segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Obrigado por me trair...

obrigado por trair...

1.Dias antes Louda Iskariôth, galgado à condição de apóstolo, tinha estado na aldeia de Queriot-Ezron, sua terra natal distante de Hebron uns 20 km, e não trazia boas notícias da sua família, pois um irmão seu estava atolado em dívidas e por conseguinte um certo sicário, sabedor de suas ligações com a 'seita' do Nazareno lhe propôs algo inusitado...

2.Já aproximava O Péssach das noites iguais, a primavera começava a florir os lírios do campo contrastando com o espírito transtornado de Louda Iskariôth. O templo de Salomão fora testemunha ocular de um acordo tenebroso entre Louda e Yosef Bar Kayafa. Este temendo as influências do Nazareno deliberou com o conselho dos anciãos sua morte a pretexto de salvar os de sua raça.Ah! o povo eleito e amado por Deus, objeto de tanto desvelo, berço de profetas e legisladores do naipe de Abraão, Moisés, Jeremias, Elias, Gedeão, Macabeus, entre outros...

3. Neste contexto de intrigas, poder, interesses escusos e maquinações que aparece Louda como um possível aliado a franquear aos inimigos de Cristo uma entrada na fortaleza apostólica recém instituida.

4.Hierosolima - a cidade real  estava movimentada naquela semana, judeus advindos de toda a parte se preparavam para os festejos. Ainda estava no ar o perfume de um cortejo que vislumbrou um rei montado num jumentinho e ovacionado pelos meninos dos hebreus: portando ramos olivarum:'Hosanna ao filho de David...'

5.'Pois não era um inimigo que me afrontava; então o teria suportado. Mas eras tu, homem meu igual, meu guia e meu íntimo amigo.'Salmos 55: 12-13. Louda, distinguido e escolhido pelo mestre iria se tornar na história universal um saqar,espécie de patrono de toda a vilania. Isto a troco de 30 moedas de prata.

6. Algum tempo atrás em Betânia ele reclamou do 'desperdício' do bálsamo de Maria de Magdala ao ungir os pés sagrados do mestre adorado.Na qualidade de ecônomo dos doze ele 'pretendia' vender o pote de alabastro e seu conteúdo para 'ofertar aos pobres'...

7.Desconfio que Louda seguira Jesus animado pela perspectiva terrena de um libertador de Israel, frustrado em seus anseios não teve a sensibilidade necessária para entender a obra salvífica a que fora convidado a colaborar. Enfim o negócio fora concluído com êxito e estava em curso a maior, a mais odiosa traição de toda a história humana.

8.Um último olhar ao templo de suas aspirações terrenas,uma última lembrança do mestre e seus prodígios. Mas, possuído pelo anjo decaído Louda se esgueirou soturnamente pelas colunas do pórtico de Salomão e se misturou ao alarido daquele fim de tarde mercantilista.Há muito que o povo eleito perdera a crença no Messias salvador.Ele estava no meio deles e o rejeitariam na cruz, profeririam diante da autoridade romana a blasfêmia deicida, ' que seu sangue caia sobre nós e nossos filhos...'

9.Louda, revestido com a túnica dos seguidores do  caminho, ainda
num faz de conta cínico teve a audácia de comparecer ao cenáculo, deixar-se lavar os pés, partilhar do pão na última ceia. Ao mestre que nada passava batido e na bondade e misericórdia de seu coração disse aos seus Apóstolos que tinha ardentemente desejado aquele momento... E intuindo a maldade de um coração o empurra para a consecução de seu projeto pérfido: ' vá e o faze logo!'

10.Estava finalizado o ato, era véspera do dia mais trágico do mundo, a redenção do gênero humano estava em curso, o sacrifício do gólgota um passo necessário para aplacar a ira do Padre Eterno.Tudo tinha peso, conta e medida e o tempo de Deus não era o tempo de Louda. As profecias estavam prestes a se cumprir...

11.'- Amigo a que veio?' Está desperdiçando sua alma, o filho do homem será entregue, é inevitável, mas aí de quem o entregar! Já era noitinha e o Getsemani se vira iluminado por archotes de soldados a soldo do templo. Após aquele ósculo demorado, o ato mais vil da história humana teve lugar, a pior atitude, enleada pela perfídia se concretizou. Um mercador péssimo entregou seu  amigo Deus nas mãos dos malfeitores, nas mãos da inveja. A traição se consumou e trouxe todas as consequências redentoras.

12.Noite trágica aquela da primeira quinta feira santa, noite em que o cordeiro será entregue para a expiação dos pecados do mundo. A paixão dolorosa começava,Simão Bar Jonas,após um frêmito de coragem, iria negar por três vezes o Mestre, iria se arrepender na sequência, fulminado pelo  olhar do amigo e  mais tarde  se tornaria a coluna da Igreja, nascida do lado aberto de seu amigo Cristo. Louda Iskariôth, ao contrário, vai se desesperar e buscar a fuga no suicídio.

13.Diferente deste, o grande pescador, o arrebatado Pedro, humilde, lhano, após o epísodio do horto das oliveiras e a negação  teria naquelas circunstâncias refletido muito, teria se lembrado das bodas de Caná em que pelos rogos de Maria o mestre transformara água em delicioso vinho.E querendo realizar tudo o que ele disse, se achegou da Janua Coellis, e levantou-se para prosseguir sua missão de pedra ao longo da história.

14.Duas atitudes de alma contrastantes, uma de arrependimento sincero, a outra de completa desesperação, o mercador péssimo com um horrendo ósculo se perpetuou como traidor e arrastou consigo  todos os que maquinaram a morte do justo.

