terça-feira, 29 de novembro de 2011

Natal em curso

1. Já desponta mais um natal, não das compras aceleradas, das bebedeiras conjugadas, mesmo do pernil e chester tão a gosto da moçada. Este não me interessa e acho que a você também, leitor querido este assunto de presentes, festa e agitação incomoda e tenta ofuscar a beleza do fato em si, a comemoração é basicamente do nascimento do redentor da humanidade, aquele anunciado pelos profetas, datando a cristandade com o marco inicial da nova era de paz, alegria e esperança da vida eterna  tão ao gosto do Nazareno de luz.

2. Para brindar com você fui pesquisar e achei uma citação que traz a incomparável escritora Taylor Caldwell em seu brilhante livro sobre a história de São Lucas - Médico de Homens e de Almas. Lucas o discípulo do grande Mestre, evangelista, escritor, poeta e autor da vida espetacular  do cordeiro ungido.E feita as apresentações devidas e outorgado o mérito que lhe compete segue o que transcrevo da página.267- 268- 269, 31ª edição com tradução de Aydano Arruda, Editora Record Rio de Janeiro . São Paulo -2002. Vou citar agora o diálogo- o texto foi numerado  para se adequar a apresentação desta postagem entre Lucano e seu mestre e doutor em medicina José ben Gamliel noa primeira década da era Cristã.

3. "... - Há apenas um Deus - disse José - E é o pai de todos os homens. Pensas que o Messias virá apenas para os Judeus? Eles são um povo de profecias. Assim compreende-se que a profecia lhes tenha sido dada. A lei fora entregue nas mãos deles por Moisés. Por aquela lei o homem vive ou morre. Isso os gentios precisam aprender, através da elevação de seus impérios e de seu sangrento desígnio e da vasta e amontoada poeira dos séculos."  

4. E o diálogo entre o grego e o judeu continua com riquezas de detalhes que o nosso tempo tão avançado e apressado parece não querer ouvir:"... - percebi que os Judeus sempre tem uma história para contar - disse Lucano. -Tudo é em poesia ou metáfora , hipotético ou absurdo, ou oferecido sob a forma de pergunta. A vida é curta porque os eruditos judeus tratam o tempo com se ele não existisse, e como se houvesse uma eternidade para discussão?

5... Pela razão -respondeu José- de que o tempo não existe e há uma eternidade para discussão. Ainda acreditas, meu pobre Lucano, que o espírito do homem está acorrentado pelo tempo ou pelos acontecimentos? Voltou-se de novo para ele e de novo se rosto modificou-se, fazendo-se estranha e  e infinitamente doloroso, e Lucano pensou nos velhos profetas de que tinham falado os judeus de Antioquia, e José em Alexandria.

6.- Recordarás a esperança que os Judeus tem a respeito de um Messias que virá, e do qual lhe falei -disse José- Ele libertará nosso povo, Israel, de acordo com a promessa de Deus,. Foi Abraão, pai dos Judeus, um babilônio da velha cidade de Ur, quem nos trouxe essas boas novas. Leste as profecias de Isaías com relação a Ele. Será chamado o Príncipe das Dores, segundo aquele profeta, e sua Mãe esmagará a cabeça da serpente com seu calcanhar, e o homem ficará liberto do mal e do sofrimento e não mais existirá a morte. Por suas feridas seremos salvos.

7. - Há treze anos,Lucano, eu era professor da Sagrada Lei, em Jerusalém. Minha esposa teve um filho numa fria noite de inverno.Foi um noite muito estranha aquela pois uma grande estrela apareceu subitamente no céu, mantivera-se firme durante algumas horas, depois movera-se para a direção do Oriente.Nossos astrônomos ficaram muitíssimos excitados. Chamaram-na a Nova, e profetizaram que sua aparição agourava tremendos acontecimentos."

8.Lembro-me bem daquela noite. Herodes era nosso rei e um homem mau. Correu um boato que na pequena cidade de Belém nascera o rei dos Judeus. Tal notícia foi trazida a Jerusalém  por homens humildes e simples, entre eles estava alguns pastores que tinham uma história das mais temíveis a contar..."

