quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Os dois angariadores de ilusões

1. A sereia disse ao pescador: - Amigo porque labuta tanto? Vejo aflorar em sua tez suores ardidos, pensamentos inconfessados, horas a fio na rede, o barco sua casa, os peixes seu sustento, as brisas mornas seu alimento, o cheiro do mar seu perfume de duplat.

2. E o pescador sussurrou palavras incompreendidas, um riso disfarçado acentuou ainda mais as marcas lineares de seu rosto rude, engoliu um sorriso seco e prosseguiu a pesca.

3. E continua maviosa a fada da águas: - Amigo, não se iluda tanto, o mar generoso sepultou meus sonhos, não posso andar, nado ao sabor das ondas, moro no fundo do oceano e meus anos são consumidos pelo desejo do humano.

4. O pescador enfim respondeu: - Minha cara sereia, serei eu insensato? Não possuo suas aptidões, mas faço o que gosto e gosto do que faço.Sou também angariador de ilusões. Já fui poeta, na certa marujo fiel, pirata em alto mar, já posei de mestre da navegação, prático ou títere da embarcação.

5. E prossegue a prosa o pescador: - Não ouso mais a alta canoagem, minha amada partiu e brilha em algum lugar estelar. Se algum dia puder serei um peixe encantado para desposar uma certa sereia... suflar nas ondas revoltas, habitar com ela no fundo do mar, emergir nas manhãs de sol, mergulhar nos recifes,colher pérolas de promessas eternas.

6.A fada do mar olhou o pescador, soltou um suspiro e mergulhou na imensidão do mar...  o pescador retomou sua rotina... pois seus mundos eram diferentes.

7. Este era solitário, amara o impossível, vagueara na maré dos desencontros, afrontara amores perdidos no copo do rum maldito. Aquela retornara ao vale encantado para só aparecer nas noites de lua cheia, emergindo misteriosa para entoar seu canto de dor.

8. Quanto ao pescador, abandonou suas redes- dizem- não foi mais visto no cais,vez por outra toma seu barco e se distancia da terra, depois poe-se a perambular pelas areias desertas nas horas mornas das tardes de solsticios, traz um olhar fixo, leva o barco para longe a perscrutar o horizonte.

Helder Tadeu Chaia Alvim
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