quarta-feira, 20 de julho de 2016

A carta de Sitero

                        A   c a r t a   d e   S í t e r o,
               Prezada Déia,
a.      Escrevo-lhe   hoje não por email, whatszap, ferramentas importantes da era digital, mas vou me utilizar do modo antigo, sim porque não? Fazía isso na época do ginásio, que até esqueci o formato. Era bom, muito bom depois ir postar nos correios a correspondência, o ato em si revestia-se de uma solenidade prazerosa. Ah! Aqueles selos variados, a cola arábica, o envelope de cor branca, com riscos amarelos, azuis e verdes? Trazia impresso as palavras:  via aérea par avion  ! E ficávamos à espera da resposta, e lá vinha o carteiro depois de algumas semanas entregar a carta. Pois é, tudo isto se foi, levado a esmo se pôs e o movimento on line apressou tudo e encheu a vida das pessoas com o nada em ebulição...
b.      Déia, hoje lembrei-me de você, foi uma lembrança suave, recordei de sua última viagem à São Paulo, sua empatia com esta cidade, sua intimidade com as rosas do concreto, lembra-se? No meu caso alembro bem, tive infância, subi as grimpas das serras, escorregava  pelas pirambeiras em cascas de palmeiras, pescava lambari no rio neblina, aprendi a cartilha com minha  bondosa mãe Geralda, aprendi ‘a amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo igual a nós mesmos’. Infância distante, infância feliz, e as cirandas  ao luar, com meu irmãos e primos, uma algazarra só. Mas na tenra idade o destinou me  separou deles, cada um foi para um  lado, cuidar de seu recado.
c.       Cresci, mas o torrão da terra natal ainda hoje perdura em minha   memória de estórias mil, lá não sei porque seu sol  tinha algo de diferente, dourava tudo quanto tocava, e fazia brotar canções nos lábios que acariciava. Depois de muito chão, a prosopopeia daquelas serras azuis brilha ainda, e me convida a escrever versos e mais versos ao amanhecer. Hoje moro na cidade grande, cheia de detalhes, cidade esta encravada no planalto de Piratininga, que dista uns 970 km de minha querida Estância Pirineus no Noroeste Fluminense (RJ).
d.      A razão desta missiva, um tanto longa e para relatar minhas impressões de quase escritor, que vive entre o concreto e o abstrato de uma metrópole insone, aguerrida, hospitaleira, irônica, franca, forte e fraca ao mesmo tempo, aliás você a conhece muito bem, pois aqui nasceu, viveu grande parte de sua juventude, se formou no balé clássico. Ah ela   acolhe sonhos, dissipa esperanças, espalha movimento, criva seu solo de cimento, muda de estações num mesmo dia, esfria, esquenta ao compasso de horas, demora e adianta seu querer, enfim inspira canções, respira poluição, respeita opiniões, incentiva as gentes, deprecia intolerâncias, e parece não querer perder a pose e o status de condutora dos destinos da nação Brasil.
e.      Ora pois, se me permite me estender mais um tanto, vou relatar, minha cara, um dia dela, da grande e dinâmica cidade de São Paulo, quando ela comemora sua revolução constitucionalista de 32, marco importante na democratização do Brasil, então fechado pelas duras botas do Sr. Getúlio Vargas até quando São Paulo se rebelou e pagou com vidas um alto preço por afrontar os desejos de hegemonia ditatorial do então Presidente, o gaúcho Vargas.
f.        A aliteração se ausenta completamente de seu parecer, a assonância acentuada persiste e move seu modo de ser, sem prosopopeia ou animismo, é uma cidade concretista, ainda hoje teima em se expandir ultrapassando seus limites, superando crises, e em riste sempre encontra motivos para sorrir, as vezes chorar, sem auto piedade respira fundo e se inunda de sonhos, e não se iludam os desavisados de plantão, máxime da politica partidária, ela não se contenta só em versejar seu ideal de liberdade e bem comum, mas acorda cedo para beber na fonte a água limpa da democracia e agir no sentido que o bem maior da nação se torne uma instituição livre, atuante e verdadeiramente brasileira.
