sexta-feira, 17 de junho de 2011

As luvas da sensibilidade

                                O trânsito e a cara da cidade

1. A gente observa, na maioria das vezes, a total ausência de cordialidade dos motoristas de veículos automotores da capital. A pressa insana origina-se do trânsito agressivo, ostensivo que leva seu condutor, da mais diversa faixa etária, sexo e condição social a disputa na defensiva dos centímetros de espaço que o separam de seu "opositor", "inimigo", "concorrente".Desculpe-me os termos, nada pessoal.

2. A frota aumenta no ritmo da verticalização, os engarrafamentos fazem parte da leitura ótica, na prática a lentidão esquenta os ânimos, emperrra a agenda, tem pressa de chegar, tem pressa de sair. O simples fato de colocar o nariz do carro na rua traz riscos assumidos. Um bom seguro ameniza os prejuízos, caso venham a se concretizar.Isto sabemos de sobra e na dobra da esquina uma manobra arriscada e lá vai aparecer toda a problemática, isto sem mencionar as enchentes que viraram cartão postal ao avesso.

3. Rimar é uma forma de amar, ela traz alertas, que nunca são demais lembrar.Ao deslizar no papel o trânsito e a cara da cidade que amamos, queria transportar o leitor para algumas considerações. O intuito delas é exercitar a reflexão, cuidar da saúde mental, pois  a situação descrita desalinha a calma, na agitação que a todos indistintamente assola. 

4. Há muito tempo me ausentei do volante, me tornei carona ou passageiro, que se senta confortavelmente nas poltronas, quando se consegue um lugar,ou viajo em pé por horas seguidas, espremido nos coletivos . Criei uma segunda natureza nestes momentos, a abstração. De suas janelas entreabertas  avisto a epopéia de se viver na metrópole, a nação - cidade do tamanho de seus constrastes.

5. Ficção e realidade andam juntas no solo bandeirante, de mil batalhas, mil conquistas, mil alegrias e mil tristezas. Uma delas aconteceu recentemente com a morte trágica do ciclista pioneiro do mundo bom e da qualidade de vida, Antônio Bartolucci. A repercussão ganhou as manchetes de jornais e o mundo todo se abismou com a falta de segurança que os ciclistas enfrentam no trânsito daqui. 

 6. Afastada que está do mar , no ponto mais alto, esta cidade está constantemente sujeita às variações do clima, esfria, esquenta, tudo junto no mesmo lugar. Tem dias de neblina, manhãs de sol a pino, tardes de chuvas, noites de céu limpo.

7. Aqui tem gente que canta,  proseia,  ponteia  os  aconchegantes        bares da pompéia, dos cafés  espalhados em várias regiões, tem pratos típicos, restarantes chiques, o boteco que serve a saborosa carne de sol e macaxeira, um cardápio de deixar francês alimentado.

8. Tem  cantina  de massas  italianas, casa  do norte, sarau na rádio Atual,  livrarias de grande cabedal, Martins Fontes tradicional e Cultura sensacional, arrimos financeiros, morador de rua, Igrejas, Catedrais, comerciantes do bom pano, magazines que um espanto, Luiza, o báu arrematado do Silvio Santos.

9.  Tem gente constantemente falando no celular, outras  plugadas noite e dia nos cybers da internet, executivos  de  gravata, damas de salto alto e tailleur  nas repartições da economia, artistas nas serestas do happy hour felizes, malabaristas nos semáfaros, os que engolem fogo nos picadeiros animados.

10. Tem teatros do bom gôsto, pubs e shows nos sescs de gabarito, no ibirapuera, funchal, estádios de futebol, torcidas organizadas. Esta é a minha cidade que amo, repito! Tem estrangeiro pedindo asilo, o alimador de facas com seu apito.

11. Tem gente que calça a arrogância, outros pregam a tolerância, tem anéis de falso brilho, tem riqueza na poupança, tem rumos tortos, tem túneis, viadutos metrôs, táxis, automóveis, tem seguros, hospitais, farmácias, mercados hipers e os de bairros, shopings badalados e a vendinha do bom preço, planos de previdência, muita gente em evidência, tem mídia, oráculos, medidas perdidas, chegadas partidas e lá vamos nós...

12. Cantei um lado da moeda e ainda falta limar o bronze com franqueza e estilo acanhado, vou prosseguir nesta cidade onde canário costuma posar de astro na esperança do oscar premiado.

