Pode saborear à vontade, que o tempo demora a passar, a lua vai clarear o alpendre até madrugada alta e falta muito trecho a percorrer, pois cada família tinha seu prato preferido e receber visitas era um doce alarido de panelas, pratos e alegria.

11. O paladar aguça quando é servido o licor de jenipapo, o doce de leite com queijo fatiado, a cocada queimada, a canjica com canela e uma fatia de bolo de caçarola com recheio de goiabada. Tem os chás, receitas da minha vó Vivina, pode escolher: o alfa vaca, de cidreira, erva doce, hortelã, guaco. Se preferir o cafézinho é sagrado e encerra esta parte com solene e singela arte deste povo acolhedor.

 12. E as lembranças da porteira aberta, e a gente sem pressa esperando o gado leiteiro passar, e as chuvas de janeiro, o terreno à espera das sementes para desabrochar os frutos do pomar.

13. É o sertão, seu moço, um cantinho do Brasil, esquecido na memória de muitos que lá nasceram e cresceram e em determinado momento esqueceram-se da sua origem humilde e vieram para a cidade grande, para encarar os desafios, viver sobre o concreto armado e nas tardes de folga ir aos shopings namorar a passarelada moda.

14. É o sertão do encanto, dos casamentos floridos, da procisão da santa padroeira, do terreirão de pedra, da sanfona afiada, das fogueiras de São João Batista,de  junho embandeirado, o sertão das batatas fumegando nas brasas esparramadas. O sertão da passarada das cancelas da estância Pirineus, oh! Deus. O sertão do homem de fé, simples, calmo, atento e de coração franco e hospitaleiro, sem  as maldades e fantasmas da era existencial de nervos à flor da pele.

15. Tudo se foi, levado a esmo se pôs. Se foi o canto do gaturamo, a seriema ruidosa, o joão de barro, o bem-te-vi, osn serões da azáfama tardia, o carro de bois encerrou seu canto de choro alegre, as cigarras silenciaram, o sapo canecão sumiu, somente os vagalumes solidários continuam alumiando as noites sem geada, indicando em vão o que outrora fora a última travessia para crisálida dos pirineus.

16. Chegou a nova era tudo evoluiu para pior, a violência ganhou status, assumindo a 1ª posição no rankink das maldades, tudo saiu do eixo e mesmo os avanços da eletrônica,da era da mobilidade, da navegação nas nuvens de Steve Jobs,  dos tables de cilício  e afins não conseguiram  a tão propalada garantia da paz sem condições.

17. As charges da corrupção ocuparam as páginas dos jornais, e o homem sem Deus inventou o dinheiro de plástico, as filas dos supermercados, do sorriso largo passou ao crack. Deitou vestido e amnheceu despido de seus ideais, de seu valor como pessoa humana e a ganância contagoiu meio mundo desaprecatado.

18. Éramos, calmos, alegres, comunicativos e a depressão tomou o lugar da devoção e as panacéias politicas, filosoficas endeusaram o poder pelo poder, e se o planeta aguentar ainda quero prosseguir consigo esta prosa, uma parte gostosa, outra amarga lembrando a abastança do sertão do amor e a realidade de uma época que pipocam tantas e tantas desilusões.

19. Deixo-o com o olhar das três marias, ursa maior,cruzeiro do sul, antares e a constelação de escorpião, da estrêla d'alva,da lua do santo guerreiro, o céu estrelado de lá, da emoção, do coração do homem apaixonado pela natureza, pela franquia das horas da aurora.

20. Escrevi para espairecer, mas antenado nas circunstâncias desencontradas de uma era que tinha tudo para crescer com sustentabilidade, mas expõe todos os dias as fragilidades de uma sociedade sem lastro em Deus, o autor da harmonia e um aceano de bondade.

21. Escrevo o que escrevo e bem queria estar à mesa indefinidamente consigo e trocar figurinhas e desejar rumos de calor, afeição e comportamentos humanos que espelhassem os desejos  do criador ou a paz sem fronteiras a todo vapor.

Helder Tadeu Chaia Alvim

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