g.      Ela, mesmo displicente, não se deixa iludir pelos fantoches de Brasília, pela corrupção sistêmica, haja vista, irmã dileta, que em junho de 2013, por um simples aumento de tarifas dos ônibus na capital, ela trouxe a rua muita gente, e depois disso muito aconteceu à nível nacional, temos uma presidente em processo final de impedimento, três ex presidentes sob suspeitas ( não condenados). Que mais? Tantas e tão diversas coisas que o espaço limitado desta carta não suportaria linhas em profusão.
h.      O fato de seu amigo está escrevendo estas linhas, foi porque ao viver aqui neste solo, a gente também fica contagiado em suas ruas com tanta gente querendo a bem querença e a abastança geral para cada metro de terra deste Brasil brasileiro. Na verdade a metrópole parece dizer coloquialmente aos seus transeuntes: filhos e filhas, não se avexem não, vamos agir no sentido de purgar esta crise sistêmica, vamos lutar para que a honra volte a contagiar os mandatários do poder, vamos fazer acontecer a democracia plena  de 32, atualizada para nosso tempo, vamos respeitar e aplaudir a promulgação das leis constitucionais, e voltar a ter orgulho de nossa bandeira nacional.
i.        Vejo que o que foi dito corresponde aos seus anseios, desnecessário seria destilar aqui nesta pauta, estilo e classe, pois mesmo nesta caminhada atual com laivos escatológicos, a cidade urbe, se em determinado momento caminha descalça sobre lodos de loucos calabouços, ela vislumbra a saída honrosa não só para si, mas também  para o conjunto da nação brasileira. Bom, minha irmã, no dia nove de julho p.p, 84 anos após os acontecimentos ensaístas do estado de direito democrático o sol finalmente deu o ar de sua graça diáfana por estas bandas, tímido mas salutar, resolvi bater pernas ao léu, estava lindo o dia, os raios da madorna refletiam nos prédios coloridos, desenhando neles figuras variadas, a temperatura controlada dava a impressão de se estar em pleno veranico; sem chapéu arrisquei a caminhada à caça da bendita  inspiração. Subi a rua Bela Cintra, uma breve parada na Igreja de São Luiz Gonzaga C.J, e depois lá fui eu anotando no cânhamo as impressões de um domingo diferente, tendo como fundo quadro a lembrança de 1931 com a queda do café, a crise de 1929 que deslocou grande parte da população do campo para São Paulo, tornando-se maciçamente urbana.
j.        Sem chapéu, ausente o fotoshop, risos,,, me senti só no meio da multidão que locupletava a avenida mais paulista de todas, aliás fechada à veículos, parecia mais um imenso calçadão franqueado a todos, e tinha de tudo, músicos do arrimo, feiras livres, crianças brincando com bambolês, gente para cima e para baixo, grupos musicais dando uma canja aos transeuntes, e como não poderia deixar de ser, os protestos contra a corrupção, independendo o partido politico, muitos deles viraram alvo destas manifestações em prol da democracia, em frente a Fiesp, muitas barracas montadas, gente acampada, aguardando o veredicto do senado, o famoso impedimento em curso! Vi o concreto armado rodear a multidão, os arranha céus, orgulho da Metrópole com seus mais de 11,89 milhões de ha, equivalendo segundo o IBGE, 6% da população brasileira, que hoje atinge a cifra estimada em 202,77 milhões de habitantes. Contemplei por uns instantes fugidios a aglomeração à minha volta, quantas faces intuitivas, alegres, brejeiras, as construções homéricas esbanjando charme, arquitetura de ponta, desafiando a lei de Isaac Newton, e uma cidade de estilo próprio,  sem muito verde, que teima em ser a condutora do movimento, que ocupa o posto de vanguarda financeira da América Latina.
k.      Ás vezes alguém caminha ao meu lado, ouço seus passos descontraídos em companhia de seu animal de estimação, esses mesmos passos que no dia seguinte vão correr em busca de seu status social, é o cidadão (ã)  paulista inveterado(ã) em seu pensamento, corre e corre a semana toda, transforma-se  em uma espécie de bandeirante da era pós moderna, e só se aquieta nos fins de semana, este modus vivendi contagia seu sangue, e se você se apresenta como um ser lírico à busca das realidades empíricas vai ter dificuldade em interagir com ele por completo.
