quarta-feira, 1 de junho de 2011

Pirambeiras e grimpas

pirambeiras e grimpas,,,

1.Conforme solicitação de uma leitora assídua deste blog, vou postar uma pequena mostra das reminiscências do sertão iluminado, que se não fosse ele e suas doces lições, não seria eu mesmo em toda a extensão da prosa e do verso.

2.Isto posto vamos lá tentar explicitar o que encontra-se guardado há anos na memória deste que depois de muito chão e atravanco, à moda corrida dos solavancos leves, pretende discorrer para espairecer acerca de uma época esquecida de muitos e que não faz parte da melodia triste da cidade que amo e me proporciona condições para calmamente escrever na insistência de outros refrões.

3.Lembro-me com saudades da chapa em brasa, o café torrado na hora, a paçoca de carne, saborosa, o toucinho defumado na fumaça, as chaminés fumegando anunciando a chegada da aurora, o fogão à lenha fervendo o feijão, as canções dos boiadeiros, os aguaceiros de janeiro.A mãe Geralda, solícita de sorriso franco nos lábios, cuidando da azáfama diária.

4.Tudo isto se foi, levado a esmo se pôs. Conheci de perto esta singela realidade, vivenciei as largas passadas de um tempo feliz e locupleto de sonoridades que ecoam até hoje agradáveis aos ouvidos deste que depois de muito chão está reverenciando com emoção o inesquecível sertão.

5.Lembro-me dos trilhos nas encostas pedregosas, o capim gordura,os carrapichos, as pinguelas dos riachos,as cruzes na beira das estradas, as casas de pau a pique rodeadas de aroeiras, os mata-burros das propriedades senhoris, as pirambeiras aloucadas,as grimpas das serras intocadas, aquele horizonte anil que abençõo na lembrança pueril.

6.A poeira do caminho,  as tronqueiras demarcando o domínio das fazendas cafeeiras, as festas no arraial da padroeira, a comarca iluminada recebendo engalanada a banda de música da cidade, o vigário de sobrepeliz, o prefeito e demais autoridades e o povo feliz, outra realidade.

7.Tudo isto presenciei e achei que seria para sempre e não foi exatamente.Hoje no meu canto solitário rememoro tudo e tento recompor, quase não consigo, pois o aluvião de coisas acontecidas é tão forte e prolixo, tão distante e tão presente que esquenta a mente numa saudade de morrer de verdade.

8.Percorri centenas de vezes a mata cerrada, conheci cada palmo de sua intrincada vegetação nativa, as plantas medicinais ali contidas, os animais de espécies variadas, a passarada encantando as manhãs da estância Pirineus adorada.

9.O angico rosa, o ipê roxo, uma beleza, a braúna da casca dura, o jacarandá nobre, a cabiúna, o cipó caboclo, a peroba, a cerejeira.

10.Me alembro da noite fechada, a escuridão danada, o boqueirão mal assombrado, povoado de jaguatirica, paca, quati, oris cacheiro matreiro, a cobra venenosa e uma quantidade de aves canoras. Tudo isto um dia existiu e persistiu até o homem afeito ao progresso chegar, acabando de vez com a magia, o encanto, espantando para longe os amanheceres e anoiteceres do sertão dos vaga-lumes luminares.

11.Mesmo na cidade grande, depois de tudo passado, ficou a bondade do amado sertão a me alumiar alegre, relembrando-me as surpresas das tardes de folguedos e o canto da cigarra melodiando os arvoredos.

12.Um dia, bem no começo este projeto de poeta andarilho, partiu munido de louçania, em companhia da viola afinada, sem sequer dar um adeus de despedida, apenas foi se embora numa tarde de agosto, iludido pelas luzes fluorescentes, esquecido do candieiro e seus imponderáveis, viu pouco a pouco o sertão apagar dentro de si as emoções da antiga era, a única que não usava máscaras e convenções, na rudeza simples de sua ações, envolvia seus filhos com amplexos fortes de proteção, aconchego e calor humano sem igual.

13.Viu,com tristeza silenciar em seu coração os ecos de uma época consequente.Quando partiu inocente, pensava consigo que um dia voltaria ao seu solo de origem, descansaria da árdua caminhada no colo materno que o viu nascer e crescer. Mas a vertigem enganosa de outros ares esvaneceram em devaneios  a lembrança da era bondosa, apagando em seu espírito a miragem polvorosa de outros tempos.

14.Ledo engano, ilusão sem volta, o sertão acabou, a mata tombou e em seu lugar gente estranha ficou, não afeita a sua beleza rústica, derribaram e estabeleceram modos de viver diferentes e "prá frente".

15.Trouxeram na boleia do caminhão a moto serra, na carroceria o trator.A fria luz elétrica acendeu nos corações outros anseios, ergueram parabólicas, cobriram as estradas de asfalto e num salto vertiginoso pisotearam o sertão e arrancaram dele o desejo de continuar a ser simplesmente, sertão e nada mais!

16. O sonho do retorno não aconteceu, mas a visão clara do encanto raro hoje apareceu!!! E com ela a sensação da exatidão da promessa. Me contaram que as pirambeiras e grimpas ainda estão lá, intactas, aguardando o recomeço.

17.Transcorreram muitas luas, a movimentação seguiu seu trajeto, o poder mudou de mãos, a concentração da cidade grande ocasionou diversas mudanças nos costumes, inventaram a internet, o mundo árabe sacudiu suas estruturas, catástrofes climáticas abalaram o mundo.

18. Lá no sertão deste poeta mínimo o progresso terminou seu ciclo e foi-se "imbora"  para outro trecho de gravitação, a mata cresceu novamente, a jaguatirica voltou, as aves canoras deram o sinal da graça, o capoeirão se formou, o cipó caboclo e tudo o mais... A solidão desceu sua cortina de prata e não mais presenciou a azáfama tardia, o canto da cigarra, a criançada alegre, a mãe Geralda e este simples poeta da era pranteada.

19.Ah! Os vaga-lumes solidários estão lá... sobreviveram a tudo e continuaram a missão de luminares do sertão.

Helder Tadeu Chaia Alvim
Postar um comentário