sexta-feira, 24 de junho de 2011

O regresso

1. Então, hoje dia de São João Baptista, das festas e rojões, das fogueiras e pinhões, da alegria contagiante, vamos andar mais adiante e retroceder no tempo, um tempo perdido no seu próprio tempo que para mim foi quando tudo começou e passadas muitas e muitas cachoeiras deslizantes, suas espumas e respingos refrescantes ainda minoram minhas horas de lentidão, calor e desafogam meus prantos em agradáveis devaneios, me mantém vivo, me proporcionam continuar meu canto suave, recebendo de um ombro amigo, meu paraninfo, as salvas do calor humano recíprocas.

2. Ah! como era bom e diferente o céu da terra natal, dourava tudo quanto tocava e fazia brotar canções nos lábios que acariciava, como era belo a vida na casa paterna. Me recordo das cantigas de acalanto, simples, singelas que revelavam a beleza e a bondade do interior de um sertão iluminado, não pelas luzes artificiais de néon, mas pela clareza e sustância de uma era "atrasada" que o destino me roubou.

3. Roubou sem devolver, minhas raízes interioranas, as origens sem fama, a família ao redor da mesa farta, a abastança  dos paiois, a lembrança agradecida, a esperança de uma época bendita. Tudo isso se foi, levado à esmo se foi. Por isso a insistência comovida, a tentativa de resgatar na memória da retina, sem prosopopéia ou animismo, guiada tão somente por um tênue sentimento de otimismo que bate, cutucando as palavras em demanda da essência perdida no mar dos desenganos que a existência quase sepultou.

4. Aquecendo a frieza anônima desta nova plaga,sem calor humano, povoada de fantasmas e histórias desencontradas, onde irmãos vegetam em meio as praças, edificios e sacrifícios que podem levar ao nada.

5. Esquecendo-se do principal, elegeram os acréscimos, o trânsito, os shopings centers como templo de assíduas visitas. A calma deu lugar à pressa, a bondade à raiva, o ter prevaleceu ao ser e somos amontoados na verticalidade da cidade grande que não dorme e não dá espaço mais para o gesto nobre.

6. Ah! lá em casa, não tinha grandezas para contar,mas o afago da mãe Geralda querida, tinha o feijão para escolher, o arroz para bater, a engenhoca da cana de açucar que oferecia garapa na medida só sua,tinha a labuta diária nas louvaras de café, as frescas matas virgens,as casas de pau a pique, o dique das reprêsas , que hoje alegraria os passeios de turistas, que revelaria a riqueza de atos corriqueiros, a leveza dos ponteiros, o passeio de jangada, o proseio no terreirão de pedra, as noites de galanteio entre a lua cheia e os astros de permeio.

7. Tinha sim os remédios caseiros que prontamente curavam todo o mal, o chá de alfa vaca, não faltava no complemento, a febre ia embora e não atormentava o momento. O xarope de saião, que profusão! O emplastro de sabiá, no alívio prá já.O agrião, santo remédio, o capim cidreira, o hortelã, guias solidários se misturados com mel e gengibre não era mister de agasalho.O vermífugo de santa maria, sábia medicina de então, guela a abaixo resolvia toda a questão.

8. Tudo tinha cura, tudo era infusão, a erva doce do mato que achado, sem falar da benziçao contra cobreiros, espinhela caida e uma porção de doenças, uma porçao de superstição. Hoje os citadinos caçoam da época atrasada, da enchada, das juntas de bois. Tem gente que valoriza, que vive nas pesquisas de um tempo que já se foi.

9. Me vejo na cidade grande, conversando consigo, parolando com o amigo paraninfo, a prosa se estende gostosa e vou tentar prosseguir, não sem antes dizer que eu era feliz e não parecia, alegre e não merecia presenciar tantas maravilhas, um marco em minha vida que hoje sob cinzas frias se apresenta longe como uma situação de nostalgia,  Graciliano de Oliveira diria em tom de alegoria.