l.        A não ser se você na arte ser tornar um agraciado da mídia, aí ele vai privar contigo  longas e prazerosas horas de flanação, primeiro ele ouve seu proseio para em seguida demonstrar conhecimento geral da literatura, fala que tem algum livro autografado por este ou aquele lente das letras... que visitou a ultima exposição de Dali, Tarsila, Merisi Caravaggio, Monet ou  Rembrandt  e Van Gogh  no MASP, que assistiu o lançamento de certo filme cult no espaço Itaú Unibanco, Paris – Manhattan é seu preferido, que participa da Ong, Transparência Internacional, Green Peace, e que quer ajudar a salvar as baleias ou os golfinhos. E fala com sinceridade, e se empolga a cerca da história universal, Copérnico, Rosseau. Churchill, Gandhi, gosta das éclogas de Virgílio, cita textualmente Camões e Fernando Pessoa, a Iliada de Homero, curte Osvaldo Montenegro, Zeca Baleiro, Renato Teixeira, Alceu Valença, Zé Ramalho, Elis, Raul e Taiguara, cultua Aroldo de Andrade, Libero Badaró, Antônio  Ermírio de Moraes, Gonzaguinha, é mesmo ! E a prosa se estende nas casas da rosas, hoje uma instituição cultural que leva o nome do poeta Haroldo de Campos, e para encerrar o meu consulente cita ainda Mario de Andrade e Álvaro de Azevedo, E vai indagar do consulente se já foi assistir a ultima montagem do musical ‘Tempestade’ de Shakespeare no Tucarena? E de quando em vez tem arroubos de saudosismo com Adoniran, Demônios da Garoa e Benito de Paula, e quer assistir de novo, a Douce Vitta de Federico Fellini. E mais vai lhe perguntar invariavelmente sobre a ultimo espetáculo Spartacus do Balé Bolshoi no Teatro municipal do Rio de Janeiro!  Vejo que o paulistano, assim como a maioria dos mortais ( nós) vivemos plugados, agarrados no tal WatsApp, mas se te encontra para um papo formal, ele adia a navegação por uma hora, depois esquece... que você vai ficar falando sozinho!
m.    Voltando à avenida, já é fim de tarde, e o sol vai se despedindo da galera, e promete voltar qualquer dias desses para dissipar a depressão do frio, já que a magia de sua amiga garoa há muito que não aparece, e sem desmerecer esta cidade que me agregou ao seu sonho louco de unir ao abstrato o concreto, avisto uma pedinte, me detenho  um pouco, pergunto seu nome e ofereço alguns tostões, ao que ela sorri um riso solto e me abraça e agradece  o quinhão! Eh, dileta bailarina, o relato se estende, e agradeço sua paciência em me ouvir, pois ainda faltam 7 letras para complementar a descrição de um domingo especial deste seu admirador,  cantador inveterado de rimas, que tange a bigorna dos versos, inversos escritos sem perceber, pois desde que o mundo é mundo a legião dos poetas cantaram seu canto, choraram seu pranto com arte, talento e engenho, qualidades que não tenho, apenas me esforço para vender meu peixe não nas tendas de célebres xeiques, mas no recôndito escondido de seu coração intuitivo, inteligente e incentivador de meus escritos, será sempre meu doce empenho, tenho dito!
n.      O poeta já teve um pé ne helênica pátria, conheceu gregos e fenícios lá bem lá no  inicio de sua jornada, esteve presente em todas as eras históricas, uns pobres desconhecidos, outros de sorte fulguram na literatura antiga, clássica, moderna e pós, e será assim até o cair da ultima folha verde na consumação arcana. E o maior, mais célebre foi e será sempre Aquele dos versos perdidos, Aquele que detém o tempo e a história, que acalma ventos e tempestades, e que poderá restaurar alma individual e coletiva da nação Brasil, Aquele que um dia às margens do Mar da Galileia proferiu palavras de vida perene:  ‘ Amai-vos uns aos outros... olhai os lírios do campo’,  por sinal nosso Deus Humanado, fonte da sabedoria, mansidão, força, Jeshua, o Mestre Divino a quem ofereço estes singelos  traços e outros mais... Minha irmã, você sabe, a metrópole paulista é extensa e contrasta no avesso de sua antítese entre o concreto e o abstrato e me insiro nela.. você já  definiu este meu estado de espírito ser e ter... e por esta razão resolvi me estender nestas linhas, sabedor que tenho alguém do meu sangue que me entende melhor que eu mesmo, risos... Ela, a grande urbe, coexiste sem traumas na harmonia, e em meio a sua diversidade cultural e financeira, ela, auto critica por natureza conhece seus problemas domésticos, está sempre pronta a dar o ombro amigo, não discrimina os poetas do povo, nem tão pouco consegue dar-lhes voz e vez, mas este domingo ameno propicia  muitos cordéis da rima a mostrar seu trabalho, composição, performance nesta rua de todos que é a Avenida Paulista, centro financeiro mais importante do Brasil. Isto posto continuemos na locução poética, para absorver a inspiração e plasmar no papel em branco a versão de um sonhador que é  o ´menino esquisito’ de d. Idalina, o ‘irrequieto’ neto de Vó Vivina, que ora lhe escreve.
