terça-feira, 3 de novembro de 2009

O descompasso entre a linguagem e vida

1.O cidadão de rua é um homem simples, igual a qualquer um de nós, porém sem teto, emprego por conseguinte. Todo dia me deparo com ele e tenho observado seu comportamento sui generis, paro uns longos instantes, converso com ele o bastante, procuro entender o motivo que o levou a habitar nas ruas e são tantos... cada um escolhe o seu canto, às vezes canta para aquecer a solidão, bebe para esquecer seu destino sombrio. De vez em quando alguém oferece um cigarro, roupas, angaria comida, quando recebe os gêneros de primeiríssima necessidade cozinha em lata improvisada, arroz, macarrão,legumes, alguma mistura arranjada que partilha com o cãozinho camarada.

2. Já vi diversas vezes sua solidariedade para com os outros colegas de infortúnio.Cada qual conta sua história particular, que ecoa sempre triste acerca do seu abandono familiar. Hoje a realidade fala por si: descontrole emocional, drogas, etc... Em comum vê-se nele o olhar vago, autômato, distante na multidão.

3. Amigo que me escuta, o morador de rua também é gente, escreve poesia, teve carteira assinada, já cumpriu árdua jornada de trabalho até que o infortúnio o colheu roubando dele a família, filhos, o abraço de sua gente amada e aos poucos quase sem perceber veio parar na rua da amargura e encontra-se no estado de quase inanição. Não é possível que aquela que conduz nossos destinos com tanta maestria não disponibilize em carácter de emergência primeiro e depois em estado permanente verbas àquele que leva uma vida a baixo dos níveis aceitáveis à sua dignidade humana.

4. Tudo detalhado, um estudo de sociologia apontaria as tremendas falhas da sociedade atual, o lado perverso da moeda avaliada, mas a finalidade aqui não é dramatizar nem tão pouco culpar ninguém mas apenas relatar a vida que o morador de rua tem.E a partir da ótica de um poeta fazer um paralelo entre dois mundos tão distantes e tão próximos, obviamente.

5. Estamos na era da comunicação RFID da rádio frequência, softwares específicos da tecnologia de ponta.Inventam tantos conceitos, inovam a cada segundo, é de se louvar e admirar a inteligencia humana. Por isso me pergunto, porque que é que nesta cidade altaneira que admiro onde se constroi tanto, dá oportunidade de montão, deixa desamparado o irmão do pranto, sem lhe destinar um olhar de compaixão. Ele, antes de tudo é um ser humano, não agressivo e na maioria das vezes não oferece perigos. Ele e seus colegas emolduram a paisagem caótica desta cidade, apontam sem querer as chagas de um tempo quase sem volta.

6.Problemas, quase todo mundo tem, aperto financeiro nem me fale... Nascer em berço de ouro como dizem - é privilégio de poucos, mas padecer miséria, estar entregue à sorte contrária, frio e fome é dureza forte. O direito de livre expressão, a minha consciência de brasileiro me levaram a escrever este poema na esperança firme que o tema seja levantado na camara municipal, nas autarquias, universidades e lares paulistanos e que faça parte integrante do menu desta cidade nação onde as cabeças pensantes e os braços laboriosos tomem providências urgentes e minorem a situação miserável e inaceitável do seu morador de rua.

7. E vamos continuar... Alguém vai argumentar contra e o assunto não acaba nunca. Não é meu propósito refutar e entrar numa discussão desnecessária, não é mesmo? A finalidade destes versos simples é levantar a questão. Sei que de imediato não dá para resolver todo o problema, mas se começarmos hoje em breve teremos avançado um bom trecho no caminho. É premente uma atitude por parte da sociedade paulistana pois o número deles aumenta a cada dia.

8. Exaustivamente venho falando que as ferramentas de trabalho do poeta são suas rimas de onde derivam sua inspiração. Minha profissão é ingrata, outro dia entrei num site de empregos e digitei a palavra chave: poeta! Não obtive resultado satisfatório para não dizer que o sistema travou, reiniciei vária vezes a busca, realizei um dowlond, revisei os parâmetros, os links, apelei para o help desk, em vão! Não constava na leitura a ocupação mais antiga do mundo, que aliás revelou Sócrates, Platão, Aristóteles, Machado, Coralina, entre outros.

9. Bom teorias à parte, o morador de rua está no mesmo caso, acho que nem o IBGE se preocupa com ele... Já pararam para pensar que ele, a seu modo, movimenta a economia. Digamos que São Paulo tenha uns 11.800 habitantes de rua, desocupados , nem tanto pois tem gente que com a sua carrocinha cata diariamente papel, latinhas que serão destinados à reciclagem. Pois bem a média de ganho dos primeiros seria de 5 R$ dia o que equivale X os 11.800,00 ha, a soma de R$ 59.000,00 por dia, por mês daria a cifra R$ 1.770.000,00.