15. O Pedro eterno de nossas canções continua vivo na Igreja contra as portas inferi qui non prevalebunt adversus ea. A caridade de Cristo urgiu mais forte e venceu o mal com a ressurreição ao terceiro dia após a crucifixão.

16.Jesus Cristo antevendo todas as traições da história humana, umas por fraquezas, outras por maldades deliberadas suara sangue no Getsêmani das dores e de seu peito sagrado saíra um brado lancinante a ecoar pelos séculos afora até a consumação do tempo:'Vigilate et orate ut non intretis en tentationem. Spiritus quidem promptus est, caro autem infirma!'

17. E um anjo veio consolar-lhe e Jesus viu o tempo, a grande batalha de Pedro, o pescador de almas, Lino, Cleto, Clemente e uma plêiade de santos que iriam aderir sua Igreja e difundir o seu evangelho do amor. Viu uma multidão de mártires, confessores, doutores, gente simples do povo que iriam alargar na caridade o seu reino até o extremo de suas fôrças.

18. Viu as apostasias, as heresias soprar o veneno de Louda, viu pastores contrariar sua doutrina pura, viu a verdade deturpada, a cátedra de Pedro ser sacudida por ventos adversos, viu a trajetória da humanidade a singrar os mares revoltos da existência.

19. Viu a nossa era quântica dos nióbios na encruzilhada do mundo bom, onde a passarela da moda, o consumismo e a inexatidão da alma dão o tom sinistro em meios à tecnologia da informação e da alta definição. Viu tantos egos exacerbados, tanto poder e ambição na política, tantos desvarios morais na sociedade, tanta manipulação e tanta desesperação de Louda...

20. Ah! a traição, em prosa e versos cantada parece fazer parte da literatura humana, em cada era aparecem as clássicas de arrepiar e houveram tantas. Governos, nações, indivíduos a todos ela enleia em sua malha infernal. E são tantos os casos desta perfídia que ultrapassam em muito as estrelas do céu, a areia do deserto, o respirar dos homens e o conhecimento curto deste poeta mínimo.

21. Quem já não sentiu sua punhalada, me diga? Ela fere, dói na alma, destrói sonhos de fidelidade, ela carcome o tecido da sociedade, ela inveja, ambiciona, mata as uniões conjugais e espalha seu ar fétido por onde passa.Ela enrrola, alicia, seduz e promete o que não tem. Mente, pretende o status de normalidade.

22.Louda Iskariôth, começou a era das traições e ao longo do tempo fez escola, arregimentou seguidores e passou para a nomenclatura como Judas Iscariotes, aquele que traiu o mestre.O poeta  decano Fernando Pessoa deixou anotado: '...traído sim, mas ridículo nunca!'

23.A traição, qualquer que seja, traz em seu bojo o relativismo, a aparência doce, que aos poucos destila seu veneno fatal e sepulta mais cedo ou mais tarde seu usuário na tumba fria de sua maldade. 

24. Aqui jaz alguém que quebrou o contrato de confiança com seu próximo. Alguém que amanheceu seus dias e seus atos não foram condizentes com o mundo bom. Alguém que nas suas atitudes plantou o mal deliberadamente e colheu crises existenciais pavorosas.

25. Alguém que anoiteceu suas noites na volúpia de uma enganação fugaz. Mesmo assim eu lhe perdoo por me trair... pois sua natureza não sabe muitas das vezes o que faz!

                     Conclusão

a. Sete e sete são quatorze, três vezes sete vinte e hum. O tempo passou depressa, a trama de Louda exemplificou o abismo insondável da maldade, a confissão de Pedro e sua posterior abnegação incomensurável a fôrça da verdade que lançou as bases da cidade eterna nas barbas enfatuadas da cidade dos homens.

b. E vieram outros e outros seguindo a esteira de sua fé, continuadores da canção de Deus na terra: 'Pater noster qui es in coellis santificetur nomem tuum, adveniat regnum tuum, fiat voluntas tua sicut in coellis et in terra...'Uma realidade, uma prece, um anseio coletivo de realização plena, ainda em curso...

c. É a lei do tempo soberano sobrepujando sempre o horror da traição e seus planos. O último poema, a última estrofe, o derradeiro verso da história humana pertence a Deus e àqueles que estiverem em sintonia com o sangue do Cordeiro.

d. Quando as trombetas arcanas soarem anunciando a consumação do tempo, apregoada pelos livros sagrados, quando a carne ressuscitada passar à glória ou ao castigo eternos, então toda a verdade acerca da história humana será revelada, tantos os sacrifícios, os atos de bondade, quanto as volúpias humanas estarão patentes aos olhos de todos naquele vale de júbilo ou de tristeza.

e. Uns passarão para a dimensão paulina em que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e os sentidos não provaram... outros infelizmente para o choro e ranger de dentes... uma realidade nada agradável e sem fim na companhia  de Lúcifer, seus sequazes nas dores e fogo inextinguível. 

f. Tanto que a fugacidade nos espreita, as paixões nos enleia em sua malha perigosa que deixo anotado estes simples versos na versão de Deus: princípio  e fim de todas as coisas, desejando a pulso e na oração o mundo bom das certezas empíricas para todos os meus irmãos e consulentes deste blogger mínimo.

g.Que Maria Santíssima possa nos conceder este impulso de alma na calma de sua bondade imensa.Abraços de união!E gracias Dios por tantas bendiciones... É no dizer de Santo Agostinho que deixo-os por hora:'... E é tua santidade que nos eleva pelo amor de tua paz, para que levantemos nossos corações para junto de ti, onde teu Espírito paira sobre as águas, e alcancemos o sublime repouso, quando nossa alma tiver atravessado essas águas que são sem substância.'

Helder Tadeu Chaia Alvim





Postar um comentário