o.      Tem gente aguerrida nas ruas, pleiteia um Brasil melhor, a cidade sorri, um riso disfarçado de apreensão e tristeza, dado a corrupção espantosa na malha politica porque passa a nação, vendilhões do templo da republica assenhoram-se do erário com fome de mil dragões, a honra fora conspurcada, a ética engambelada, bandeiras sociais tremularam à guisa de dolo, e na calada laia dos ministérios, verbas e mais verbas foram açambarcadas deixando a nação brasil à beira de um colapso cívico, ético e financeiro, mas... mas... embasados no direito de livre expressão que lhes faculta a constituição federativa, milhões de brasileiros acorreram às ruas soberanas pedindo o fim destas aleivosias, e tudo parece , a reversão dá sinal positivo de esperança, e o Juiz Moro e sua capacitada equipe não estão dando tréguas aos malfeitores do poder, e acenam para um pais, justo, e auto determinado, plugado doravante no bem comum maior inerente aos seus mais de 207 milhões de ha.
p.      Um frêmito de certeza pude colher daquelas faces da brasilidade em pessoas, a politica qualquer que seja ela boa ou ruim passa com os ventos lá para bandas de nosso sertão iluminado, não é verdade? E estas fisionomias pareciam dizer a cidade de São Paulo, quiçá ao Brasil inteiro:
 ‘ Oh! Sampa, oh! Pátria, mão gentil, força em Deus e na patrona negra de Aparecida, não importa o mal que te acometa, estamos contigo, estamos aqui de pé, animados em te defender destas aves de rapina, encasteladas no poder, não se avexe não, és um pais de fronteiras continentais, de povo pacato e lhano, de sonho latente, lá na frente acreditamos que tu vais continuar a gerir seu destino, renovada no amplexo do bem comum maior, aguenta firme que estes miasmas vão se dissipar com o grito altissonante do gigante, ‘pois os filhos teus não fogem à luta’, e o começado em 1933, abriu o franco glorioso do direito constitucional, pois em São Paulo tempo houve que brasileiros deram o sangue pela convicção de uma nação em que a auto determinação vingasse a honra, o estado de direito, os valores da cidadania, a paz se lhe apraz!
q.      Ah! Já que você me nomeou poeta andarilho, a que fico imensamente lisonjeado, e  fazendo jus ao cargo recém empossado, estou mostrando serviço lírico, no intuito de passar de ano na nomenclatura poética, que tal hein continuarmos a caminharmos juntos neste mister prazeroso? Se lhe agrada para ‘exorcizar as ideias’,  enquanto se faz  tarde em Piratininga do planalto de Nobrega e Anchieta, Mem de  Sá  e palmilhado pela figura santa de Frei Galvão e tantos outros e outras valorosos paladinos da fé autêntica, e defensores da civilização cristã, aquela que nasceu no gólgota das dores, quando o Nazareno foi  ferido no coração pela lança pontiaguda do centurião Longino, há exatos dois milênios  atrás, aquela que mereceu da Virgem Mãe seu primeiro osculo de esperança!