10.Neste raciocínio vemos que a quantia é maior que o faturamento de muitas empresas atualmente. Estamos falando da cidade de São Paulo e este dado que apresento é real. Então o morador de rua está se capacitando para se tornar quase um cidadão economicamente ativo. Se não usufrui das comodidades tecnológicas atuais, pelo menos, como me falou um deles, ele se sente vivo. Se não tem acesso a internet, shopping, carros flex, não frequenta os estádios de futebol, as galerias de arte, cinemas,discotecas,restaurantes, etc e tais, pelo menos sabe que tudo isto existe e se orgulha de morar na cidade que não os acolhe devidamente na minha opinião.

11. Falar sempre foi fácil, realizar é que são elas, ainda mais que estamos tratando de um assunto polêmico e delicado. Eu não me sinto discriminado ao constatar que minha profissão não é ainda reconhecida, melhor que fora. Já está aparecendo no perfil de uma seguradora X a opção: escritor. Estão começando a entender o lugar que o artista ocupa debaixo do sol. Isto é bom!!!

12.O poeta recicla idéias, anota no papel e bate pernas à espera de que alguém leia seus versos , se manifeste na sua conversa e sobretudo conserva a esperança de que melhores dias virão! Espera que o morador de rua seja novamente inserido na sociedade paulatinamente volte a se sentir respeitado, tenha um teto claro, pão à mesa, pois serenidade ele já possui e lá no fundo a convicção de que São Paulo, a grande eldorado da nação brasileira,não vai lhe deixar na mão para sempre.

13. Quando isto acontecer, num futuro próximo, voltarei a escrever, desta vez para agradecer e dizer que estes versos não foram em vão... o pão do calor humano fora repartido à mancheias, a São Paulo previdente olhou para o irmão carente sem desejar os créditos na versão, providenciou mudanças urgentes e viu seus filhos da rua sorrirem novamente.

14. Não acredito que simples versos possam ocasionar a reviravolta almejada e necessária. Já percebi que atualmente existe instituições comprometidas com o bem comum, existe políticas sérias focadas neste assunto,a  cidade é extensa, maior que muitos países. E não é com palavras amenas e floreadas de um reles poeta mínimo que tudo será resolvido.


15. Na verdade vejo estes versos como uma espécie de grito, que sozinho se perderá no vazio sem eco da multidão focada apenas em valores materiais - que ao se deparar com a situação do morador de rua passa ao largo conforme aquele personagem do evangelho citado por Cristo, Senhor. Agora assumir o papel de bom samaritano é que são elas, requer uma ascese elevada e determinação pautada pelo coração humano. Mas se daqui e dali surgirem ações concretas, que desencadeiem a motivação proposta, em pouco espaço de tempo obteremos a sonhada resposta.

16. Não entendam que estou propondo reformas utópicas e badaladas.Não rezo nesta cartilha, coisas assim estão fora de cogitação. Venho da era antiga, da conivência amena entre colono e fazendeiro lá pras bandas de Palma, terra de meus parentes. Devastar a produtividade é atitude insana e fomenta crises que perigam nossas instituições legítimas e ameaçam a ordem estabelecida.

17. Falo a voz mansa e cordata dos antigos tempos, estamos vivendo novos ventos e precisamos urgentes rever conceitos e amparar o semelhante quase desfeito, sem rumo, teto e o mínimo exigido para viver e respirar como ser humano criado a imagem e semelhança de Deus. Acho que criar condições na livre iniciativa, supervisionada por órgãos competentes na sua transparência administrativa seria a única saída honrosa e acertada para uma cidade que se orgulha de seus feitos e conquistas. E não é para menos!

18. Amigo, que se dignou a andar até aqui comigo, agradeço a deferência especial a mim oferecida e convido-o a continuar uma vez que este poema está em aberto e sem a pretensão de salvar a lavoura, ou melhor a cidade. É bom confabular apesar de sua ausência física vejo que nossas energias se equiparam e vão surgir daí muitas idéias a quatro mãos. Não é mesmo? E em pensar que somos mais de vinte milhões delas... que poderão oferecer flores, sorrisos, calor humano, intenções puras, ações desinteressadas que culminarão na solução deste problema urgente e triste do nosso irmão morador da rua paulistana.

19. Se é verdade que a vida passa num instante porque então não vivê-la com um motivo a mais: Olhar para o irmão carente, ele também é gente, está em maus lençóis, privado de tudo material urge de seu apoio moral, ele que é pobre das coisas, cordato, paciente de alma rica em anseios, aguarda do fundo do seu desespero, alguém que o ampare, estabeleça sua dignidade perdida, o segure pela mão, o levante e diga: - Irmão, não esqueci-me de você, venha, achegue mais perto da vida, antes do anoitecer! "Lázaro vem para fora" - desta realidade... 

20. Cidadão de rua, sem teto, mas não sem razão, estou hoje parcialmente cumprindo o que lhe prometi, lembra-se daquela sua interpelação, vou transcrevê-la agora, se me permite: - Irmão, sr. Poeta,você que anda por aí levando trasguinhos descontraídos ,levantando as rimas, acenando para a boa sorte de todos nós, porque não grita alto palavras que poderão ser reconhecidas pela era digital 3 D, diga a todos o quanto o desamparo nos feriu, desesperados estamos, desfigurados nos tornamos, a desilusão tomou conta de nós, a tal ponto que não ouvimos nossa própria voz, sem vez no espelho não reconhecemos a nossa tez, nos vemos à margem do passado, de presente alienado,de futuro sem lastro, de passos incertos... 

