segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O recogita, a jornalista arguta, a marginal zimbória e o refrão alquequengue

1. Não é segredo para ninguém que sou poeta, que minha profissão é uma das mais antigas,que já compartilhou odes com virgílio, gregos e fenícios desde o início de sua jornada, esteve no coliseu romano com Inácio de Antioquia, percorreu o novo mundo, padeceu nos porões imundos de navios arrebatados da mãe África. Veja a tese completa neste blog: o concreto e o abstrato sob o signo da poesia.

2. Ela é altamente consciente e obsequiosa e recompensa bem quem se dedica à função de rimar - o que é uma forma de amar - a seu jeito traz aos seus comandados dias alegres, muitos, tardes alvissareiras de  melancolia serena, noites tremendas de incertezas. Ela trabalha com material não perecível: a inspiração. 

3. Aliás, seu olhar realça o mundo bom, aguça a averiguação, torna-se quase intocável, priva com os anjos longa esgrima e a realidade material à sua volta a tortura e consome suas fôrças alhures.

4. Ás vezes ela impulsiona a caneta a deslizar lentamente no papel e do nada retrata em versos singelos, mas aguçados, a contramão vindo em velocidade descontrolada. Ela se mune de precaução, isenta-se das críticas, para um instante,reflete à margem do tempo e aguarda pacientemente o passar dos tropéis apressados dos entes desalmados.

5. Ou numa manobra rápida e precisa na garupa do vento da precisão, redireciona suas ações para paragens mais seguras e serenas. E lá plena de si cogita outras andanças, outras noites cheias de significados para os seus sonhos sonhados.

6. O poeta, a serviço desta causada sem prazo de vencimento quer escrever, quer gastar a tinta, consumir o verbo até mais não poder,mas pobre coitado tem a impressão que ninguém lê com gosto ou mesmo com senso crítico,o que leva horas para escrever. Só ele,um misto  à brasileira de parnasiano convicto e concretista assumido e a Ágora de seus poucos amigos. E percebe que o espaço do poema torna-se exíguo demais, a correria emperra as moções solidárias, a economia aperta as contas citadinas, a crise avoluma problemas insolúveis para    o esfôrço mortal de muitos. 

7. Foi assim que me ausentei de uma notícia alarmante que vai quebrar o pouco de poesia verde que possuímos na marginal, ou seja Regiane Soares Von Atzingen alerta altissonante:

 >" Árvores 'finas' tentam sobreviver na marginal" - Diário de São Paulo 13/05/2001/"Ambientalista acredita que vai demorar 20 anos para que as mudas plantadas fiquem iguais às que foram retiradas. Secretaria do Verde diz que 30% tiveram de ser trocadas pois pareciam mortas."

8. Muito bem, jornalista arguta e seu jornal também e sinto um puxão e vou procurar anexar meu refrão alquequengue em defesa do verde do meio e de todo o ambiente, pensando lá na frente, se não pudermos mais respirar, o dióxido presente, a temperatura alta, vamos chorar, não nas sombras das árvores protetoras, mas nos descampados de uma situação sem volta.

9. 'Cemitério de árvores, chora o chão, choram os pássaros, chora  o  tempo  e  não  é  para  menos,

10. Marginal Tietê, de fluxo contínuo, de engarrafamentos constantes, de trânsito lento, o terminal que traz sonhos, leva tristezas, bem perto na via expressa árvores encontram-se em seu leito terminal.

11. Tanta tese, tanto conhecimento, tantos recursos, da maior mãe metrópole, ás vezes madrasta se apresenta, não por ela, mas no âmago de suas contradições indigestas,

12. Está perdendo o que era antes em nome do progresso, prega pregos nas construções verticalizadas, amplia sua malha rodoviária, esquece das copas verdes de sua cabeça outrora coroada e desterra impiedosamente seu símbolo vivaz: o sabiá laranjeira, que nenhum mal faz,

13. A grande urbe equivocada, está crescendo inescrupulosamente e qual rabo de cavalo toca o chão cuspindo no rosto de sua  sombra verde,

14. Até você, capital amada, das definições extremadas, de gente estudada, a cidade preparada; socorro, estamos morrendo marginalizados. 

15. Alguma fôrça desconhecida pousou aqui e está sugando nossa inteligência, nossas árvores, nossos  caules, nossas folhas, nossa seiva, nossos  sabiás, nosso ciclistas, nossa poesia, enfim nosso sangue verde e sobretudo nossa capacidade de resistir.

Helder Tadeu Chaia Alvim



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