r.       Por estas razões enunciadas acredito que um dia vai se realizar a profecia do mundo bom, Pois não é possível que o mais belo gesto da história tenha sido em vão, e em pensar nisto, chegamos aos contrafortes da avenida e de longe avistamos a estação Metro do Paraiso, nossa jornada está prestes a terminar, deparamo-nos com figurantes anjos, e pensamos na realidade anímica que nos rodeia, invisível mas existente mesmo, insistente, a mover os corações na Terra do Homens, para que o ‘profano’ se assemelhe ao soberano, mesmo que para tal a humanidade tenha que novamente subir  o calvário, sofrer as agruras da crucificação moral e psicológica para depois ressurgir para um porvir totalmente voltado à Rosa Mística de Eleição.
s.       Um sinal, apenas um tenro sinal, me deparei no canto do asfalto com uma pequenina rosa brotando... e nomeei-a a rosa do concreto armado, e concomitantemente a isso apareceu ao meu lado alguém de olhos vivos, com jeito de menina, tez argentina se deteve e dispôs-se a transplantá-la, doravante seria a expressão maravilhosa de um concerto amado! A singela  rosa brotou em situação adversa, resistiu, encontrou a boa samaritana de nome Prado de Mel, e sua vida adiante seria a junção harmônica e possível do ter e ser, tão ao gosto da bailarina.
t.       Assim como chegou a bailarina, agora em companhia da rosa, distanciou-se com seus passos sintonizados nos movimentos convexos daquela avenida,   algo em seu ser denotava equilíbrio, admiração, meiguice e uma força suave capaz de mudar a realidade da rosa, dora em diante. Um doce perfume ficou no ar que expressava determinação, equilíbrio, leveza, capacidade de concentração, e percebi que ela e  a rosa iriam transpor os limites da determinação...
u.      A gente se depara com belos gestos, apesar da situação aflitiva porque passa a capital bandeirantes, espelho fidedigno do Brasil atual: desacionado por uma corja de malfeitores do dinheiro publico, e precificado quase ao infinito por ações politicas de gradual apropriação indébita. Esperamos sim um golpe, mas de vento arcano, de legitima brasilidade, para afastar de vez esta espécie perversa de ‘ liquida tudo’ orçamentaria de parlamentares inescrupulosos, encerrar de vez este capitulo escuso da nossa história pátria,  que se possível fora faria estremecer na tumba  Sir Ruy Barbosa e o monarca, o mais brasileiro de todos: D. Pedro II. E São Paulo, agregadora fiel e vigilante de todos os brasileiros, guarda em seu bojo sagrado o sonho latente de liberdade e bem comum, pode apostar que sim!
v.      E a tarde amena se foi, como se vão seus transeuntes, viveram um momento de lazer maravilhoso com sua família; a Igreja da Imaculada anuncia o Angelus, muitos fiéis católicos se aglomeram em seu interior, ouve-se o barítono entoar o gloria, depois o credo, e a presença real do Cordeiro vem visitar seu rebanho, depois o Agnus Dei, e finalmente o Ite  Missa  Est. A noite chega de mansinho na avenida das idas e vidas, amanhã será segunda feira  e a batalha por dia melhores para sua prole não sairá do peito, mãos e pés do paulistano , afeito às agruras do trabalho, ao transito congestionado e tudo o mais, mas valeu a pena, ele vai aguardar outro domingo para espairecer os ânimos...
w.    O véu da noite cobre o sol, o frio começa a aparecer e dizer: não esqueçam estou aqui... Olhe o lado bom de minha temperatura, tire do armário seu casaco de veludo, calce as botas, fique mais elegante, frequente o café, leia um livro, e não esqueça que tem irmão morador de rua com carência de tudo, reparta o pão, dê-lhe um aperto de mão, solidariedade é bom, aquecerá seu coração, e um dia o norte certo lhe dará a monção de um fogão quente e fartura incipiente, quer dizer esta singela canção!
x.      O velho e o novo se encontraram, confabularam em prosa amena, restou  apenas ideias abstratas, a esperar voos concretos na mente de um certo poeta de tez serena, sorriso franco, ‘interiorano’ que se fundiu ao ‘cosmopolita’ no    dizer de Math  minha irmã querida... que avalizo nesta escrita; embora perceba que estou novamente sozinho na multidão, olho de soslaio que a cidade carrega um quê de pujança, crise existencial, apreensões, pois sua fé esmaecida, não suporta a levitação,  o seu  tempo de consumo de bens duráveis foi-se, a passarela  fashion  já não encanta sua psique, os modismos de comportamento estranho, e contra a natureza ais  a afastaram da consecução de seu destino ultimo. E só uma volta ao imponderável conseguirá dela o retorno a casa do pai das luzes.