9. Que seria?  "Falavam de Hoste Celeste que lhes aparecera quando cuidavam de seus rebanhos de carneiros, nas montanhas, e que lhes tinha dado notícias de grande júbilo. Como os reis são desconfiados, tem milhares de ouvidos, e assim essa história chegou aos de Herodes, a história dos pastores anônimos e ignorantes. Imediatamente, receando pelo seu poder, ele ordenou que todos os meninos nascidos recentemente fossem mortos, passados a fio de espada".

10.Podemos imaginar que na Judeia caiu uma grande tristeza e um lamento atroz: Raquel, as Marias Magdalas, Rute, Ester, Ana, Isabel e todas as mulheres de Jerusalém derramaram seu pranto, entoaram seu canto de dor e desespero pela matança dos santos inocentes, seus filhos amados, como indica o santo evangelho e soleniza pungentemente o missal romano na sua liturgia do período natalino.

11. Neste parenteses podemos conjecturar a maldade que personificava a alma de um dos piores seres surgidos na terra, o Herodes das ambições, da covardia, tudo de ruim num só lugar, num só homem , num só coração. Pior que ele fez escola e quantos e quantos a partir dele que poderíamos nomear exaustivamente que lotaria um livro denso de quase sem fim... e poderia trazer o título como: os filhos de Herodes ao londo dos séculos.

12. Voltemos à citação do livro de Taylor Caldwell, por sinal um romance de primeira linha e que flui como nenhum outro. "... José fez uma pausa. Lucano ouvia-o com relutante fascinação. Então, de repente recordou-se da grande Estrela que vira em Antioquia, quando criança, e seu coração bateu, apavorado." Esta conversa ocorrida há dois mil anos atrás se atualizou, Lucano ouviu  o seu coração sensível e juntando as revelações, pouco a pouco se rendeu à nova era que estremeceu o mundo todo.

13.Treze anos se passaram na história de José ben Gamliel: - ... as ruas estavam cheias de soldados romanos. Também eles tinham sentido um deleite incomum na primavera. Tinham apenas uma forma de expressar tal sentimento, pois eram estrangeiros em terra estranha que  os odiava... os soldados embriagaram-se e andavam pelas ruas, cantando. É triste ver qualquer homem rejeitado pelos seus irmãos e eu tive compaixão dos romanos.

14.Temos guardas no Templo para proteger os pátios internos de qualquer intrusão. Onde estava o guarda daquele pátio naquele dia? Não sei. Mas de repente as cortinas afastaram-se, e um rapazinho entrou no pátio, um rapazinho alto e muito bonito, trajado com a grosseira veste parda do povo comum.

15... Seus pés mostravam-se descalços e queimados de sol.A pele clara também fora amorenada pelo sol; seus caracóis louros mostravam sinais de terem sido queimados pelo calor , e caíam-lhe sobre os ombros.Tinha olhos azuis como o céu de verão, e um  aspecto solene e majestoso. Sorriu-nos, não como um rapaz que acaba apenas de alcançar a idade de Bar-Mtzvah e, portanto ainda tímido quando num grupo adulto.Seu sorriso era o sorriso de um homem, e ele estava à vontade, como um homem entre seus pares, como um erudito e um sábio entre eruditos e sábios. "

16. O relato impressionante continua e revela surpresas emocionantes, que a nossa época tumultuada de outros quereres desconhece, nunca ouviu falar ou esqueceu do sabor misterioso e contagiante das canções orquestradas pelas mãos do ente supremo do tempo, das coisas e de todos os homens.

17." ...Ficamos muito espantados e alguns entre nós franziram as sobrancelhas. Que estava fazendo aquele rapazinho em nosso páteo reservado, dedicado apenas à sabedoria e à discussão? Onde estava o guarda? o menino, era evidente, não passava de um camponês.Mais tarde ficaram a cogitar na razão de não terem mandado que ele se fosse imediatamente dali. Mas ao vê-lo pensei imediatamente em meu filho, que se não tivesse sido assassinado teria a idade daquele menino.

18. E disse-lhe: - Menino, que estás fazendo aqui, e onde estão teus pais? E ele me respondeu, com seu sorriso grave, e com o sotaque rude dos pobres e iletrados galileus: Vim para fazer-te perguntas e para dar-te respostas, senhor.

