quinta-feira, 9 de junho de 2011

Sob o signo das conchas e pérolas

1. Hoje voltei a escrever, descrever uma compunção sentida, sentir o pulsar do sentimento, envolver-me com o silêncio.

2. Gosto de acordar no meio da noite, atravessar o corredor vazio, auscultar da porta a batida, caminhar na ponta dos pés.

3.Abrir o portão sózinho, andar na calçada calma, de traseuntes pouca,olhar ao meu redor o estio, ausentar-me sem esquentar o pavio.

4. A escuridão me acalma, dispensa badalação, entontece os que vão, congela o humilde mendigo, amiúde, quase sem razão.

5. Me param na rua, estão sempre na sua, indecisão incomparável, incompatível com a situação.

6.-Tio, preciso de uns trocados para comprar pão, e o trem passa na estação, parece dizer na voz consciente de Solano Trindade: "Se tem gente com fome dá de comer, se tem gente com sede dá de beber".

7. - Meu filho, aguente firme, que um dia outros virão, ouvindo a voz do coração e terão oportunidades de montão.

>Jaçanã, Arpoador, Parelheiros, República, Sé,Candelária, Cordovil, pois zé, tem gente com fome, tem gente que some...

8.Não entendo a situação, oh! era dos chips e cricks salvadores, onde estão o seu calor, o seu valor, a alta definição humana? Em meio a minha atrapalhação, é só o que eu sei dizer, emudecido é o que eu digo sem poder.

9.Monção de um nova era, totalmente diferente, emoções antigas estão para acontecer, prenuncia o arcano, e o engano aparente...é só o que eu sei dizer, e é o que eu digo sem poder.

10. Trocadilhos de um chavão, não é não meu irmão, temos cartão de crédito, cheque cardápio, outras facilidades, cursamos a faculdade, pós graduamos, nos empenhamos no mundo bom, tiramos folgas, falamos alto, gritamos calmo... e ele não veio o porque não sei dizer.

11. Ele, o pedinte já viveu na vaca gorda, nunca escreveu na lousa, viveu o amanhã seguinte, diplomou-se na escola da vida, conheceu de verão, marcílios, delfins e funaros muitos planos, viajou por vários cantos, até que o infortúnio o colheu.

12.Reparto meus cigarros, engulo meu pigarro, ofereço-lhe meu agasalho, aperto a mão daquele desventurado irmão, imagem pálida da morte, numa paisagem falida da sorte.

13.No cais, sem ais, ouro estanhos foram levados, trazidos jaguars etcetares e tais, sem mencionar as superfaturas das comendas gerais.

14. Me pergunto, porque a vida prá uns é tão dura? Para outros é de tão fácil ação, a estes desculpas e falação sobram, àqueles só a danação importa.

15. Não tenho condições de mudar a situação, "todos nós lemos" pelos olhos  da poetisa Lígia Guedes e constatamos a privação, miséria e fome deste nicho da sociedade totalmente alienado, sem o necessário do necessário para viver, num país que bate recordes um atrás do outro em grãos, bem estar, modernidade, dimensões continentais, riquezas naturais e boa fé de seu povo.

16.Alguma coisa vai errada nas cabeças pensantes, deliberantes dos destinos pátrios, a vida é finita para todos, apesar dos louros, fama justa, gloria impoluta, a todos condena uma cova estreita  no fim que nos espreita se morre o homem, fica a fama, a fome. Que tal batalhar pela boa, lendária aos olhos daqui, quando se chegar do lado de lá...?

17.Porque os homens não se unem, porque o mundo não se pune de tanta desatenção porque não olhar a sua volta, estender a mão solidária e colher um sorriso que denota gratidão.

18.Caminho pelas ruas e avenidas movimentadas, a pressa, as buzinas, o poderio, o burburinho desta urbe, que me é grata e  infelizmente vejo, cidadania, palavras das páginas de um hinário sem compreensão, figura de retórica de uma história  que não foi vivida, apenas lida, ditada, que no fundo esbanja charme mas não muda nada meu irmão camarada!

19.Não falo da boca para fora, não esconjuro a cidade da garoa que amo e respeito, somente digo que a situação esta ficando fora de jeito, se é arrazoado de sermão em plena 5ª feira de maio fria ao montão, espero que não me levem a mal e me achem fora do normal.

20.A gente passa como passam os ventos lá para as bandas do meu sertão, uns engolidos pela ingratidão, outros subindo na fama pelos degraus da ostentação, nas capas das revistas, no cenário dos artistas, enxergamos badalação, se o dicionário não estiver mudado, ou se foi um lapso de digitação, eta mundo azarado fora do diapasão.