y.       Bem, minha diva, mentora destes versos, a noite cerra seus véus de prata, lâmpadas de neon ofuscam dela o sentido transcendental de sua existência, e a cidade torna-se fleumática ao extremo, ela se trona, encolhe sonhos,  ilusionada, parece uma dama ornada para a festa com falsos anéis, e o brilho de sua face torna-se incolor a medida que sua maquiagem excessiva quer cobrir as rugas de seus desamor, e queda pensativa, outrora se tornou o eldorado das oportunidades para tantos que aqui aportaram, hoje o movimento é inverso e pouco há pouco percebe que sua senectude a afasta mais e mais... sua riqueza esvaiu-se em bolhas de sabão levadas pelo vento do esbanjamento. Mas no fundo carrega um riso irônico no canto de seus lábios sinceros .Ah, ela já viu passar em seu habitat, tanto amor, tanto ódio e traição, tantas querelas e desavenças, tantas aventuras, mas em contraponto tanta fé, tanta virtude e bem estar social, que ela agora vive de saudades, remorsos... zabaneira que foi do  seu passado.
z.       Mas no fundo no fundo ela almeja  ainda a voltar a gerir os destinos do Brasil, qual cão de guarda carrega consigo reservas de generosidade e heroísmo, e ao mesmo tempo vivida, tem algo de esperança em seu olhar... que ela mesmo não sabe definir ao certo, mas que se renova a cada dia.  tem, ora se tem! Ela tergiversa entre o concreto de sua vida, e o abstrato de suas concepções anímico- empíricas, ao mesmo tempo que  quer ter, o freio do ser a controla, contrastes de sua maneira de agir e enxergar a realidade que não a enlouquece mas aquece sua trajetória de fazer historia...
aa.  Um duelo existencial que mantém seu equilíbrio, a faz humilde, inspiradora, protetora e incentivadora das artes e canções, pois sem esta faceta concreta misturada à  abstrata, ela a cidade de São Paulo, não privaria com seus  poetas das avenidas intuitivas, seu sonho latente de mundo bom!

Epilogo
No meu caso, sai vagando pelo mundo afora, deixei minha terra, o riacho, o pé de jenipapo, fogão quente, e sobretudo o carinho de minha bondosa  mãe, e de meus amados  irmãos,  e numa tarde de outono estival, peguei a viação Itapemirim e parti... Em lá chegando avistei uma metrópole barulhenta, e pensei comigo não esquenta a moringa, pois é aqui que sua vida recomeça. Sofri á beça, mas sobrevivi, aprendi a rimar para passar o tempo e esquecer a triste sina de certo moço interiorano em meio ao concreto protendido. Um rapaz cheio de sonhos que iria viver em  meio ás agruras da cidade grande. Foi o bastante para me inspirar, tanto que sobrevivi, com a graça do bom Deus estou novamente aqui! Certa  feita encontrei uma bela dama, ao que logo me perguntou: - Seu esbelto moço cadê suas malas? Eu a fitei por uns instantes, respirei fundo tentando encontrar o bastante das palavras certas,  e respondi com a voz embargada: - Senhora das mil faces, minha mala e este alforje de pano cru, e meu cadeado é o nó de embira! Ela me observou demoradamente, ensaiou um passo em minha direção, vi o brilho em seus olhos cor de mel, Ela  aprochegou    de  mansinho, me enlaçou forte e sussurrou em meus ouvidos: ‘- Não se avexe não poeta, aqui tem lugar para vancê,  juntos vamos cantar versos e mais versos na humildade e confessar para toda esta cidade e para o mundo inteiro, ser fugaz o som das letras.’ O enlace não é que  deu certo, nos  entendemos demais,  e esta sintonia  sagrada já dura uns bons 28 anos! Seu nome, o nome doce e suave de minha confidente: Ars Poiésis.

