segunda-feira, 27 de junho de 2011

Até que o crack nos separe...

até que o crack nos separe...

1. A brisa momentânea liberada traz um gôsto amargo e transforma em fumaça fátua tudo o que aspira. O extâse proporciona uma fuga vazia e perigosa, não preenchendo a aspiração sôfrega nela depositada.

2. Foge-se de tudo, de todos, de si mesmo neste mundo louco sem premissa condizente. O amanhecer é ofuscado, os dias de cinza nublados, as noites de insônias perturbadas.

3. Não vai aqui discriminação, não estou materializando sombras nem condenando a existência do usuário do crack ao nada. O objetivo destas linhas tristes não é impor razões, mas chorar junto, oferecer um ombro amigo e acompanhar as soluções fundamentadas.

4. O livre arbítrio é que determina ações, alertar o semelhante, dizer que resta uma ponte amiga, um horizonte mais além, esta é a fôrça que estas rímas pretendem passar.Trazer o irmão de volta, dizer a ele canções que denotem calor humano e preocupação com a sua presente vida de engano.

5. Quebrar em seu espírito a resistência ao bem, não confundir liberdade de expressão, liberdade de ir e vir com liberdade para se destruir, liberdade de se iludir, liberdade que não dá chance a sua alma de usufruir um teto quente, a herança de uma vida calma.

6. Não permita que o crack separe você de quem mais gosta, que separe você das manhãs de sol claro, das tardes de poesia amena, das noites de melodia, das madrugadas de infindas serenatas que a pessoa amada traz.


7. Atos singelos valem muito mais que o momento passageiro e perigoso de uma fungada paranóica. Um violão, a guitarra, a flauta, a gaita serão companheiros de jornada lírica e não aqueles delírios de dez segundos da pedra do mal em cristal.


8. Viver  a vida lúcido já um problema e tem como usufruir dos brilhos que a sorte nos oferece, agora com o corpo elevado em  temperatura, adquiri-se  doença  de difícil cura. Ficar com os neurônios livres de depressão é o que tem de belo na vida.


9. Simples versos, simples rimas, assentadas na inspiração, literalmente carregadas de preocupações, nulas de preconceitos, tristes, muito tristes pensando naqueles que se deixaram enlear pelos tentáculos terríveis da pedra, derribando sonhos, delineando sulcos profundos nas faces marcadas para morrer.

 10. Este é um problema de toda a sociedade, uma mistura corrosiva que empurra para a deriva vidas consumidas na penumbra acessa quase sem volta. Um verdadeiro horror, seres humanos, irmãos nossos que se envolvem na pedra da degradação.


11. Palavras duras, mas  nem de longe retratam a realidade crua que os efeitos da grande depressão inoculada no sistema nervoso central  disseminando pavores que a euforia disssimula.

12. Bastam 365 dias de gradativo efeito narcótico e o usuário já está assinando seu obituário compulsivo. Os dados estão nas estatísticas comprobatórias e na larga experiência daqueles que heróicamente se posicionam contra esta situação, quer o poder público, organizações particulares, ongs, quer o nicho da sociedade, quer os familiares das vítimas em potencial.


13.  Mas sem a vontade do usuário nada poderá ser feito em concreto. Por isso entra uma informação pertinente, que ele deve querer e a sociedade num todo criar condições para esta vontade se fortalecer a ponto de vencer o mal em sua totalidade. É todo um mundo a ser pensado, são atitudes a serem revistas, são reservas de generosidade a serem despendidas a favor do próximo.

14. É pedreira, é dureza encontrar-se desamparado da sorte, se não aparecer um bom samaritano, dez mil bons samaritanos, tudo se extinguirá no próximo trago. Não permita pátria minha, pátria nossa, pátria deles que os descaminhados pereçam, mas retornem a sua presença, qual filhos pródigos e usufruam das benemerências e fartura de sua mesa.

15. Não permita a eles o estrago fatal, seres humanos capazes de forjar para si e para os seus destinos audazes de luz, hoje barbaramente ofuscados pela absorção maldita desta droga fatal. Que amanheça logo o dia diferente, longe, bem distante deste tormento e desenvolvam doravante suas aptidões de craques em várias direções.