19. O rosto e o couro cabeludo de Lucano arrepiaram-se. Então, de repente, desejou ir embora e pulou sobre os pés. José, entretanto, não pareceu notar tal coisa, e continuou com sua voz remota e como que sonhadora: - Ele tinha o porte régio de um rei, aquele jovem camponês da Galiléia, com as mãos ásperas pelo trabalho, os pés descalços e a cabeça erguida. Penso que foi aquele seu aspecto que evitou a despedida encolerizada dos eruditos e doutores.

20.  Não temos grande  respeito pelo povo da Galileia.São pastores e artesãos, e sua fala é iletrada. Gente humilde.Mas aquele rapaz era um rei. Sentou-se entre nós, falou conosco, e depressa estávamos estupefatos com as suas perguntas e com as suas respostas,pois, apesar de seu sotaque galileu, falava com autoridade e profunda erudição.

21. Ficamos absorvidos nele. Perguntamos-lhe as coisas mais obscuras e difíceis, e ele as respondeu com simplicidade. Era como a luz da aurora entrando em aposentos escuros, repleto de livros eruditos, cheios de dificuldades. E mal saíra da infância, aquele jovem do campo, que vinha das nuas e quentes montanhas da Galileia, onde não há doutores nem sábios.

22. E eu lhe disse: Menino, quem é o teu professor? Ele sorriu para mim, com um sorriso que se parecia ao sol, e não respondeu. Foi então que a cortina afastou-se , agitada e um homem humilde, barbado, e uma bela e jovem senhora, vestida como camponesa, entraram num ímpeto pelo nosso pátio adentro. De novo José se calou. Sorria, e seu sorriso era infinitamente suave e remoto.Lucano sentou-se de novo, lentamente.Dizia a si mesmo: não devo ouvir! Isto é tolice obscura! Mas ouvia e esperava que José continuasse. 

23. - Jamais esquecerei aquela jovem senhora, Lucano, pois seu rosto era o de um anjo, radiante para além de qualquer descrição.Lembro-me de ter ficado instantaneamente atônito diante daquele rosto, que se erguia de pescoço e ombros vestidos em roupas ordinárias e opacas. Um pano azul tombava de sua cabeça, e eu vi o cabelo brilhante de sua fonte pura.

24.  Como posso descrevê-la? Não há palavras para isso, em idioma algum. Devia ter uns vinte e sete anos, o que não é muita idade, mesmo para uma mulher. Dava a impressão de ser, ao mesmo tempo velha como Eva, e nova como a primavera. Passado e futuro mesclados num só: ela não tinha tempo, não tinha idade. Imediatamente, eu soube que se tratava da mãe do rapazinho, pois tinha um aspecto régio.

25. O camponês barbado nada disse, embora fosse aparente a sua angústia. Manteve-se junto da cortina, mas a mulher adiantou-se para o menino, que voltou a cabeça e olhou para ela. E ela lhe disse: Meu filho porque nos deixaste, de forma que sentimos falta de ti em nosso caminho para casa e ninguém te havia visto? Temos estado em tua procura com grande ansiedade. O rapaz não respondeu por um momento, e depois disse muito suavemente: Porque me procurastes? Não sabeis que devo tratar dos negócios de meu Pai? E seus olhos irradiavam terno amor por ela.

26.  José silenciou e Lucano ficou á espera. Mas José não tornou a falar e Lucano perguntou, impaciente: - É tudo? - É tudo. Lucano mordeu o lábio. -Tu nada explicaste, José ben Gamliel.  Quem era aquele rapazinho?

27. José levantou-se e Lucano levantou-se com ele. José pôs a mão no ombro do moço e olhou-o bem dentro dos olhos, profundamente. - Isto terás que descobrir por ti mesmo, Lucano. Sorriu para o moço, com súbita melancolia. Dizem as nossas escrituras que Deus nem sempre lutará contra os espíritos dos homens. -Hesitou, depois prosseguiu: - Quando Deus luta contra o espírito de um homem é pelo mais sagrado e misterioso propósito, e aquele propósito permanece oculto ao homem até o de sua morte. No teu caso, não creio que isso permaneça oculto sempre oculto para ti. -- Levantou a mão em benção -- Vai em paz, meu aluno, querido e muito amado médico." ( Assim termina o relato de Taylor Caldell.) Até a próxima parada..."

Helder Tadeu Chaia Alvim
Postar um comentário