10. Depois de percorrer muito chão, ver planícies extensas de decepção, tentar ser alguém e colher desaprovação, me encontro escrevendo versos, oferecendo uma reparação àquele sertão do cerne,  fui um daqueles que não quiz compreender na sua verve franca que ele tinha o sonho de continuar a ser simplesmente sertão, o sertão do amanhecer com trinado dos pássaros livres, o sertão da boiada que mugia firme, o sertão das tardes ensolaradas, o sertão do canto triste das cigarras, o sertão dos vagalumes das pradarias iluminadas.

11. Hoje palmiho esta cidade que amo, a cidade que não conheceu o azul distante da estância adorada, a cidade que me deu condições de poder resgatar a alvorada procrastinada em prosa e verso, a alvorard tão distante no tempo, tão próxima no meu coração, a cidade que embala outros quisitos e geme sob os pés da agitação.

12. A cidade que dissipa devaneios, muda os costumes, investe na bolsa, anda louca, tem moeda de troca própria, busca status, glória e fama, não esquenta a cama, tem linguajar de todas as nações, abraça o mundo, tem medo, sono e frio, e não agasalha bem atordoantes calafrios.

13. Estou inserido nela,uma cidade de todas as línguas,de todas as nações, que embala todos os senões, uma cidade de mil razões, mil noções, que caminha, acorda de madrugada, exala um perfume exótico, reparte seu quinhão, uma cidade que expande em muitas proporções, interioriza sentimentos e se encontra solitária em meio aos seus monumentos.Usufruo de sua seiva, me mantenho com esfôrço lúcido e acordado na cidade que amo e não viu o que eu vi, a migração dos pássaros, a revoada dos irerês, as trovoadas naquelas seras azuladas, as noites de aguaceiro pesado, os causos que aguçavam a imaginaçãodos meninos e meninas nos alpendres de um sertão coerente, inocente e feliz.

14. Aqui estou às voltas com estas reminiscências,moldadas com carinho,  espero que tenham eco favorável nos ouvidos de todos aqueles que lerem este simples relato, talvez queiram conhecer um pouco mais, escutar o que escutei sobre a mula sem cabeça, vulga "mulher do padre", alguma louca que tenha seduzido algum sacerdote e recebeu o castigo de perambular sem rumo pelas fazendas da redondeza para pagar sua maldade que a fez perder a cabeça.

15. O lobisomem ou homem e lôbo, que encarnava o male rondava os terreiros em noites de lua cheia uivando um uivo medonho que só temia cruz e punhal de madeira., o saci pererê das traquinagens do paiol, que trançava os rabos dos animais e tinha uma perna só. As almas penadas nas encruzilhadas, a figueira assombrada, a quresma e o jejum, a malhação dos judas, a sexta feira santa das endoenças.

16. As ladainhas entoadas no mês de maio, dedicadas a Virgem Maria, os cruzeiros entronizados nos morros das sesmarias em dezembro, as novenas rezadas no aguardo da chuva demorada, as procissões para afastar geadas e tempestades, a fome, a peste e a praga de gafanhotos em ligeira revoada, a morada do joão de barro construtor,a disparada das ciriemas ruidosas no morro dos coqueiros, a vista deslumbrante do ipês amarelos em flôr.

17.A festa do padroeiro Santo Antônio, as fogueiras de São João e São Pedro, aguardadas todo o ano. O tríduo ao santo guerreiro, as andanças de São Sebastião dia 20 de janeiro, a vivência da fé forte, simples e conforme a crença tradicional.

18. Os vagalumes, a lua clara, o céu estrelado, a préa saltitante, o coelho deorelhas enormes, a alvorada, o pôr de sol e as colheitas abundantes.

19.  Se me perguntar, paraninfo destas estrofes rústicas, que me acompanha sem hesitar e deixa o poeta mínimo falar ao ritmo das emboladas, tangendo a bigorna nesta noite do solstício de inverno quando a caneta desliza no papel no compasso agalopado, na humildade vincado, ajudado por Deus do céu, me alembrando desta façanhas que admiro.

20. Se me perguntar que tempo foi esse e se existiu mesmo? Eu impávido lhe responderei que foi um tempo sagrado, a parusia do mundo bom   que infelizmente escapuliu de minhas mãos.

Helder Tadeu Chaia Alvim
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