16. Não permita que um abismo chame o outro, que eles entreguem seus objetos pessoais, os de casa, que se prostituam, que se engendrem na deliquência, que se apague em seus corações a fé em Deus, a fé em si mesmos e que aquela tênue vontade de segurar na tábua salvadora se transforme em propósito firme e os arrime para a superfície.

17. A tinta escasseia no papel sulfite, mas lembrando de seu estado cruel, a caneta insiste absorvida em diretrizes, persiste em continuar madrugada a fora e ela me diz: - poeta fale alto, grite o bastante, seu semelhante está em apuros, inseguro, alguém há de escutar seu eco e multiplicar o elo até ao infinito.

18. "Senhor Deus dos desgraçados..." Até quando, Senhor? Até quando esta fórmula maldita dos infernos estará facinha à disposição dos interessado(s), endereçado(s) à morte? Até quando, estas sombras materializadas em pequenos estalidos darão existência ao nada?

19. Não acredito na liberação da droga, já que a celeuma está no ar, é bom lembrar que países que a constituiram e veicularam tal prática estão voltando atrás e revendo rapidinho suas decisões e conceitos. Na era moderna com tudo acontecendo ao mesmo tempo e na velocidade de um Ipad 2, é mister um grau de discernimento incomum  e qualquer substância que possa alterar este comportamento retarda decisões fundamentais e projeções essencias da vida humana.

21. Sou adepto da beleza da natureza, da paz sem limites, das brisas verdadeiras, do extâse dos santos, da comunhão do bem, das alegrias que a existência simples tem.Ser livre é poder caminhar nas manhãs ensolaradas, é poder admirar o pôr do sol, os saraus poéticos do mundo bom. É poder observar o irmão e dizer olho no olho, achegue mais perto a vida tá cheia de mistérios e a sacada genial é vivê-la qual águia das planícies solidárias, a satisfação do momento é sentí-la na amizade com o pulsar do coração em todas as direções.

22. Isto um dia foi assim, num passado remoto perdido nas noites de um tempo que não volta mais. Podia-se calmamente aguardar o sol raiar, esperar a lua chegar. O sertão acolhia a todos sem distinção, agasalhava o homem, sustentava a natureza com profusão. Veio o progreso, a ilusão de carona, convidou os habitantes para subir na boléia e conhecer a cidade grande e não lhes deu a acolhida prometida e tudo virou confusão gigante.

23. Daí a procura por meios ilícitos de prazer, tudo ficou difícil e muita gente perdeu o juízo e a saudade de suas raízes, a saudade de um tempo sem crises escapuliu de suas mãos. O sertão se descaracterizou, a televisão endeusou a matéria e coisa séria ficou no museu do som sem a imagem verdadeira.Tá bom?

24. Não sou canditado ao altar, só escrevo para resgatar nas palavras o sabor que a existência tinha, frisar o que muitos não conheceram, mas existiu mesmo. Não foi este modelo de civilização afeita ao dinheiro, consumindo bens, devastando o terreiro do planeta, não! A natureza vivia em harmonia perfeita, as matas estavam preservadas, as plantas desabrochavam de janeiro a janeiro, os animais selvagens tinham seu habitat de verdade, o homem tinha visão diferente e não ousava desafiar Deus, autor da criação.

25. Baseado na lei natural, deixava a consciência guiar seus arroubos de entusiamo e parecia uma eterna criança afeiçoada ao brinquedo, sem os arremedos da era atual, dita pós moderna que mata seus filhos, permite desvios e tolda os horizontes de calafrios monumentais.

26. O gênio de Cartago, Agostinho, dissera que dois amôres construiram duas cidades, realmente tinha razão o doutor patrístico, pois do sublime amor a Deus e ao próximo dimanam  uma sociedade diferenciada sem muros, prisões, alocuções infundadas, garantida no amor, cancionada nos poemas do coração, no respeito ao semelhante, sem incidência em loucuras, sem precisão de fugas ilusórias, calçada em sentimentos puros, sem a busca desenfreada por aplausos, sem os louros picantes de um consumo louco.

28. O topo da fama consiste em querer bem ao semelhante, entender que ele tem uma alma que canta, sonha, cora, se alegra e tem o mesmo direito ao sol que os demais. Enquanto converso consigo, o destino torto leva alguém que amamos para o beleléu do abismo sem retorno, túmulos se abrem vorazes todos os dias sepultando  tesouros que a pedra malévola consumiu para sempre.

Helder Tadeu Chaia Alvim

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