13.Esta é a cara da urbe, pois mais que se  fale dela o assunto é sem fim.Ela tem potencial para atualizar seu destino, na disputa acirrada a cara ficou para baixo e deu coroa na palma de sua  mão.

14. Por hora o zinabre a encobre e ofusca sua límpida vontade de ser o pêndulo de gerações serenas e infelizmente se posiciona na contra- mão na  busca delirante de tira teimas sem lastro na verdade plena.

                                   A    manobra

15. A arena moderna das pistas exige do postulante ao volante, reflexo, golpe de vista. Encouraçado e coberto pelo elmo de lata, lá está ele de prontidão, levando a coroa, trófeu ganho nas justas diárias. A disputa é frenética, mãos à buzina, pés no acelerador, embreagem e freio motor. 

16. O  armistício  não  foi  firmado,  a  locomoção  que  deveria ser tranquila e
segura deixou de ser uma lisura e a tourada dá início, onde homem e o  touro de lata, pares aliados, enfrentam, ferem e matam o opositor ao seu lado.

17. É uma batalha diária, tem máquina leve, pesada, nova e usada. Todas enfileiradas, aguardando o comando do seu piloto. O pano amarelo, vermelho ou verde determina a evolução subsequente. Outros aguardam a licensa para se aglutinarem nas rampas envenenadas.

18. Quem perde, quem ganha? Todos indistintamente, os pedestres assistentes, os ciclistas, ao lado. O toureiro sentado no touro acinta o objetivo focado e parte para as justas mecânicas, abastece os pensamentos e segue em frente obsecado.

19. Quem perde, quem ganha, o placar eletrônico enumera os riscos, as estatísticas atualizadas revelam: "Todos ao mesmo tempo!" Ganha tempo aquele felizardo que consegue se safar, perde a vida ou se machuca aquele que a má sorte contemplar.


20. O touro de lata vence sempre, pode acabar indo para a oficina, depois do pit stop sai novinho em fôlha , cheirando a cêra cristalina ou se der azar o proprietàrio da rinha que segura o prejuízo, não fazendo de rogado encomenda outro mais possante para desafiar o adversário.

21. Eles possuem pés redondos e rastros compridos e cumprem velozes sua missão de transportar alguém a algum lugar, tornam-se perigosos na pista e pode se tornar um impaciente gladiador trazendo para si ou para outrem a notícia derradeira. Aconteceu em 14/01/2009 na av. Paulista, centro financeiro da capital Paulista e ceifou a vida da ciclista Márcia Regina de Andrade Prado.

22.A coroa de bronze assiste do camarote o embate e espera o momento para laurear o garrote. Há muito que deixou sua ocupação primordial, o que vale para ela agora é o suporte, a logística, , as novidades, o barulho, a velocidade,o prazo de entrega consome sua permanência.

23.É a revitalização do ideal do homem de seis milhões de dólares, cada vez mais perto correndo na via expressa.Ele consegue uma excelente performance alimentando-se com o elixir da tecnologia, mas na realidade as vidas humanas envolvidas no trato não recuperam a vitalidade destronada de suas vidas.

24. Quão longe distamos do homem do coração de lata que conseguiu um dia amar... encantando gerações, exemplificando lições na pena mágica de L. Frank Baum, estas lições são desconhecidas ou parecem ser na mente dos toureiros modernos mais afeitos ao estilo biônico de Steve Austin.

25. Ficção com sua ficções... O trânsito atual vai aumentar e permanecer em alta por mais dezenas de lustros adiante. Tendo em vista que "seis milhões de barris de petróleo por dia", prevê a Petrobrás - Economia Diário do Comércio 09/06/2011. Então os combustíveis fósseis ainda pretendem abastecer a atmosfera por tempo indeterminado.

 26. As luvas da sensibilidade estão ao alcance de todos nesta cidade, gratuitamente, sem pedágios, à disposição nas galerias do coração. Elas acenam indicando  e desejando aos irmãos que os volantes trazem, a saida e a chegada nos destinos da paz, sãos e salvos.


26. As luvas da sensibilidade tornam-se guias competentes nas manobras da compenetração, exalam o perfume da generosidade e o respeito na diversidade, sinalizam na gentileza compartilhada na pista uma viagem segura. O motorista ao lado é parceiro na vida, na pausa para o cafézinho verá que seu sorriso largo valeu os kilometros rodados.
Helder Tadeu  Chaia Alvim
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