terça-feira, 2 de junho de 2009

Içamento

1.Vou prosseguir, junho se aproxima e com ele sonhos acalentados nas frias noites, vazias de sentido que estão chegando para a humanidade, aquecidas com suor da tinta de tantos bons poetas, antenas delicadíssimas - como queria Rubem Braga, capixaba de primeira linha- que muitas vezes captam dores que não são suas...

2.Lá fora o mundo continua seu caminhar incerto, em marcha lenta, acelerado, obtuso, confuso,recorda, espreme a consciência, desalenta a realidade, cambaleia ébrio depois de uma noitada de orgias, içando tortuoso um destino que antes de nascer já se perdeu e não há mais consolo.

3.Vidas vividas...Ideais idealizados... Andou muito, caminhou pouco e não conseguiu sair do seu lugar comum. Não me iludo tenho minha parcela de culpa nisto tudo. E eu vou com ele, tropeçando, tergiversando também sobre lodos de loucos calabouços. Paro um instante afino o ouvido, ouço seu canto triste, seu último vôo emplumado de cisne cinza. Privo com ele uma melodia que não existe mais. A partitura esmaecida pelo tempo jogado fora encontra-se ilegível e não toca mais a fímbria do coração do homem. A sintonia se perdeu na praticidade abusada de tantos zeus modernos, ícones descobertos e criados em laboratórios, as cordas sensíveis enferrujaram e não há mais contas no rosário das boas intenções.

4. Tudo já foi visto, tudo se esgotou, observo seu semblante sério, suas cãs, sua tez desfigurada, encontra-se sulcada de preocupações, as lições por fazer, o tempo da prova se esgotou,e a reprovação vindoura é fato desolador.

5. Não há mais mistério, a decifração dele nem foi cogitada pelas mentes on line, simplesmente foi deixada de lado, coisas do passado. O cabrito de Tobias foi devolvido à regalia, à revelia da vontade do ser supremo de suavidade eterna.

6. A inocência também se partiu, a decência se prostituiu, as promessas de um mundo melhor não se cumpriram, os nós se cegaram por si sós, os comprimidos lenitivos acabaram, a euforia passou, a auforria suspirada não aconteceu,

7. Já não somos nós mesmos, a maldade e a violência se estabeleceram e nos tornaram reféns de nossos próprios erros, a dúvida escalou o topo final de sua desventuras, e o prometheu acorrentado na montanha inerte de seus sonhos em ferros vê devorada sua entranhas.

8. Estranhos pressentimentos numa noite gélida de junho, não tenho elementos para lançar um juízo, apenas escrevo mais um capítulo de meu livro na ânsia comedida de atingir as 365 rimas prometidas

9. Enquanto isso que tal a gente isolar-se no infinito, aguardar que o espírito humano se restabeleça do mal
que fora acometido e materialize-se em tons definidos.

10. Quem sabe mais na frente na curva de uma estrada não planejada o nosso tão querido mundo sem face, mude sua toada volte a ter sua aparência suave e mais tarde retrate o quanto a bondade é a chave de todas as portas da humanidade.

Helder Chaia Alvim
Postar um comentário