21.Mas ele está chegando o destino novo, montado no seu alazão, trazendo na garupa o facho de luz, não vai errar o passo, afinará no centro da trajetória humana seu solene diapasão, nos dará seu colo e iluminará 77 lustros adiante após a consternação. De posse da paz realizará feitos que o povo unido jamais esquecerá...

22.Melhor fora que não houvesse "modernidade" de carros e avião,de parabólicas via satélite, então. Talvez a nossa gente, pudesse ter mais união, quisesse olhar mais para as chagas abertas do sofrido irmão, pusesse termo a tanta devastação das florestas, fauna e flora, ousasse mais a contemplação e focasse mais seu coração no tesouro que não corroem as traças nem leva o ladrão.

23. Não sei se estou certo, mas uma coisa não faço não, ficar calado, dizer que são coitados, enquanto muitos acoitam a corrupção, enquanto tantos estão na ilusão, lutando desmedidamente para ter as coisas, atropelando o bom senso, a ética, aquecendo seu leito de rosas, esquecendo-se de que outros irmãos, se deitam sem aquecimento, suportam cruéis padecimentos perambulando nas nuas ruas de idéias nulas.

>>>Munidos de uma fraca réstia de esperança aguardam o perfume para sairem do desconhecimento e rejeição.

24.Não digo isto para acusar ninguém, apenas constato em versos livres a vida que as gentes têm. Andar à noite não é prejuízo, enquanto eu tiver um pouco de siso e uns tostões no bolso, repartirei com alegria o que for preciso, e direi para eles: -Amigos eu sei o quanto lhes peza  a situação, aguentem firmes, um dia outros virão, nas asas de uma era totalmente nova, inefável, onde o sol, a lua, todos os astros nascerão para todos efetivamente e não haverá mais discursos evasivos e tolos, vaticina esta singela canção.

25.E mais, quando isto acontecer, a rima fará sua morada nos abismos indizíveis sem casuismos, verdadeiros sem sofismas, autênticos sem contemporizações espurias, os pássaros enxergarão novamente, o escudo de Aquiles defenderá a humanidade, os rios soberanos se encontrarâo, o talento de outrora brilhará em todas as constelações, de alpha de centauro, passando por ursa maior, pontuando o cruzeiro do sul até escorpiões.

26.Peguem um cigarro, acendam por favor, me deem um trago desta pinga do alambique, aquecem neles a sua, a minha, a nossa dor...

27. Volto para casa, sento na escada, fico acordado, amargurado, bem desapontado. A única arma de que disponho a favor deles é o meu refrão, a única companhia deles - seres humanos - nas suas noites amargas é a solidão e uns poucos cigarros e goles que logo, logo acabarão e um pigarro mal curado de um sopro sem forno, de um gole com gosto, de um povo sem gesto, de um teto sem cores, de um pouco de fração em um mundo sem razão. 

28. De um fôlego agalopado procurei desabafar no meu lado acanhado de escritor quase poeta as pérolas, conchas, modernidades, se ferir a sensibilidade de alguém esta não foi minha intenção na certa, aliás por falar nela vejam o que diz o escritor, poeta e jornalista capixaba que valorizo, Newton Braga: ..."Esta sensibilidade que é uma antena delicadíssima, captando pedaços de todas as dores do mundo e que me fará morrer de dores que não são minhas."

29. E para encerrar cito outro poeta, o jovem Andri que conheci no Centro Elenko KWA,em Pinheiros-SP e dele ouvi e anotei estas expressivas e inspiradas palavras:
"Quando quero esquecer, quando quero sonhar, quando quero a noite, quando quero a poesia e quando não quero mais, fecho minhas pérolas em conchas e não procuro saber o que perdi."

30. Se esperava mais de mim, posso ter decepcionado,se esperava linhas expressivas, clarividentes, sinto não ter evoluido plenamente. Disse em outra parte que a aranha tece a teia e aguarda provisão, este aprendiz de poeta queima as pestanas na lousa da inspiração, dependendo exclusivamente delas e não é todo o dia que me visitam, pois andam assoberbadas com meus colegas de profissão, agenda lotada, muito requisitadas na atual conjuntura politico social brasileira.

31.Para além dos ícones contemporâneos, pretendo ao fechar este turno desejar ardentemente que um outro ciclo raie diferente para a humanidade, um porvir sob o signo das conchas e pérolas. Esta presente empreitada insólita pleiteia rumos seguros, norteando sem tergiversações as nações para talhes de inefáveis proporções.

Helder Tadeu Chaia Alvim

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