terça-feira, 12 de julho de 2011

Postura store da poesia

1. Na intermitência destas rimas mínimas pretendia continuar com as emboladas interrompidas se o paraninfo me autorizar. Não pretendo destilar fórmulas de sucesso otimizadas no consumo. Quisera ter o tino de Guimarães Rosa e de suas veredas armazenadas para totalmente embrenhar nos sertões de suas viagens maravilhosas que palmilharam a grande cultura brasileira naquilo que ela guarda de mais precioso: suas raízes interioranas do mato virgem. O  poeta da magnitude brasileira, na sua desenvoltura inigualável, tornou-se excepcional  e grandiloquente.

2.  Não consigo alhear-me da postura atual das rimas, não pretendo editar manuais de poesia, vou escrevendo o que dá na telha, sem quebrar o telhado alheio, guardo conceitos perenes sem erigir espaços comerciais. A poesia traz em seu bojo quente atrativos próprios, designs abrangentes e sobram inspirações em sua trempe acessivel a todos os gôstos: simples, pacatos, exigentes ou cultos. 

3. Não oculto minha queda pelos primeiros, sem deserdar os segundos vamos vivendo com um pé aqui na grande cidade e outro bem fincado nos brejos, nas serras da estância de nossa mocidade.

4. Posto isto vamos em frente com olhar para aquele passado, me lembro bem, moço ainda, quando decidir ser poeta, olhar para o firmamento, observar seu firmamento, inquirir de seus juramentos, tentar enlaçar o mundo com versos de alento. A realidade posteriormente foi cruel e deixei quase completamente de lado a inspiração ao lúdico desejado.

5. Hoje, depois que a poeira abaixou, depois de provar o veneno de decepções amargas, me ponho a recuperar a fachada e o interior de minha sonhada morada, sem fusões, na rusticidade proposta até aonde possa alcançar estes braços da rima em crônica torquatiana.

6. Me vejo na posição de uma profissão profusa de arrebanhar versos. O engraçado é que mudei de situação geográfica, meus cabelos encaneceram naturalmente, mas a satisfação continua a mesma ao  ver os acontecimentos surgirem, pastoreá-los o dia inteiro, respeitando os matizes de suas averiguações, enfim aguardar a chegada do mundo bom.

7.  Não detenho cargos, não pertenço aos quadros da estatística financeira, imerso na cidade que me apoia e determina momentos, que me faz externar sentimentos adormecidos, que explicita esquisitos contrastes, justamente na cidade que ora sepulta anseios, ora emerge com garbo de timoneiro, ora estranha sua face, ora debruça-se sobre suas chagas.

8. Uma cidade que sem cerimônia arranca árvores e edifica imensas lajes verticais, que acende formigueiros de luzes, ergue seus vertiginosos arranha-céus de fuligens, uma cidade em que as diferenças se avolumam, aguça a curiosidade de uns, desperta a saudade em outros, muda tudo, inverte papéis.

9. Uma cidade de gestos escolhidos, de gestos arrancados, de gestos consagrados, de gestos encolhidos, uma cidade de ódio, amor e paz, uma cidade que amplifica o consumo, gente que não se conhece, gente que se abraça nas redes sociais, gente no topo do mundo, gente que se topa nas arenas vicinais, imponente, singela, louca, solidária.

10. Gente a procura de fisionomias serenas, de gestos gentis, e encontram gestos sem face, gestos banais, gestos não mais que simplesmente gestos! E a poesia inserida nesta realidade procura oferecer um pouco de calor humano, um pouco do que lhe resta. E ao constatar sua influência percebe encontrar-se chamuscada e inevitavelmente queda amuada.

11. Vai para casa rever seu desempenho, alimar  sentimentos, esmiuçar mais uma vez os acontecimentos, mais uma vez sobressaltada põe-se a confabular com o silêncio, não articula palavras, não anota nada, e ele lhe sussura ao ouvido uma canção desconhecida... Será! Ela então vai repousar na certeza que ao acordar, verá algo novo neste patamar que a ligará à lógica, não dos files, mas do raciocinio pleno.

Helder Tadeu Chaia Alvim
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