21. E não se trata de figura de linguagem!!! Poeta irmão, andarilho do espaço, vaga lume solidário, conselheiro das cantorias, que seus versos não se percam, que seus anseios não se desfaleçam e encontrem a acolhida generosa. Poxa vida a gente também tem sentimentos, apesar de não parecer, pois os contratempos surgiram, subtraíram de nossas veias o equilíbrio, desfiguraram a nossa face, amigo. Hoje, por seu intermédio e cuidado estamos batendo à porta, solicitando com humildade o nosso resgate sem revolta a todos àqueles que puderem nos amparar, já não temos suor, as lágrimas há muito secaram, o estômago vazio dói, a cabeça tonteia, a desnutrição se apresenta e as câimbras constantes nos cambaleiam, nos ajudem antes que seja tarde demais!


22. Depois disto deliberei comigo, consultei o infinito de coração partido, que poderia fazer? Recordei-me das palavras do mestre Divino:" Tenho sede!" Matutei nas madrugadas vazias de perdidos sonhos, partidas ilusões meus arranjos derradeiros, que se me permite gostaria de que fosse meu partícipe neles. A união faz acontecer... Um lampejo de ânimo acendeu o desejo de procurá-lo amigo e propus-me a convida-lo a repartir idéias comigo e depois de ouvi-lo deliberar o que juntos poderemos fazer. Sei que não vai me decepcionar. Afinal em seu peito bate forte um coração solidário, antenado na realidade descrita,sensibilizado com a desdita do morador de rua que urgente necessita da nossa deliberação. Pois a poucos metros de nosso leito e cozinha aquecida habita alguém carente de tudo, de sono ausente, cansaço requerente. Meus Deus dos desvalidos, aonde vamos parar?

23. Em vão seria estes versos se não encontrassem acolhida sincera, em vão seria estas rimas se não se afigurassem numa iniciativa correta. Em vão teria andado nas ruas se não pudesse delas fazer minhas dores. Quando as cores de suas vidas retomarem um brilho novo, pretendo descansar um pouco. A casinha branca da canção eterna está bem longe de se concretizar, nem por isso vão desanimar.Uma vez que eles não podem mais voltar para o sertão, pois não há viabilidade. Urge resgatar o morador de rua criando uma pauta de prioridade essencial na atual realidade humano-social. Depois poderemos nos dar ao luxo de passar um café no coador de pano, pitar um cigarro de palha do meu avô, tomar um trago da pinga do alambique, degustar um licor de jenipapo. Isto tudo somente quando o compasso estiver nivelado entre a vida e a linguagem.

24. As razões delineadas aqui, poderiam tomar proporções altamente benéficas e duradouras para o chão paulistano, que prezo, se forem conduzidas pelo entusiasmo ou dois motivos ilustrados nesta página.= A o servir o nosso próximo os dias para nós transcorrem mais alegres e leves...= = A gente não age por agir, necessita de motivação, uma razão forte que norteie o pensamento,que o conduza do entusiasmo à ação.


a) Isto posto, amigos digamos que as empresas que aderissem a Campanha Solidária em prol do morador de rua, fossem desoneradas x % de seus impostos. Que tal? Posso apostar que muitas e muitas topariam o desafio, até por desencargo de consciência de melhorar o social.

b)Vivemos em plena expansão da era digital, então um cadastro meticuloso revelaria o número exato dos beneficiados, nome, antiga profissão, origem e grau escolaridade, certo!

c) Submeter o morador de rua a um exame completo de saúde, chekup de avaliação, físico, mental e sua desnutrição proporcional.

d) Aparelhar a campanha com agentes de saúde, médicos, nutricionistas e voluntários.

e) Requisitar do poder público local apropriado e pouco a pouco direcionar os beneficiários de rua para alguma ocupação.

f) Construir condomínios base dos ex moradores de rua. A convivência, a dolorosa experiência adquirida ao longo deste período nas ruas paulistanas, fortalecerá a amizade e união.

g) Reavivar neles o gosto pela leitura, estudo, literatura brasileira, desenvolver dinâmicas com teatros, saraus interativos.

h) Produzir documentários de alcance internacional, relatórios quinzenais, para apuras as lacunas e também verificar as metas alcançadas.

i) Conceder selos e certificados às empresas, amigas dos moradores de rua.

j) Solicitar á camara municipal a instituição do dia do morador de rua, quando ele possa receber
cuidados especiais, atenção, motivação.

25. Bom, finalizo o presente tema e pretendo que o mesmo seja debatido, pois o assunto transcende em muito ao estilo literário e a realidade tornou-se premente de uma solução definitiva e os nomes daqueles que se sentirem sensibilizados com a situação descrita acima terão certamente seu registro no grande livro da vida. Obrigado amigos, abraços de união!

Helder Tadeu Chaia Alvim
São Paulo 13/11/2009
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