quarta-feira, 2 de junho de 2010

A São Paulo antiga inserida na era das projeções tridimensionais

1. Povo sem história assemelha-se a um corpo sem alma. A cidade de São Paulo que amamos e respeitamos é um escrínio de feitos gloriosos e tradições.Suas largas avenidas, igrejas, prédios  arquitetônicos, monumentos,constituem no seu conjunto a memória viva da epopéia de homens que no passado remoto se encontraram com o planalto de Piratininga e vislumbraram aqui para além de suas vidas o destino que impulsionaria esta cidade nação. Homens da têmpera de Nóbrega, Anchieta, Tibiriça, Bartira, João Ramalho, Anhanguera, Frei Galvão, entre outros.

2. Cada bairro tem sua trajetória fabulosa que dado a correria da capital paulistana, conhecemos pouco. E com esta observação vou me adentrando em um assunto urgente: o da preservação do seu patrimônio histórico.Há de se reconhecer o esforço e a viabilização dos projetos de restauração ao longo desse anos.A consciência cultural agradece as benfeitorias neste sentido, mas falta muito o que fazer. Por sinal li uma reportagem da jornalista Kátia Azevedo no Diário do Comércio que me chamou a atenção dado a atualidade e urgência (conf. Cidades 12/05/2010 - pág. 9 ) "Parlatório do Largo de São Francisco já foi tribuna livre, abandonado, hoje é local de despejo e entulho." ..." um dos símbolos da liberdade de expressão na cidade sucumbe atolado na sujeira, bem em frente a vários representantes do poder público,que, pela lei, deveriam zelar  pela sua preservação."

3.Realmente é lamentavel e a articulista soube descrever a situação acomplexada do marco da democracia,justamente no atrio onde passaram centenas das cabeças jurídicas pensantes determinantes nos destinos do Brasil. Pego carona na sua indignação para relatar a título de amostragem mais alguns monumentos, a meu ver, também bastante judiados.

4. O primeiro deles está localizado bem em frente ao Parque Tenente Siqueira Camos < Triannon>. O Bartolomeu Bueno da Silva anda bem esquecido.Se São Paulo é hoje a extensão de seu sonho de gigante,controvérsias à parte, deve a ousadia do Anhanguera Bandeirante, se hoje admiramos a velocidade da grande metrópole paulista, nos inserimos nela com orgulho, não podemos olvidar a presença marcante do diabo velho  nestas terras, querendo ou não ele aqui viveu, se fez do ideal de vida à corrida ao ouro dos índios é um capítulo a ser estudado á parte. No entanto graças ao destemor das entradas e bandeiras desbravando os sertões brasileiros, fundando cidades, povoando vilas, que o Brasil possue sua dimensão continental. 

5.Um pouco mais a frente encontramos na Praça Oswaldo Cruz a fonte do Índio pescando, não consegui identificar os dados históricos. O local está rodeado por mais ou menos dez árvores centenárias, três palmerinhas singelas que sentem saudades da São Paulinho antiga com seus bondes e canapés, os barões dando o ar da graça por lá... A fonte, coitada secou, os apetrechos de pesca do simpático indio sumiram, sinalizando o descaso que salta aos olhos dos transeuntes atarefados.

6. Isto tudo no início da grande avenida, palmilhada pelo m² mais valorizado da América Latina e que constitui o símbolo da pujança dos conglomerados comerciais, hospitais, shopings centers, uma variedade estonteante de lojas posicionadas no mercado da moda.

7. No afã de continuar a caminhada voltando no sentido Consolação, deixando para trás o Paraiso, haja papel, tinta e paciência de sua parte, prezado que me acompanha, no que agradeço muito a sua gentileza.  Aquele alerta apropriado da Kátia Azevedo veio a calhar, nos impulsiona para frente cada vez mais, que somados a outros esforços podem reverter a situação de abandono em que jazem os monumentos.

8. Dando uma pausa no andar, para o alongamento, sei também que dado a dimensão mastodonte da capital existem dificuldades de toda ordem para elaborar um plano englobando todos os monumentos catalogados, expostos que estão às intempéries, mas sobretudo à  indiferença de seus habitantes,haja vista o Dumont Adams, parente em primeiro grau do seu vizinho Masp.O potencial de beleza desta cidade é impressionante mas encontra-se esmaecido pela negligência daqueles que deveriam zelar pela sua restauração.

9. A par da complexidade do tema, deve existir um projeto sério tramitando neste sentido na secretaria competente para valorizar nosso cartão postal, avivar a memória histórica, regalar os olhos dos paulistanos, dos visitantes advindos de toda a parte do mundo,dos músicos e poetas de esquina que estão na vanguarda a espera da chegada da Grande Arte...

10. Entendemos que protelar este empreendimento vital é relegar ao passado apenas a vivência dos museus.A estação da Luz, por exemplo, ganhou há pouco brilho novo e demonstra primorosa sua trajetória através do tempo. E porque não cuidar melhor das rosas das rosas da casa que traz seu nome, Haroldo de Campos do alto do seu empírio poético agradeceria com versos concretos.

11. O parque < Triannon> também está merecendo cuidados especiais, andam dizendo que ele anda sentido porque o recém criado Parque Mario Covas entrou para a era das projeções tridimensionais e ele não.Porque?

12. A memória histórica de São Paulo pode acabar  pois a verticalização da cidade é um fato diário do voraz progresso, mais uma razão para balancear a situação descrita.

13. Termino com o parágrafo da sorte, pois a São Paulo de tantas conquistas é exemplo de superação inteligente de crises e problemas, sei que com um pouquinho dela , a boa vontade dos dirigentes máximos eleitos pelo voto soberano,das empresas comprometidas com o valor cultural,  saberão olhar com carinho para o seu passado de lutas e glórias e atinar para o futuro com garbo, coragem, confiança e determinação.

Helder Tadeu Chaia Alvim 

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