Posfácio
Déia querida,  me alonguei, em uma prolixidade sem fim... não liga não seu amigo  é assim mesmo, acho que foi o leite materno, aquelas subidas e descidas i{íngremes da serra dos Pirineus, e os bancos duros do seminário, as longas horas da filosofia tomista, em Niterói e Campos, as incertezas do caminho... sei lá o que, sô! Então o perambular pela grande Urbe, de ressonância inquietante, que me agregou incondicionalmente na clarividência contrastante do seu consciente coletivo, me empurrou para o fazer poético, compensando perdas alheias ao meu querer primeiro,. Daí a ideia louca de anotar no papel gipseo minhas impressões acerca de sua versão intimista.
E na trilha resolvi escrever sobre ela,  de A a Z – explico-me  se consigo! Ah! ela carrega em seu bojo algo de sagrado e profano em constante evolução, não nega claramente suas origens, mas afirma ser futurista do ter, abre sua perolas em conchas do ser, e não quer saber o que perdeu, o A, que bem poderia se auto intitular:  atitude altaneira, alteridade convexa,  anverso  na antítese. E o Z:  cidade zagaia da sorte, do zonza,  do zoom, e sobretudo extremamente Zelosa. De direitos e obrigações bem definidos, séria, grave, alegre, taciturna.
Enfim , foi bom, muito bom estar com você , que considero inspiradora destes versos, inversos ao amanhecer, neles esbocei realidades, das contrariedades me apartei, estive inteiro no que escrevi, obsequioso ao extremo à cidade que carrega ainda hoje, depois de muito chão um quê de bondade, um quê de esperança, um suspiro pelas coisas certas, apesar dela ostentar o que não possui mais; seu aluvião atual, suas esquinas e avenidas carregam ainda saudades de seu passado, tremores de seu presente, e uma vontade danada de voltar a ser a locomotiva atuante da verdade, do belo e do movimento retilíneo correto para todo o Brasil, seu povo e suas miragens de cidade nação. Quem sabe um dia ela vai conseguir dosar na dose certa sua percepção de ser para ter...

Assim termina a Carta de Sítero, em uma visão intimista da cidade de São Paulo, quem ler estes versos, escritos ao amanhecer, agradeço de antemão a consideração, pois seu olhar será minha satisfação, um incentivo precioso a um certo andarilho das letras soltas, interiorano de origem, cosmopolita por opção lírica, que resolveu imprimir as razões de Sampa em forma de gratidão hoje postada em forma de canção as afinações do mundo bom! Traz uma vontade danada de abraçar esta cidade de contrastes mil, de acentuação tônica que se chama Sampa. Sem ela não teria proposito, meio e ação para concluir, intuir o que você acabou de ler.

Conclusão
Ao desembarcar  abri a janela de minha alma, um vento suave ventilou minha vida... desci da boleia do destino e passado tanto tempo posso relatar alegre sobre a cidade que me acolheu e agregou de pronto ao seu sonho latente de liberdade e bem comum, e reparti consigo estas emoções, é que de melhor se pode oferecer  em meio à catarse anunciada, ainda resta a ela força escondida, o desejo inconfessado de democratizar a arte, a cultura e o conhecimento.

Neste chão concreto, me dispus a semear um pouco da semente interiorana, que misturada à citadina fez brotar rosas em meio a duro concreto protendido, e no repente do ritmo empírico deixo a todos os que lerem estes versos um longo e sincero abraço de união, pois somos todos nós e seremos assim!

Na verdade, a cidade me ensinou  a desacorrentar a inspiração de suas esquinas intuitivas, espantar a solidão, intuir seu movimento, entender seus juramentos, inquirir de seus julgamentos, e depois encher o papel em branco com versos de alento.

Se alguém me indagar, então o que faço nesta cidade? Eu diria que ando pelas ruas de São Paulo para recolher alguma inspiração que sobeja nas mesas de bar, depois o exercício de anotar no guardanapo,  ver formar uma letra esparsa, e em seguida  distribuir a quem passa e se demora com um quase poeta... e se detém neste longo caminho estendido... Não mais que isso!

Se disser, que porventura estas rimas mínimas, enfunadas  com gosto pensado, é que empurram as velas do poema em demanda deste tal mundo bom das certezas empíricas, irei discordar um tanto e afirmar que são os ventos invisíveis da inspiração coletiva desta cidade que soem acontecem tal finalização!

Helder Tadeu Chaia Alvim, 
São Paulo, 9 de julho de 2016
aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932



                         
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